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16/11/2015 / Paulo Wainberg

Paz e guerra

Quando eu era adolescente, aí pelos 16, 17 anos, achava que tinha nascido na época errada. Eu queria ser um poeta romântico do século XIX e morrer tuberculoso no máximo aos vinte e cinco anos.

E me punha a declamar, aos berros, poemas de Castro Alves diante do espelho e, quase sempre, acaba chorando.

Sofria do ‘mal du siècle’ no século errado e divagava sobre as glórias da vida intensa dos poetas franceses, pobres e viciados em absinto, lendo poemas nos cafés de Paris em troca de um café e de um ‘baguete’.

Então, sem imaginar que podia ser um escritor, escrevia nos meus cadernos, poemas e textos pungentes nos quais a dor, a solidão e  amores impossíveis assomavam minha alma. Guardava sempre numa gaveta e, pelo que sei, jamais foram descobertos por meus pais até que, por medida de segurança, anos após, joguei tudo fora sem ao menos reler.

Muito tempo depois, já adulto e mais informado sobre a vida, passei a sentir um medo recorrente: Eu sabia o que estava fazendo? E se subitamente eu saísse a matar gente, a praticar ignomínias e crimes horrendos? Como eu poderia controlar minha mente e o que garantia minha sanidade?

Mais tempo passou e passei a elaborar filosofias sobre as condutas humanas, as fúrias religiosas, a falta de crença e minha impossibilidade quase absoluta de possuir alguma fé.

Mais ou menos nessa época li o romance O Drama de Jean Barois, do francês Roger Martin du Gard, que consistia na questão essencial, a dúvida sobre as próprias crenças. Jean Barois era um ateu convicto que combatia a fé e a religião de forma protocolar e ativista, até que, na iminência de ser atropelado por uma carruagem, implorou a Deus que o salvasse.

Assombrado e perplexo, escreveu e publicou um texto afirmando que se algum dia manifestasse qualquer crença em Deus ou santos, estaria louco e deveria ser internado num hospício.

Entretanto, quanto mais envelhecia, menos convicto ficava e acabou por tornar-se um fervoroso cristão e católico praticante.

Aquele livro mexeu com meus nervos, mas não abalou minha falta de fé.

Mais tempo passou e comecei a debochar das religiões e seus ritos e pouco demorou para ficar convencido de que a religião, a tradição e a superstição são os grandes males da Humanidade que, sem estes ingredientes viveria mais feliz e em paz.

Aí me dei conta que, em toda a História, não houve um minuto de paz. Em algum lugar do planeta havia sempre uma guerra em andamento.

E isto acontece até hoje, o que me leva a concluir que a única razão para a humanidade não ter paz é a própria existência da humanidade.

Continuo ateu e não vejo nenhuma razão para mudar.

E não precisamos motivos para a guerra, basta-nos existir.

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