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12/08/2015 / Paulo Wainberg

O presciente

Fui abençoado com um dom maravilhoso que tenho usado como um norte, na minha vida: Quando começo alguma coisa, sei exatamente como ela vai terminar.

É uma presciência natural, não exige nenhum esforço, nem mesmo um raciocínio.

Não funciona sempre, certos inícios apontam um final obscuro e incerto e, quando isto acontece, desisto de iniciar e parto para outra.

São vários os exemplos de que disponho para ilustrar minha extraordinária aptidão, posso oferecer um para favorecer os curiosos, sempre que entro na água sei que vou me molhar.

Sempre.

Com base na minha capacidade, fui levando a vida, se queria começar algo com uma guria e o final não me agradava, começava algo com outra, cujo final me agradava.

Começar uma coisa sabendo como ela vai terminar é divino e dá uma sensação de poder extraordinária, por vezes difícil de controlar.

Certo da infalibilidade de meu poder, em certos momentos da vida arrisquei, mesmo quando não era clara a visão, nada mais do que um indício do final do que estava iniciando e sempre me dei muito bem, o que aumentou minha convicção e alicerçou minhas decisões.

Nunca questionei a origem desse dom, se era um atributo a mais que Deus colocou à minha disposição, ou uma mistura genética de neurônios compatíveis que ampliava meus poderes de percepção, apenas convivi com ele e aproveitei o máximo que pude.

Minha vida deu tão certo que abandonei a prudência ou a cautela e tudo o que iniciei terminou exatamente como eu sabia que terminaria.

Até que um dia, mais propriamente numa manhã, acordei e percebi que minha habilidade sumira. De tal modo e de forma tão absoluta que, enquanto escovava os dentes não sabia se eles ficariam limpos ou não.

De presciente tornei-me um a mercê, totalmente incapaz de prever o resultado das mínimas ações que pudesse praticar.

Senti medo, pavor, pânico.

Não estava acostumado com aquilo, não sabia como ou o quê decidir, paralisado pelo próprio destino.

Recebi ligações, visitas, e-mails, torpedos e todo o tipo de mensagem preocupada, mas não saí da imobilidade. Apenas olhava para a parede do meu quarto, ornada por uma obra de arte cujo autor não fazia a menor ideia de quem era.

Levaram-me para fazer exames, radiografias, tomografias, espectrografias cerebrais, lavagens, colonoscopias, exames de próstata e testes de função erétil e eu ali, manso e passivo, como se não fosse comigo.

Psiquiatras, terapeutas, fisioterapeutas, analistas, neurologistas e toda a gama da especialidade médica cuidou e tratou de mim e nada acharam de errado.

Eu simplesmente tinha sido desligado.

Certa noite, sozinho em meu quarto, resolvi calçar os sapatos para ver o que acontecia. Era um avanço, embora eu ainda não soubesse.

Mal os senti colocados em meus pés, levantei e saí a caminhar pelas dependências da minha casa, até parar diante da geladeira.

Abri o freezer e vi um pote de sorvete de flocos. Sem pensar abri o pote, peguei uma colher e comi o sorvete todo.

Duas coisas eu havia aprendido naquela noite: Sapatos eram para caminhar e geladeira era para guardar sorvete.

Desde então minha vida tem sido um aprendizado diário, constante e ininterrupto, como se eu fosse um ser de outro planeta descobrindo as coisas da Terra.

Porém, acho que meu dom voltou. Há poucos minutos comecei a escrever esta crônica sabendo exatamente como ela terminaria.

 

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