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23/04/2016 / Paulo Wainberg

Foi assim

Começou exatamente como começaram as milhares de gripes (2.722, segundo os organizadores) que já tive.

Olhos ardendo, tosse, cascata nasal, tremor no corpo, crise de espirros.

Como sempre, segui o protocolo, comprimido, chá, cama e sono até acordar melhor, repetir o protocolo e, no terceiro dia senti-la abandonando meu ser.

Porém, desta vez deu-se que, ao acordar, estava na CTI do Hospital, meus braços cravejados de agulhas, acessos e esparadrapos, meu peito robotizado por apliques dos quais saiam fios que me ligavam a duas máquinas infernais.

E no indicador um torturante, mas torturante mesmo!, dedal que enviava a uma das máquinas tudo sobre minha vida, inclusive o número de uma caderneta de poupança que meu pai abriu para mim quando fiz doze anos e que se perdeu na poeira da fungibilidade bancária.

Tal máquina, à mais mínima alteração de minha respiração começava a badalar um sino capaz de acordar qualquer moribundo prestes a dar de si, nas entranhas daquela CTI.

Foram quatro dias a mercê de médicos e enfermeiras (todas gentis e bonitas), a cuidar de mim como se eu fosse a trigésima maravilha do planeta Kronk, sempre a me rodear e a perguntar se eu estava com dor (não!), se eu estava com falta de ar (não!), se eu queria alguma coisa (Sim, o papagaio para fazer xixi, porque a quantidade de diuréticos que me fizeram ingerir me transformaram numa verdadeira mangueira humana.
A parte divertida era a hora do banho. Gentis e risonhas enfermeiras me pelavam ali mesmo, na cama, e sem nenhuma cerimônia me ensaboavam, me lavavam e, principalmente me manipulavam de um jeito despudorado e, ainda por cima, faziam piadas e riam às soltas.

É que, enfraquecido como eu estavam, praticamente sem nenhuma capacidade de reação, elas podiam me tocar a vontade que eu quase nem notava e se notava fingia que não. Confirmou-se o velho adágio popular, segundo o qual Deus da CTIs para quem não tem forças.

Queria ver elas fazerem aquilo comigo hoje!!!!

O que afinal havia acontecido, pois eu não lembrava de nada além de me meter na cama para dormir, sob as agruras da gripe?

Testemunhas revelaram que parei de reagir. Me chamavam e eu não respondia. Tentavam me levantar e eu desabava. Chamaram a ambulância e me levaram direto para a emergência.

Outras testemunhas contaram que eu estava tão mal que os prognósticos eram nada bons, muitos já imaginando quais os caminhos que minha alma perdida percorreria no Além.

Os bobinhos, não contavam com a minha… Bem, com a minha ausência. Sim, porque para mim nada disto aconteceu. Não corri nenhum risco e, em nenhum momento senti medo ou temi por minha vida.

Fiquei (sempre segundo as testemunhas) quase doze horas com uma máscara de oxigênio absurda, que cobria todo o meu rosto, na CTI da emergência, local reservado para os praticamente terminais… Médicos amigos entravam para me ver e saiam com olhos marejados, temendo simplesmente a minha morte.

E eu, nem aí.

Isto me faz refletir sobre essas questões da vida e da morte. O que me aconteceu fugiu totalmente do meu controle e da minha consciência. Eu poderia ter morrido sem nenhuma ingerência no assunto, sem sequer me dar conta da iminência da coisa. Se ter tido tempo para um medinho que fosse.

Assim, o medo, a expectativa, a ansiedade das testemunhas não passou por mim. Contavam coisas e podiam estar falando de outra pessoa, cheguei a imaginar que tudo não passou da imaginação deles, uma espécie de histeria coletiva em que eles me imaginavam à beira da morte enquanto eu, na máxima tranquilidade, dormia.

A prova pericial demorou mas veio: Pneumonia, infecção, edema pulmonar e infarto enzimático (o tipo de infarto que não aparece em lugar nenhum nem deixa qualquer marca, como se nunca tivesse existido) que só aparece no exame de sangue.

Resultado, duas semanas em casa, me recuperando de uma fraqueza absurda que só agora começa a desaparecer.

De todo o episódio, tiro uma grande lição, que servirá de norte para o resto da minha vida: Nunca mais acreditarei naquela frase que ouvi durante anos: – Levanta dessa cama, rapaz, é só uma gripe!

 

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