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14/01/2016 / Paulo Wainberg

Drones e Mein Kampf

Dois fatos que li no jornal me fizeram pensar, e muito. O primeiro foi um anúncio de página inteira, oferecendo drones por pouco mais de quinhentos reais.

Drones são aparelhos voadores, guiados por controle remoto e municiados com vários apetrechos, inclusive câmara fotográfica e filmadora.

Na prática, possuem fins militares e são utilizados para espionagem sem por em risco a vida do espião.

Acho uma temeridade, nestes tempos de alta tecnologia e avanço substancial do terrorismo, que esse tipo de aparelho seja colocado à disposição – quase de graça – do público. Quem o comprar estará apto a fotografar e filmar o que bem desejar.

Maridos e esposas desconfiados, alguém disposto a explodir um mercado público, mesquita, igreja ou sinagoga.

Para assassinar um desafeto.

Para planejar um assalto.

Para, eventualmente, fotografar ou filmar uma bela paisagem, um momento grandioso, um evento extraordinário e crianças brincando.

 

A outra notícia foi a liberação do Mein Kampf (Minha luta) de Adolf Hitler.

Milhares de edições serão postas à venda no mundo inteiro por se tratar de obra de domínio público, isto é, não há propriedade sobre direitos autorais.

Esse livro foi escrito pelo facínora na prisão, onde esteve depositado após sua fracassada tentativa de golpe de estado, tramado numa frequentada cervejaria em Munique.

Hitler foi um obscuro e medíocre austríaco, com ambições artísticas fracassadas, dominado por ódios e preconceitos estarrecedores até mesmo para a época e, provavelmente (isto é uma especulação), esquizofrênico paranoico ou dominado por arrasadores complexos infantis.

Tinha, entretanto, um dom: Era um grande orador, sabia cativar que escutava seus discursos, através dos quais destilava seus ódios raciais, sua megalomania para um povo, o alemão, com uma tradição cultural extraordinária que, então, vivia submetido a um grotesco tratado que assinou ao fim da Primeira Guerra Mundial, quando se rendeu, o famigerado Tratado de Versalhes que transformou a Alemanha num país de segunda categoria e os alemães e uma massa inexpressiva e arrasada por gravíssimos problemas econômicos e ameaçada pelo seu Partido Comunista com mais filiados do que o Partido Comunista russo, já um país comunista.

Como obra literária, ou manifesto político-filosófico ou manifestação de propósitos, Mein Kampf só pode ser chamado de livro porque possui páginas impressas encadernadas e capa e contra capa.

O conteúdo, tanto formal quanto substancial, é um conjunto mal-escrito de bazófias, acusações e desejos de extermínio, conquista e genocídio.

Não foi por ele que os alemães adoraram Hitler. Foi devido aos seus empolgantes discursos.

O povo, até então sem nenhuma auto-estima, viu-se possível graças a uma apregoada superioridade racial, raça da qual sequer Hitler fazia parte, a raça ariana que, sequer era, ou é, uma raça.

Concluo para recomendar, se é que tenho autoridade para recomendar alguma coisa, que ninguém compre drones e que, quem quiser, leia Mein Kampf.

Eu vou reler o livro e não vou comprar um drone.

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