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22/01/2015 / Paulo Wainberg

Uma história

Disse o Amor ao amor, com ar de quem não quer nada,

que assim, assim, o melhor era cantar noutra freguesia.

O amor, assustado com a safadeza do Amor,

tratou logo de buscar uma explicação, uma entoação, uma embromação naquela declaração.

O Amor, porém, muito astuto, chamou o amor de fajuto,

que aquilo era coisa de botar luto e que estava decidido,

ia rasgar o estatuto.

Nunca! Disse o amor ao Amor, que você vai abandonar a espelunca, a nossa espelunca! Você sempre ganhou na marra, hoje ninguém me amarra, você fica e ponto final.

O Amor olhou para o amor, com cara de cafajeste, aquele seu jeito danado, o peste,

que deixava o amor de joelhos, fazendo mil apelos, doidinho para cair de quatro,

tirando blusa, saia e sapato.

Disse o Amor ao amor, que ele não era assunto,

era coisa de defunto,

que ia na cozinha comer um sanduíche de presunto,

tomar uma coca-cola

e que o amor largasse sua mão, seu pé, e saísse da sua cola.

O amor assim ofendido fez beicinho, cara de choro e careta.

Foi para o quarto e vestiu-se com a roupa preta,

aquela que o Amor, quando via, virava um capeta.

Nem me vem com fantasia,

disse o Amor ao amor,

com voz dura, sem ternura, recheada de amargura.

Cansei de poesia, de lua cheia no céu,

bilhetes em guardanapos, recados no papel.

Vou partir para outra, navegar outros rios,

singrar novos mares,

você, amor, fique na sua bagunça,

lave sua louça suja,

puxe a água da privada.

Meu negócio é voar, mesmo que seja no bar,

onde posso tirar sarro, beber minha cerveja, fumar meu cigarro,

não importa quem lá esteja.

O amor definhado sentiu que a coisa era séria.

Encarou sua miséria e foi chorar no banheiro.

Olhou-se no espelho, invocou o pai-de-santo, Deus e Jesus Cristo,

seu rosto estava vermelho, era só pele osso e, no pescoço, nascia um cisto.

O Amor bateu a porta da rua, deixando o amor arruinado, sozinho e sentindo a pua.

Eu hoje não volto atrás, pensou o Amor lá consigo,

quero a liberdade, a calma, a paz, tenho certeza que consigo.

O amor abandonado logo refez a vida.

Arrumou um novo Amor, casa, roupa lavada

e comida.

Mal lembrava o antigo Amor que um dia fora sua vida.

Fez-se bela como nunca, aquela alma perdida.

Do Amor nunca mais se soube, salvo que se embriaga toda noite

tocando violão e cantando por um prato de comida.

 

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