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24/10/2015 / Paulo Wainberg

Poesia e crítica

– Oi vizinha, posso pedir uma coisinha?

(revela-se já no primeiro verso o estilo instigante do poeta: Quem faz a pergunta, um homem ou uma mulher?)

– Claro, peça, por favor.

– Primeiro entre, finalmente chegou o elevador.

(usando aparentes rimas frágeis, o poeta mostra a riqueza subjetiva do fazer poético, sugerindo que, ao oferecer passagem, o sujeito é homem).

– Nossa, que calor, você deve estar suando, assim de terno e gravata.

– E você… Um refresco aos olhos, com sua quase transparente bata.

(postulando uma falsa sensualidade parnasiana, o poeta introduz sutilmente, fruto de uma angústia criativa invejável, uma hipótese possível para o pedido inicial).

– Obrigada. Xi, esquecemos de apertar o botão, você também mora no sétimo, né?

– Sim, somos vizinhos de porta, não lembra?

– Claro que lembro, foi só para confirmar.

(o poeta, em suas anotações, revela recursos suficientes para, entre o realismo mágico e o pós-moderno, pairar como um dinâmico acréscimo da linguagem, entre o coloquial e o prosáico. Magnífico)

– O que é mesmo que o senhor ia perguntar?

– Como? Ah sim, eu quero lhe pedir uma coisinha, nada de mais.

– E o que seria?

(“o que seria”, não ‘o que é’, não ‘o que será’, não ‘ que coisinha’. Não. “O que seria?” é a pergunta improvável no texto, a questão indelével a figurar no verso como uma hipotética condição. Revela-se aqui o intenso e quase trágico, quase cômico, no fazer do poeta).

– Seria… Como dizer… Espere… Eu…

– Fale! Pode falar. Você é tímido?

(a mudança radical a sugerir um interesse não apenas frívolo da interlocutora. Ela troca ‘senhor’ por “você”, maneira sutil, mas real, que o mestre utiliza para revelar que a interlocutora pretende deixar o sujeito mais à vontade. Os cânones certamente acolherão o gênio e, talvez um Nobel, ainda que póstumo, a homenagear o vate).

– É que eu gostaria muito de foder você.

– Sério? E qual o problema?

– Sei lá, talvez… Tive medo de ofender…

– Que bobagem! Eu cobro duzentos reais a hora.

– Só? Então vamos logo, sem demora.

– Gozado, chegamos ao sétimo?

– Sim.

– E você é, hoje, o meu sétimo.

( De que modo poderia a crítica tradicional situar-se diante da obra-prima sem alarde, sem gritos de alegria? Finalmente a poesia renasce apesar da morte do poeta, fulminado por ataque cardíaco em pleno ato. Para deleite intelectual de acadêmicos e amadores, o poema se construiu, forma e conteúdo, como um ser vivo e pulsante, sem que veleidades histriônicas e arritmias de ocasião bradem fuleiros comentários, diminutivos aviltantes e longas verborréias sobre métrica e redondilhas, tanto maior quanto menor. Felizmente a interlocutora conseguiu anotar, em detalhes que a nós sublimam, o texto integral do poema, feito vida, para a vida e pela vida).

 

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