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04/02/2016 / Paulo Wainberg

Assédio

Certos dias a literatura me incomoda quase tanto quanto uma ex-esposa. Irritadiça, impaciente, exigente e repleta de mágoas a derramar rancor sobre mim.

Porém, uma ex-esposa faz tudo isso e some, ao menos por uns tempos.

A literatura não. Fica, permanece, não dá sossego um segundo, cobrando meus favores, exigindo minhas palavras, acusando minha inércia, minha preguiça, meus desvarios e meus afetos.

Não há basta que a acalme ou a que ela obedeça.

Afasta meus argumentos um a um, com o desprezo digno de quem está diante de um serviçal inferior, a rainha arrogante tapando o nariz diante do cavalariço e cobra, cobra, cobra, suga de mim a última lamúria, a derradeira golfada de suspiro até que, exaurido, sucumbo.

E como a uma ex-esposa a quem defiro o aumento da pensão alimentícia, dou à literatura aquilo que ela me pede, os meus cem por cento de atenção.

E ponho-me a escrever.

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