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16/12/2015 / Paulo Wainberg

Os curiosos

Afinal, quem são os curiosos ao redor de desastres, assaltos e outros eventos dramáticos de nosso cotidiano.

Esta educativa coluna, preocupada em decifrar os principais enigmas da existência, não deixaria questão de tal relevância passar em branco e, ipso facto, lançou-se à irredutível pesquisa cujo resultado, a seguir, passamos a expor.

Sabemos que ao redor, por exemplo, de um atropelamento, forma-se uma pequena multidão de curiosos a observar o andamento das ações oficiais e o desenlace do episódio.

Serão, na verdade, curiosos? Respondo que sim, são.

Você não verá curiosos observando alguém passeando na praça, tomando cafezinho do bar ou sentado no ônibus. Não! Esses fatos não atraem curiosos.

Os curiosos estão em busca da tragédia, do insólito, do inquietante episódio, afinal não é todo o dia que se vê pessoas mortas no meio da rua ou bandidos com reféns dentro de um banco.

Então você que por ali passava, levando sua vidinha chata de sempre, indo a algum lugar sem nenhuma vontade de ir e louco que aconteça alguma coisa estimulante para dar um pouco de sentido à sua vida, depara-se com um episódio assim, um pequeno terremoto, a troca de tiros entre bandidos e policiais, dois ou mais envolvidos numa troca de socos e… estanca sua caminha para olhar.

Como você, muitos outros de vocês, inclusive eu, ficamos curiosos e, por momentos, esquecemos nossas agruras e paramos para assistir, em busca de alguma emoção.

Por que somos curiosos? Porque queremos ver o final do capítulo, o que vai acontecer, o deslinde, o encerramento, ansiando para que demore, que demore muito, se possível o resto do dia e a noite inteira, antes do clímax final e da inevitável, vazia e frustrante dispersão.

Malgrado falsas angústias internas, queremos sangue, queremos ação destruidora, tiros e de preferência um linchamento do qual participaríamos com não contida alegria.

Porque somos assim, a multidão, sanguinolentos, carniceiros,impiedosos, cruéis e… Curiosos.

A curiosidade matou o gato, ensina o dito popular. Mas não no caso sob nossa análise. Talvez até, por obra de uma bala perdida, um dos curiosos seja ferido e até morra. Faz parte e, de um modo que sequer ousamos admitir, até se deseja que isto ocorra, desde que seja com outro, é claro.

O curioso da tragédia vai ter o que contar em casa, o episódio em si no segundo plano, abaixo do fingido horror que se diz ter sentido.

Reconheço que existem categorias diferentes de curiosos, inclusive os que dão uma olhadinha para ver o que aconteceu e seguem em frente, pois não podem perder tempo com bobagens. Inclusive o herói que, graças ao seu heroísmo vai estragar o fim de semana da família, colocando-se na linha de tiro para ajudar um policial ferido. Ou um bandido. Inclusive o que torce para que tudo dê certo e termine bem. Inclusive o que, no dia seguinte, vai deixar flores de homenagem para sentir-se humano e mostrar que nem tudo está perdido.

Sim, os curiosos do horror são muitos e de vários tipos e, com um pouco de sorte, dão até entrevista para a televisão, sobre o que está sentindo diante de tal catástrofe e depois pedirão cópia à emissora, um DVD a comprovar seu grande momento de fama.

Os curiosos engrandecem a imagem do desastre, dão consistência à foto do jornal ou à imagem da TV.

Eles estavam lá!

Concluímos nossa pesquisa constando um fenômeno assaz significativo, o curioso in loco é diferente do curioso de televisão, este que, em casa, salvo e sem sobressalto, muda o canal pensando: Que horror.

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