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26/11/2014 / Paulo Wainberg

Neuropatofrenia

Quem me conhece sabe e quem não me conhece também sabe, que não sou homem de subir em árvores para catar colmeias e muito menos para colher morangos que não dão em árvores, mas se dessem eu também não subiria.

Este pequeno entróito é indispensável para a compreensão do elabora resultado de um estudo que realizei sobre a personalidade humana e que, a seguir, exponho.

Neuróticos somos todos, nevróticos seria melhor, vivemos nervosos, ansiosos, preocupados, há sempre problemas a resolver, coisas a fazer que não fazemos e coisas que fazemos e não deveríamos fazer.

Isso é mais do que um postulado, é uma afirmação categórica que beira ao dogma e que enquadra cada indivíduo da espécie, a ele se aplica e dele se extrai na primeira sessão de terapia.

Portanto, ser neurótico é ser normal e não se discute.

Existem porém os neuróticos patológicos que, além da neurose comum, elaboram outras mais intensas e, por que não dizer, dignificantes.

O neurótico patológico é aquele indivíduo que, nas raríssimas vezes em que se sente bem, consegue não se atribular com nenhuma neurose normal, tem tudo para desfrutar aquele momento que será lembrado como um dos mais felizes da sua vida e, no entanto, não consegue, logo arruma uma outra neurose para se atormentar.

Por exemplo, o casal no carro, indo para uma festa, os dois estão contentes, nada os preocupa naquele momento, o que vem pela frente é apenas alegria, convívio e festejo. Aí ele, enquanto aguarda o sinal abrir, olha para a mulher e diz:

– Você deu uma engordada, hein?

Ele precisava dizer isso? Tinha de estragar tudo com uma pergunta-afirmação cuja resposta será raivosa, sentida, indignada?

Você acha que ela não sabe que deu uma engordada? Que está atormentada com isso? Que estava contente porque a roupa serviu apesar de estar mais gorda?

Mas não, você é um neurótico patológico, não consegue desfrutar e vai despejando sua necessidade neuropatológica de arrumar problema, sofrimento e preocupação.

É evidente que vocês vão brigar pelo resto do percurso e chegarão à festa irritados, emburrados e loucos para sair de perto, um do outro.

Neurose patológica é mais difundida e utilizada pelo indivíduo da espécie do que se imagina. Para cada dez neuróticos normais existem quatro neuróticos patológicos.

Assim que, considerando a margem de erro, podemos afirmar, sem medo de errar, que ser um neurótico patológico é, também, ser normal e não se discute mais.

A terceira categoria é a dos neuróticos patológicos esquizofrênicos, aqueles que transformam a sua normal neuropatologia num surto irreal, criando fatos e eventos que jamais existiram ou só existem na sua imaginação.

Aproveitando o exemplo, está o casal aguardando que fique verde o mesmo sinal, quando ela diz:

– Vê se não come todos os salgadinhos. Os outros também querem comer.

Como? O Quê? De onde saiu essa, você nunca fez isso na vida, sempre teve comportamento adequado em festas e na sociedade em geral.

Você tenta descontrair:

– Ué, de onde saiu essa?

– Você tem essa mania, pega os pratos de salgadinhos e come todos, sem se importar com os outros.

– Você está louca?

E pronto, a coisa esquenta, a briga começa, as acusações se multiplicam, você quase bate o carro, chegam na festa e você vai logo avisando que não quer salgadinhos, quer um uísque, aí ela chega ao seu lado e chama, baixinho no seu ouvido, você de bêbado, as raivas desabrocham como um ator de filme pornográfico, o fim de semana está estragado, fica cada um do seu lado e a volta para casa é uma tortura silenciosa de mil rancores, duas mil acusações e dez mil desejos de desaparecer.

Estamos, aí, diante de um caso de neuropatofrenia, a neurose patológica esquizofrênica.

Concluí meus estudos descobrindo que em cada dez neuropatológicos, cinco são neuropatofrênicos e, portanto, se enquadram na categoria individual de normal.

Fui além e, para meu espanto e para o seu também, descobri que justamente você, que não é neurótico, não é neuropatológico nem é neuropatofrênico porque com você essas coisas não acontecem, desculpe meu amigo, minha amiga, mas você é completamente louco.

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