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08/06/2015 / Paulo Wainberg

Politicamente corretos

Chame um judeu de judeu, um negro de negro, um gay de veado, um manco de manco, um cego de cego, você estará ofendendo porque identifica o indivíduo por sua condição étnica, física, sexual invocando o lado caricaturesco intrínseco, decorrente da cultura preconceituosa que reveste os apelidos, desqualificando o indivíduo e sua inserção na sociedade.

Chame um alemão de alemão, um japonês de japa, um italiano de gringo, e você não estará ofendendo porque identifica o indivíduo por sua nacionalidade ou sua origem nacional, sem histórico de preconceito e sem qualquer tom depreciativo.

Por isto instituiu-se o politicamente correto, instrumento apaziguador para chamar alguém por aquilo que ele é, evitando as palavras que carregam, embutidas, o ódio e a discriminação.

O politicamente correto não muda as pessoas, nem os preconceituosos nem os objetos do preconceito. Chamar um judeu de israelita ou um negro de afro-descendente não altera as realidades psicológica e fáticas, isto é, um israelita não deixa de ser judeu, um afro-descendente continua sendo negro e assim por diante.

Entretanto há que se reconhecer que o politicamente correto é uma atitude civilizatória, uma tentativa humana de esconder os próprios preconceitos e evitar a discriminação, embora se trate apenas de uma mudança de palavras. Retira-se o tom ofensivo para, ignorando o indivíduo, identificá-lo por suas deficiências e supostas inferioridades.

O cego não é cego, é deficiente visual ou portador de deficiência visual, neste caso um preciosismo politicamente correto dentro do próprio politicamente correto, isto porque um cego não se considera deficiente visual e sim portador de uma deficiência visual, designação de sua condição mais politicamente correta do que o simples politicamente correto.

É certo que o politicamente correto não elimina o preconceito, mas tem a virtude de escondê-lo, torná-lo menos visível reduzindo de forma inquestionável a manifestação discriminatória, esta sim intolerável por todos os ângulos.

Para onde o politicamente correto nos levará?

Esta é uma questão séria pois o agir assim tende a expandir-se para todos os níveis de comunicação numa tentativa ilusória de negar que o que é, é, seja qual o nome que se lhe dê.

Há um risco objetivo na expansão do politicamente correto, que consiste em disfarçar a ação discriminatória, impedindo-lhe o combate e a punição.

A discriminação é punível como crime quando pode ser combatida e é mais fácil combatê-la quando se manifesta clara e explicitamente do que quando disfarçada pela manifestação politicamente correta.

Não há como negar que somos, os humanos, preconceituosos, no sentido de instintivamente temermos o diferente, o desconhecido e o novo.

Somos naturalmente xenófobos e exógenos e apenas e graças à razão conseguimos entender tais instintos para controlá-los e lidar com eles.

Por isto a Lei, um instrumento exclusivamente Humano, é capaz de definir quando e em quanto nossos preconceitos são crimes puníveis, impondo restrições às manifestações preconceituosas que surgem, todas, através de qualquer e toda a forma de discriminação.

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