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04/11/2014 / Paulo Wainberg

O aborto e eu

Nunca precisei fazer um aborto e que isto fique bem claro.

O Código Penal determina que as mulheres estupradas podem fazer aborto.

Nesses casos, para a Lei, não se trata de tirar uma vida humana (o feto) e sim de preservar a mãe, vítima de um crime brutal. Psicologicamente falando, é claro.

A Lei presume que a mãe estuprada não amará o fruto do estupro, seu próprio filho.

Hipocrisia maior, jamais se viu.

Também pode fazer aborto a mãe que corre risco de vida se der à luz. Neste caso incide a preferência legal: entre a vida da mãe e a vida do feto, salva-se a mãe.

Está errado o Código Penal? Claro que não, está certíssimo.

Está errado quando considera crime os demais casos de aborto, sob o pretexto, mais religioso do que legal, de que o feto é um ente vivo cuja vida deve ser preservada independentemente da vontade da mãe em querer ou não dar à luz.

Mais recentemente, a jurisprudência admite o aborto no caso dos fetos com morte cerebral, fato só diagnosticável graças à moderna tecnologia.

Se o feto apresentar acefalia, pode interromper a gravidez através do aborto.

Por que? Porque uma criança sem atividade cerebral é inútil para a sociedade e um peso permanente para seus pais.

Mais ou ou menos eugênica a tese.

Disto falo porque não há hipocrisia e preconceito mais repugnante do que a proibição do aborto, do que considerar crime a mãe que consente e o médico que o realiza.

Ter filhos é uma escolha e não um acidente de percurso, uma camisinha furada, uma falta de cuidado, um excesso de paixão.

Quando a mãe quer gerar um filho, nada a forçará a submeter-se ao aborto, ela está realizando o sonho de gerar não um filho, mas o amor incondicional, o amor da mãe pelo filho.

Gerar, para a mãe que assim deseja, é a expressão real de uma Pietá, Jesus morto nos braços de Maria, a maldição suprema da maternidade, a morte do filho.

Interromper a gravidez indesejada é um ato de humanidade profunda, a mãe que não deseja o filho, que não está pronta para ele, que não se sente mãe, que não quer que aquele feto que se instalou em suas entranhas nasça.

A proibição legal do aborto é o exemplo clássico da lei injusta, da lei que não corresponde ao interesse social para quem deve ser dirigida. A lei que se submete ao poder da religião, tão maléfico e pernicioso ao longo da história.

A lei é para todos, mas só será para todos quando for também para cada indivíduo.

Quando a lei se submete à evocações místicas de origem religiosa, serve apenas aos sacerdotes, pregadores e outros profissionais da fé que lucram com as crendices, com as superstições, com as tradições e com o medo.

O aborto e eu? Aborto livre já.

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