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12/03/2016 / Paulo Wainberg

A dor ensina a gemer

Atlas, na mitologia grega, foi condenado por Zeus a sustentar os céus nas costas, após a batalha em que os filhos de Saturno derrotaram os Titãs. O próprio Saturno foi acorrentado com anéis que o circundam até hoje. Prometeu, irmão de Atlas, foi preso a uma montanha onde, todo o dia um abutre devorava seu fígado que, à noite, se regenerava.

Todos eles, os Titãs, tiveram seu castigo cruel e que até os dias atuais os torturam.

Agora eu pergunto: O que é que eu tenho a ver com isto? Por que razão fui condenado a sofrer dores nas minhas costas se jamais desafiei a autoridade de nenhum deus olímpico?

Ao contrário, sempre gostei deles,admirei-lhes as qualidades e perdoei-lhes os defeitos, amante que sempre fui das histórias da Antiguidade.

E, no entanto, como se estivesse carregando o Universo com meus mortais ombros, volta e meia sou acometido de dores lombares paralisantes, tão fortes que já foram comparadas às dores femininas do parto e, em esferas menores, às cólicas menstruais.

Não sei com o que comparar essas dores que surgem do nada, sorrateiras e insuspeitas, basta um simples meneio da cintura, um abaixar para ligar o carregador do celular à tomada ou simplesmente tossir.

Vem aguda, incisiva e, por que não dizer, perfunctória!

Mal dá tempo de dizer ‘ai’ e, ipso facto, instalou-se definitiva, a amaldiçoada dor, a determinar-me remédios anti-estomacais, repousos exaustivos e sonos anestésico.

Já percorri todos os caminhos indicados por médicos, diletantes e colegas de sofrimento, desde a acupuntura, infiltrações, poções mágicas, massagens holísticas e exercícios de regeneração.

A dor na minha coluna tem vontade própria, surge quando lhe aprouver e desaparece quando quer.

Exatamente assim, de repente a dor para de doer e estou, novamente, bom.

Se ao menos à tal dor correspondesse a glória de carregar o Universo sobre meus ombros eu seria lembrado, como Atlas, como um forte trágico, um verdadeiro titã a glorificar alguma coisa, qualquer coisa.

Entretanto, não.

Resta-me a dor para gemer.

E a ausência dela, temendo o seu retorno.

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