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18/08/2015 / Paulo Wainberg

Falsificação

Meu nome é P e sou um escritor fracassado. Não, não me orgulho disto porque, como eu, existem milhares de outros escritores fracassados.

Fosse eu o único e estaria exultante, feliz com minha exclusividade.

Sei que minhas duas dezenas de fãs, a grande maioria constituída de parentes, não irão concordar comigo, dirão que absolutamente não sou fracassado, sou um sucesso e que minha literatura, de tão revolucionária, será reconhecida em, no máximo, cem anos quando então a humanidade, o povo e a crítica reconhecerão a grandeza de minha obra e ocuparei meu merecido lugar na lista dos mais vendidos.

Não ligo.

Sou fracassado e sei a razão do meu fracasso. Isto, enquanto escritor, me basta e não me retira a vontade de escrever, não afeta minha criatividade e não reduz em nada, mas em nada mesmo, minha auto estima.

Aliás, no referido tópico da auto estima devo esclarecer que é impossível reduzi-la por falta de zeros suficientes antes da vírgula, por isto é que não me importa o fracasso.

A ideia de ser um escritor de sucesso repugna à minha índole, fosse eu um e estaria definitivamente enquadrado, isto é, minha literatura seria do tipo que todos gostam e eu, nesse caso, não seria um escritor legítimo e sim um eco repetitivo do gosto alheio.

A fama me transformaria num ser alheio, fazendo e representando o que os outros quereriam que eu fizesse e fosse, portanto onde ficaria minha autenticidade? Onde esconderia meu verdadeiro eu que, a rigor, está escondido de mim mesmo a ponto de, muitas vezes me ocorrer que meu verdadeiro eu sou eu mesmo e que não há nada a esconder.

“Enfin”, como dizemos em Francês, seguirei meu destino de continuar escrevendo, aumentando a cada página, a cada linha, a cada frase, a cada palavra, meu fracasso.

E quando, na poeira dos tempos, tudo estiver pulverizado, serei apenas mais um que ninguém soube que existiu.

2 comentários

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  1. Paulo Bentancur / Ago 18 2015 8:26

    Paulo, simplesmente uma obra-prima! Pretendo postá-lo na minha página do Facebook! Posso? Vai por mim: posta esse texto no Face, IMEDIATAMENTE! Vai bombar! Aí eu posto uns dois dias depois, compartilhando tua página. Teu texto chama a atenção para esse drama, essa tragédia imensa em termos de mal-entendidos. Genial e desconcertante, de uma contundência única. Beijos de carinho e admiração. Saudades! (Paulo Bentancur)

    Gostar

  2. Claudia Pechansky / Ago 18 2015 9:34

    genial primo !

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