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09/12/2014 / Paulo Wainberg

Colecionador

Colecionava passarinhos mortos numa geladeira Frigidaire. Já tinha uns cinquenta pardais, trinta sabiás e, o orgulho da coleção, vinte e sete beija-flores.

Acordava na madrugada para ouvir os piares. Divagava entre eles, perdendo seu coração nas névoas estremecidas dos amores perdidos e acalentava cada milímetro da claridade insistente que transformava contornos em sólidos.

Entre cinamomos centenários, cascas-grossa da existência, as calçadas eram minhocas esburacadas e o piar dos passarinhos uma ardente orquestra sinfônica sem maestro, cada um por si e à sua vontade.

Depois, o sol nascido, pegava sua funda de Golias e um a um abatia os pássaros com certeiras pedrinhas, correndo a apanhá-los, ensanguentados no chão.

Um sabiá encontrado era a glória do dia, a ocupar lugar de honra na geladeira, mas não era coisa de qualquer hora, sabiás eram raros e espertos.

Quando, durante seis dias faltou luz, viu sua coleção apodrecer ítem por ítem, colocado no lixo enrolado em jornal.

Para salvar o desconsolo, fez a lição e foi para a escola.

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