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15/09/2014 / Paulo Wainberg

Implosão

Sentei puto da cara no balcão e pedi uma vodka. Durante um ano girei, girei e nada aconteceu, nenhuma novidade, notícia boa ou ruim, procurei daqui, procurei dali e nada aconteceu.

Pedi outra vodka e o efeito apareceu, primeiro leveza, depois gosto ruim na boca.

Vodka sempre me deixa gosto ruim na boca, gosto de sovaco russo, de boceta suja, de bosta seca de cavalo.

O cara atrás do balcão fez caras quando pedi a terceira vodka, mas serviu assim mesmo. Vai devagar meu filho, ele disse com tom paternal e eu fiquei ainda mais puto porque não era filho dele e, principalmente, porque não tinha a menor intenção de ir devagar.

Devagar estava minha vida, repetida e repelente, o mesmo banho e a mesma escova de dentes, nenhum par de seios para apalpar e, pior, nenhum desejo a realizar.

A quarta vodka sempre me deixa eloquente e comecei a falar sobre o meu assunto preferido quando estou bêbado, o sentido da vida e as falsas emoções.

O cara do bar elevou os olhos como quem diz eu sabia, agora ele vai ficar chato, depois vai chorar e eu ainda vou ter que chamar uma ambulância pra curar o coma alcoólico dele.

Isso me deixou ainda mais puto da cara porque era verdade, eu ficava chato, depois chorava e depois apagava, depois da sexta e sétima vodkas.

Você cumprimenta e se despede, já se disse, a vida inteira você cumprimenta e se despede e não existe maior prova de desapego quando você reclama com o amigo que vocês não se encontram há muito tempo e ele responde, em tom de piada, que é verdade mas ele sempre pensa em você. Então você se despede e cai no encabulado entrevero das vodkas, nem que seja para amainar um pouco a dormência que dói em sua alma.

De que serve a vida se, na festa, tantos conhecidos fingem que não estão vendo você, para se livrar de um cumprimento incômodo e uma despedida chata e os que estão com você contam as mesmas velhas antigas e repetidas histórias, em busca das fantasias perdidas e constata que tantas ilusões foram falsas, tão falsas que nenhum sobrou, a não ser a chatice de estar num lugar onde você não quer estar, observando a falsa alegria alheia e sabendo de antemão cada coisa que vai acontecer, exatamente na mesma ordem de sempre, e que você vai ver as mesmas reações que já viu tantas vezes, falsas e inócuas, logo esquecidas no aconchego de um filme de televisão para fugir do mau-humor de quem está ao seu lado.

O cara do balcão recusa o pedido que faço com meu dedo mole, chega rapaz, você já bebeu bastante, e fico puto da cara porque é verdade, mas o que ele tem com isso, eu bebo quanto quiser e me esborracho no chão, por minha conta e me garanto.

Então eu digo por favor, ainda não passou, eu preciso mais uma vodka, se não passar eu me mato, mais uma, eu juro, mais uma, se não passar eu me mato, se não passar eu me mato e se eu me matar, aí eu quero ver o que eles vão falar.

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