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19/11/2016 / Paulo Wainberg

Pauliana de sábado

Comecei este sábado da pior maneira possível: Acordando.

E, pior ainda, às seis.

O que fazer as seis horas de uma manhã de sábado que não seja chato (caminhar), que não seja insosso (ligar a TV), que não seja inútil (tentar dormir novamente)?

Optei por fazer a única coisa que parecia ter sentido, isto é, nada.

Fiquei olhando para o teto, para o lustre, para a parede da direita onde tem uma janela fechada, cocei o calcanhar do pé direito e, quando me dei conta, estava me imaginando numa cela de prisão, posto lá por ordem de um juiz  em razão de vários crimes (ou apenas um) cometidos.

Pensar nisso foi me inundando de uma incrível sensação de paz e tranquilidade. Que maravilha estar preso, não ter compromisso, não ser obrigado a sair de casa, não precisar falar com ninguém, estar simplesmente em repouso, em estado de nada!

Um movimento do lado esquerdo arrancou-me o devaneio, mas nada vi, talvez um inseto, uma sombra fugidia de cortina, uma alucinação inócua ou, provavelmente, algum fantasma em busca de sua alma gêmea.

Os sons da manhã clareando entraram, sorrateiros, quarto a dentro. Pios, farfalhares de folhas, a palma envelhecida de uma palmeira caindo sobre a poça restante da chuva anterior.

Calculei minhas opções: Ir ao banheiro era uma, quase imperiosa, tudo bem, mas e depois? Pegar o jornal, tomar um café, caminhar de um lado para o outro pela casa, telefonar para alguém, ir para a facebook, jogar freecel no computador, ler, sim, ler era uma boa alternativa.

Qual um imponente general (Harrison Ford, por exemplo) berrando: Fire!, entrei na minha biblioteca e admirei, não sem certo orgulho, minhas estantes repletas de livros, minuciosamente dispostos na mais absoluta desordem e iniciei minha ginástica literária, consistente em torcer o pescoço para a esquerda e para a direita, tentando ler as lombadas e escolher um título que naquele horário já beirando às sete, me dissesse a que veio, me despertasse um mínimo de tesão intelectual (eis que a outra, por falta de objeto, estava totalmente adormecida) e assim, dedo em riste e prestes à um torcicolo, desisti, meu espírito não estava para leituras.

Remédios. Sim, bem que podia tomar meus remédios, resolvendo esse problema diário de uma vez por todas. Mas, que diabos, hoje é sábado, até as preveníveis insuficiências e possíveis doenças tem direito a um dia de descanso, os remédios vão esperar, serão tomados mais tarde ou simplesmente deixados para domingo.

Abostalhado no sofá da sala, vendo os segundos, cada um deles, passar, maldisse a má sorte de ter despertado assim tão cedo. Lamentei tudo. Comecei pelo dia em que nasci, por que não me deixaram nas profundezas intestinas de mamãe, por que tinha que vencer aquela corrida, por que não me deram uma bicicleta quando fiz seis anos, por que a bola que, tanto incomodei, me deram, furou em dois dias, por que, por que, por que?

No relógio são oito horas.

Bem, agora não há desculpas, é o meu horário normal de acordar. Mesmo sendo sábado, nada mais podia ser adiado.

Com um suspiro resignado, levantei do sofá, caminhei até o armário, abri a garrafa e tomei o primeiro gole.

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