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09/09/2014 / Paulo Wainberg

Compêndio

Fidelidade e amor

Fidelidade é um imperativo ético, acima de tudo, portanto, imposta de cima pra baixo pelos organizadores da Moral. Pessoas que amam não traem o seu amor, por maior que seja a tentação. Não traem não é exatamente a palavra, porque quando se ama, a infidelidade sequer é cogitada. Quando amamos, o foco de nossos desejos é a pessoa amada. O homem que ama uma mulher, jamais a trairá, por falta de vontade simplesmente. Não sente desejo, tesão ou qualquer interesse por outra mulher. Pode achá-la linda, gostosa, sedutora, atraente, mas não passará de uma observação estética, léguas distante de uma possibilidade erótica.

A questão da fidelidade aparece quando… falta o amor. E, para entender, preciso dizer que falo do amor integral, não de um sentimento afetivo por alguém que já foi amado integralmente e não é mais.

Mesmo assim, mesmo quando o amor integral há muito desapareceu, ninguém quer ser traido. Por que? Por que recusar ao marido ou esposa o direito de obter, com outros, prazeres que, entre eles, não existem mais?

Por ética, por preconceito, por superstição religiosa, por vergonha social, por outras mil razões, nenhuma delas remotamente próxima do amor integral.

 

Reflexão

E chega o dia em que você para e se dá conta, que tudo o que fez não conta, que os amigos não contam, que o passado não conta e que o futuro conta pouco.

Nesse dia você percebe que tudo o que deseja é carinho, um ombro, um colo. Que tudo o que você quer é ouvir o que você já disse tantas vezes, para tantas outras pessoas:  Que tudo vai dar certo.

É nesse dia que você percebe que os que poderiam dizer isso já estão acostumados, por você, a receber e pouco dar, e não compreendem que você está mudando, que você está com medo, inseguro e precisa de apoio.

Quando esse dia chegar, conte comigo.

 

Cultura, erudição e as artes

Cultura e erudição são coisas bem diferentes. Cultura é a capacidade humana de, através do conhecimento, promover mudanças internas e externas, diferente da erudição, capacidade de mencionar conhecimentos acumulados. Através da cultura, devolvemos o que aprendemos de uma forma diferente, enriquecida e elevada. A arte, por sua vez, é a forma estética de reproduzir a natureza e seus fatos, inclusive os humanos, seja pela forma de expressão que o talento e a vocação individuais melhor se identificam. O conhecimento das artes, incluindo a História, pode ser culto ou erudito. Se for culto, as artes terão sentido. Se for erudito, servirão apenas para citações pedantes.

 

Infinito

Não acredito em sorte, não acredito em destino. Acho que tudo no Universo é uma sucessão de consequências, sem nenhuma causa original. É só assim que consigo compreender a idéia de infinito, consequência da consequência da consequência.  Levar um tiro ou ganhar um prêmio possuem a mesma relevância e a inteligência, único atributo genuinamente humano, é tão relevante quanto qualquer consequência a produzir consequências

 

Dinheiro

No início da minha vida, eu desprezava as pessoas que tinham ambição pelo dinheiro. Tinha por elas uma opinião menor, achando que havia, na vida, valor maior do que a mera cobiça pecuniária. Por causa disto, nunca lidei bem com dinheiro. Sempre gastei mais do que ganhei e sofria, quando me via devendo. Paradoxo ao vivo e a cores, um sujeito que desprezava o dinheiro e sofria quando devia dinheiro. Mais tarde, ao custo de muito flagelo, descobri o prazer inusitado, de pagar a dívida. Sim, como era bom dever e ter dinheiro para pagar. Ao longo dos anos, cada vez mais maduro e infantil, adquiri a confiança duvidosa de ser, sempre, capaz de dar um jeito, porque nas horas mais dramáticas da dívida, acabei mesmo sempre dando um jeito. Por outro lado é bom dizer que, segundo meu pai, éramos descendentes diretos do Tzar Nicolau III, da Rússia, coisa que ele dizia brincando, e que durante um bom tempo, acreditei. Quando percebi a brincadeira, era tarde, eu já estava acostumado a gostar das coisas boas da vida que… só com dinheiro se tem. Assim fui levando, o dinheiro entrando e saindo, mais saindo do que entrando e eu, aristocrata de araque, gastando e aproveitando. Hoje, quando as luzes começam a apagar, ainda lentamente, uma a uma e sem reposição, finalmente descobri a sabedoria máxima: Dinheiro não é problema, não é problema algum, para mim e para ninguém. O grande problema, o imensurável problema, o dramático e terminal problema, é a falta de dinheiro.

 

Solidão

Escrevi, em um de meus livros de crônicas: “Solidão, solidão. Olho ao meu redor. A multidão”. Foi uma frase surgida assim, que gostei, não que estivesse me sentindo só, naquele momento. Hoje lembrei dela. Refletir sobre solidão é uma boa reflexão, se você não estiver assim sentindo, porque se estiver, não há reflexão possível. Sentir-se solitário é mais ou menos como sentir-se pronto para a morte. Não há multidão que nos tire desse estado. Com certeza uma única pessoa terá mais êxito na tarefa, do que milhares. O solitário caminha pelas ruas e a ninguém vê. De nada gosta. Nenhum entusiasmo, nenhuma perspectiva, apenas a angústia de sentir-se sozinho. Isto nos acontece quando, em determinado momento da vida, estamos em desacordo conosco. Não nos gostamos. E, portanto, não nos importamos… com nada. Da solidão à depressão, o passo é mínimo. Há um modo de nos livrarmos da solidão: Refletir sobre ela. Mas o solitário não reflete sobre nada, já disse acima. Portanto, aguentá-la, sofrê-la e deixar que ela suma. Porque, pode ter certeza, um dia você acorda, se olha e gosta do que ve.

 

Convicção, teimosia e fanatismo

O Homem convicto elabora sua idéia e a defende com intransigência.
Quando, finalmente, se convence de que sua idéia está errada, admite e passa a defender a nova idéia com idêntica convicção. O convicto dialoga, debate e ouve a opinião do outro, porque a convicção é a honra suprema do raciocínio. A teimosia é a convicção neurótica, sutilmente deformada. O teimoso não abre mão, mesmo quando sabe que está errado. A teimosia utiliza-se de dois acessórios que lhe são essenciais: Arrogância e prepotência. O fanático não pensa, não dialoga, não ouve. O fanatismo é a teimosia esquizofrênica e um dos principais desastres da Humanidade.

 

Homofobia

Acredito que a homofobia disfarça o temor de admitir a própria sexualidade, não necessariamente homossexual. Os homofóbicos temem o sexo por várias razões, principalmente as psíquicas. O sexo entre seres do mesmo gênero é natural e praticado por animais de todas as espécies. Na antiguidade as sociedades eram compostas por homens, mulheres e homossexuais e o efebo  integrava os núcleos familiares. O Antigo Testamento é rico em episódios homossexuais, o mais famoso deles entre  Davi e Jonatan, filho do Rei Saul, amor cantando num dos mais belos cânticos de David. O homossexualismo tornou-se uma Questão a partir da Igreja e sua falsa moralidade, e ganhou ares supremos sob o reinado da Rainha Vitória, da Inglaterra, que editou lei criminalizando a homossexualidade. Outra hipocrisia. Graças à Igreja e à Rainha Vitória, a discriminação homossexual entrou para o rol das intolerâncias que, como sempre, geram a violência. Ninguém nasce intolerante, portanto a discriminação e o ódio aos diferentes não são uma condição humana e sim um produto social que se aproveita das fragilidades e distorções da nossa percepção. A verdadeira ler liberdade consiste em ser como se é, e a democracia só será legítima quando isto for respeitado.

 

Sonhos e Realidade

Escrevi, certa vez, quando eu era romântico, que os sonhos tornam a realidade mais amena. Hoje quero corrigir a frase, porque os sonhos não amenizam a realidade. Os sonhos acordados, aqueles que sonhamos de olhos  abertos, não são sonhos e sim fantasias. As fantasias tem o efeito de nos afastar da realidade, não de amenizá-la. Quando saímos delas a realidade está firme e forte, despejando sobre nós toda a sua realidade. Os sonhos que sonhamos dormindo, estes sim são outra realidade. Quem sonha muito, como eu, vive em dimensões paralelas, onde as realidades são independentes, porém não irreais. Nos sonhos coloridos, com enredo, início, meio e fim, a aventura consiste em viver um grande drama, encontrar nossos mortos, reconquistar nossas perdas. Entre os sonhos e as fantasias, prefiro os primeiros, mais reais do que os segundos. Quanto à realidade propriamente dita, ela cuida de amenizar-se por si mesma.

 

Causas e consequencias

Tudo o que fazemos e sentimos é resultado de um ato ou de um fato anterior, o que significa que não temos nenhuma liberdade de escolha. Nossas opções são pré determinadas e só parecem escolhas, isto porque a escolha que fizermos é consequência do nosso conjunto anterior, físico e psíquico. Não nos apaixonamos por alguém porque queremos e sim porque não poderíamos não nos apaixonar. Como num acidente, cuja sucessão de fatos e atos anteriores leva ao desastre, a vida que levamos transcorre da mesma forma, cada ato ou fato sendo consequência do anterior e causa do próximo. Nem mesmo o nascimento é um ato de liberdade. É apenas a consequência de reações químicas já determinadas pelos fatores genéticos também já determinados. Sartre afirmou que a sua essência era sua única liberdade e que somos responsáveis por nossas escolhas. Sim, porque cada escolha que fazemos é pré determinada e pré determina as próximas escolhas. Mesmo as nossas culpas decorrem de culpas prévias, jamais originais e sempre transmitidas.  O infinto processo de Causa e Consequência é a explicação para a existência do Universo. Resta-nos o consolo de sabermos que somos causas e consequências e, portanto, nossa existência não é em vão.

 

Felicidade

Tanto já li e ouvi sobre a felicidade que concluí que a sua busca é um imperativo da condição humana.

Queremos ser felizes a qualquer custo e somos tão ansiosos nesse desejo que, na maioria das vezes, só nos damos conta da nossa felicidade, quando ela já passou.

É porque, quando nos sentimos felizes, queremos mais, sempre achamos que dá para conseguir mais, que ainda não está completo e, como o grande paradoxo da existência, deixamos a felicidade de lado para ficarmos infelizes pelo que não temos.

No fundo, felicidade é apenas uma palavra que expressa o fim de um sofrimento ou a conquista de alguma ambição.

Talvez, por isto, a felicidade seja o mais fugaz dos sentimentos humanos.

 

Mudar o mundo

Os filósofos, ambientalistas, políticos religiões e estudantes querem, como sempre quiseram, mudar o mundo. Cada um quer mudar aquilo que acha ruim, o problema é que raramente o ruim é o mesmo para eles. O resultado é que se o mundo mudar como cada corrente deseja, faltará mundo para tantas mudanças. Por isto o que muda no mundo é aquilo que a tecnologia coloca à disposição de todos, inclusive dos mudadores, o que na verdade é pouco. Afinal, continuam os problemas com os índios, os animais, as baleias, além dos problemas que a própria tecnologia cria, como as pilhas do controle remoto que se esgotam, baterias dos celulares que acabam e pneus sem câmara que furam.

É por isto que tomei a firme decisão de não mudar o mundo. Mas continuo contra.

 

 

Adeus

Adeus é a palavra mais triste. É o distanciamento definitivo, a ausência pré-anunciada, a perda para sempre. Adeus é para quem vai à guerra, sabendo que não voltará. Adeus é para o amor perdido, para o amor desfeito, para o amor eterno. É também o nunca mais para o amigo que parte, o parente que morre e o inimigo mortal. Adeus é sinônimo de saudades, a única coisa que sobra quando damos adeus.

 

Mulheres

As mulheres são o Pomo de Ouro, o prêmio máximo que Paris, príncipe de
Tróia, concedeu à Afrodite no concurso que escolheu a deusa mais linda do Olimpo. As mulheres são como Hera, esposa de Zeus, que para se vingar de Paris, fez com que Helena, esposa do rei grego Menelau, tivesse, aos olhos do jovem príncipe, a fisionomia de Afrodite, por quem imediatamente se apaixonou, raptou e deu origem à Guerra de Tróia. As mulheres são como Cassandra, irmã de Paris, que previa a destruição de Tróia e foi trancafiada nos porões da cidade, como louca. As mulheres são o sonho encantado, como a virginal Alice lutando contra a Rainha de Corações, no País das Maravilhas. As mulheres são o brilho magnífico da inteligência, como Madame Bovary, trezentos anos adiante do seu tempo. As mulheres são como o diamante, brilhante e frio, mas que esquentam ao contato com o corpo. As mulheres são a alma e a força da Natureza, interligando todas as forças e dominando uma a uma. A mulher é aquela que um homem ama para sempre e, se tiver sorte, estará para sempre ao lado dela.

Euforia

Euforia é tudo de bom. Não importa que cometamos nossos maiores equívocos quando estamos eufóricos. Sentir-se poderoso, capaz, ter certezas e nenhuma dúvida é o sintoma preferido da euforia, quando ela resolve assumir nosso controle. Qual um ser vivo, com vontade própria, a euforia afasta todos os problemas, elimina quaisquer riscos, torna tudo possível, gostoso, alegre e feliz. O único lado negativo da euforia, que eu conheça, é que quando ela resolve nos abandonar, chama para ocupar o seu lugar, uma terrível depressão. Se o mundo fosse eufórico, não seria prático, não seria trágico, não seria teórico, retórico nem bélico. Seria idiótico.

 

Erotismo

Nosso erotismo é diferente dos demais animais, onde a coisa não tem erro. Nós, humanos temos especial afeto pelo erotismo, prezamos tanto nossos impulsos amorosos e sexuais que inventamos remédios para aumentá-los e conservá-los. É o erotismo que move a humanidade, desde a literatura até a moda e, a ele, erotismo, servem as artes e o conceito de Estética. O Homem não erótico é, no mínimo, neurótico, quase psicótico, nem um pouco platônico. A política, praticada sem o charme erótico, é vulgar e corrupta. O erotismo é a essência do balê, da ginástica, do teatro e das artes marciais. Os gregos da antiguidade, erotizados ao extremo, transformaram o erotismo em poesia e criaram Eros, origem da palavra e do amor.

 

Ciumes (com uma leve ironia)

Há uma forte conotação homossexual no ciúmes injustificado. Quando um homem ou uma mulher destrói-se imaginando o parceiro com outro, está se colocando no lugar desse parceiro, como se ele, ou ela, estivesse participando do ato imaginado. Este tipo de ciumes provoca os mais terríveis assassinatos, especialmente praticados pelos homens, inconformados com a própria imaginação e os próprios desejos ocultos. Quando o parceiro dá motivos para o ciumes, a relação pode ser salva pelo esclarecimento, pela aceitação e, até mesmo, pela co-participação.

 

Coragem

Somos corajosos quando admitimos nossos medos e temos bravura quando resolvemos enfrentá-los. Revelamos nossa força de caráter pela tenacidade e pela forma como lidamos e dominamos os medos. Aquele que não tem medo de nada é o verdadeiro covarde.

 

Morte

O único direito que a Natureza concede é o direito à morte. O nascimento e a sobrevivência são conquistas dos seres vivos, na luta constante para permanecer. Planetas e galáxias morrem como tudo o mais que é Natureza. Absolutamente nada sobrevive. As regras e leis são construções humanas, porque entre os animais prevalesce a lei do mais forte, sem qualquer censura ou punição. O que me leva a pensar que, se a morte é inexorável, ela também não é um direito e sim um dever natural de tudo o que existe. A existência é um fato e a morrer é sua finalidade.

 

Sexo

Sexo é o prazer sublime do ser humano. Quando dois corpos se encontram, um novo universo nasce, para toda a eternidade. Toda forma de sexo é normal, quando dá prazer e, se existe um Deus, o sexo é sua dádiva máxima. Sexo sem prazer é brutalidade, invasão e indecência e a abstinência consiste numa grave ofensa à Natureza. Desfrutá-lo é nossa obrigação, sem censura, sem culpa e sem limites, porque o limite do sexo é o prazer que ele proporciona.

 

Liberdade

A liberdade é uma ilusão que não pode ser confundida com as escolhas do dia a dia. Nascemos programados pelo código genético, somos educados à imagem e semelhança de nossos pais, códigos são implantados em nossas áreas de condicionamento, desde a mais primitiva infância. A vida é, assim, uma eterna consequência, sem nenhuma causa. Só poderíamos ser realmente livres se conseguíssemos atingir o estágio da irresponsabilidade absoluta e, neste caso, a vida perderia qualquer sentido.

 

Medo

Medo da vida é o mais relevante, porque nada é mais perigoso do que viver. Os humanos não temem a morte, temem a vida que é repleta de perigos, do início ao fim. Por medo da vida, fazemos a guerra, matamos, dirigimos em alta velocidade, escalamos montanhas, ingerimos álcool, drogas e tranquilizantes. A vida é uma sequencia de dores e nós, humanos, temos muito medo da dor, assim como temos medo do outro, medo do desastre, medo da tragédia, medo de viver. A morte é, afinal, a grande calma, a derradeira paz de espírito.

Paixão

Paixão é quando o corpo pega fogo e a alma enlouquece. Nossas percepção, instinto, desejo, interesse, ciume, emoção e medo extrapolam e só pensamos no objeto da paixão. Na paixão, nunca é suficiente, é pouco quando estamos juntos, é interminável quando estamos separados. A paixão é o estágio pré-insanidade e o período mais criativo do ser humano. E, apaixonado, é a melhor fase da vida. Quando acaba, voltamos à mesmice.

 

Amor

O amor é o mais animal de todos os sentimentos. Qualquer ser vivo sente, a seu modo, amor. Nós, humanos, transformamos esse sentimento assim natural, em algo complicado, profundo e confuso, que tanto pode nos enlevar quanto nos remeter à mais traiçoeira agonia. O amor humano, quase sempre, dói.

 

Perdão

Perdoar a si mesmo é o primeiro passo para a compreensão. É, talvez, a tarefa mais dificil que existe, quando temos que nos desfazer da arrogância, da prepotência e, principalmente, da vaidade. Se conseguimos imergir no próprio âmago, com simplicidade e sem censura, vamos nos entender humanos, bons e maus, cruéis e piedosos e, finalmente, nos aceitamos. Só então conseguimos aceitar o outro como ele é. E então, compreendemos.

 

Amargura

Amargura não é produto só da insatisfação. Ela nasce também do rancor, da incompreensão, da incapacidade de relevar e de gostar de si mesmo.

 

Gigantes da alma.

O amor é como a cera do assoalho. Tem que acariciar, espanar, aflanelar, limpar, nunca pisotear e, de vez em quando, renovar.

A paixão é como a fogueira, se um dos amantes esquecer da lenha, apaga.

O medo é como a comida, indispensável à vida.

Ciumes e vermes se alimentam do podre.

O ódio é como o abismo: fundo, úmido, frio e mortal.

A culpa é como a inteligência, como a capacidade de raciocinar, como a capacidade de lembrar.

A fé é como a ilusão, diante da realidade fenece e some.

 

Torturas

Não há tortura mais eficaz do que a punição permanente, por erros cometidos não importa quando. Esse tipo de castigo se faz, em geral, através de palavras, alusões ‘en passant’, acusações explícitas, tom de voz áspero e ironias cotidianas. O torturado demora a perceber o estupro psicológico. O torturador desconhece o perdão.

 

Complicar o simples?

Uma leitora que se transformou numa querida e importante amiga, me enviou um e-mail, dia desses, dizendo mais ou menos o seguinte: “Você complica demais as coisas simples e, com isto, perde muitas oportunidades de ser feliz”.

Como sempre faço, quando as coisas me atingem em cheio, respondi em tom de brincadeira, mas não parei mais de pensar no que ela me disse.

A minha vida tem sido uma sucessão de fases,  durante as quais me modifico internamente, sem nunca ter conseguido um equilíbrio. Vou me explicar, às vezes gosto de algo e às vezes aquilo de que gosto não me satisfaz, perde a importância, o que me coloca numa espécie de limbo, até que, ou volte a gostar das mesmas coisas ou surja outra, nova, que me entusiasme.

Existem vários nomes para esse meu infernal fenômeno psíquico, que podem ser classificados em qualquer espaço, entre bipolaridade e complicar as coisas simples.

O fato é que minha amiga querida tem toda razão (quase sempre tem), sou muito mais feliz quando aceito as coisas como elas são e fico muito, mas muito infeliz, quando resolvo complicar.

Já sei, com a clareza da mais límpida água cristalina, que me dou muito mal, quando fico infeliz.

E me dou muito bem, quando estou feliz.

Alguém acha que é uma simples questão de escolha ou uma complicada impossibilidade de escolher?

 

É cedo

Decidi que ainda é cedo. Há muitas ruas da minha cidade que ainda não visitei, vários bairros onde nunca estive, centenas de pessoas que ainda não conheci, milhares de luas cheias que ainda não vi brilhar, dez mil ondas do mar onde ainda não me banhei, mihões de beijos que não dei, dez milhões de abraços que não recebi e, principalmente, um amor para me abençoar.

 

Desapegos.

Decidi que não serei mais uma pessoa bondosa, pensando nos outros e no que a eles fará bem. Durante a vida, sempre fui assim, abrindo mão de meus sentimentos e interesses para beneficiar os outros. Acreditei que meu papel, na vida, era ajudar e que o que se referia a mim podia ficar em segundo plano.

Nunca, deliberadamente, magoei alguém. Nunca, de propósito, fiz mal a uma pessoa.

Continuarei assim, não é da minha índole a maldade. Mas, a partir de hoje, os meus interesses estarão acima de qualquer coisa, até das amizades.

Em todos os meus livros, de algum modo, mencionei meus amigos, nas dedicatórias. Num deles, A Mãe Judia, o Genio Cibernético e Outras Histórias, coletânea de contos, crônicas e poemas, cada texto foi dedicado a um amigo por quem tive afeto.

Meus quatro amigos principais, de mais de quarenta anos de convivência, receberam dedicatórias nesse livro e em um outro, em que o livro foi dedicado exclusivamente a eles. Já fiz dedicatórias em livros para a secretária que trabalha na minha casa há quarenta e dois anos e para o funcionário do meu escritório que trabalha comigo desde 1973.

Entre outras coisas, sempre me considerei uma pessoa generosa, mas essa generosidade só me trouxe dissabores e desilusão.

Sou, portanto um exemplo vivo de uma das tantas tragédias humanas: As ilusões passam e as desiluções permanecem.

Hoje sou uma pessoa solitária e destituida de afetos. Triste, porque nada é mais cruel do que a ingratidão.

Tenho a certeza, a convicção, nascida de inúmeras e diárias provas, de que jamais fui compreendido e, ao longo da vida, fui julgado pelas aparências, muito mais do que pelo realmente sou.

O resto de vida que tenho pela frente será vivido por mim como um desagravo, abandono os melindres, abandono os cuidados e, com firmeza aceitarei as coisas como elas são, sabendo que aqueles que me amam, virão.

 

Com muita serenidade

Quando Vinicius de Moraes decretou que ser alegre é melhor do

que ser triste e que a alegria é a melhor coisa que existe, mais do

que uma obviedade, estava nos ensinando uma grande lição de

vida.

Se você encontrar essa frase num livro de auto ajuda poderá rir do

autor, mesmo porque tais autores são mestres na arte de revelar

obviedades.

A frase, dita pelo poeta, sob a forma de letra de música, transforma

o indivíduo triste no exato momento em que a ouve e, se não faz

dele um alegre, pelo menos diminui a tristeza.

Aqui entre nós (e que ninguém nos ouça), trate de ser alegre, meu

caro, porque o que separa a alegria da tristeza é um sorriso ou

uma lágrima.

Eu sei, falar é fácil, difícil é fazer, já disse um outro compositor, este da jovem guarda, se não me engano. Eu, por exemplo, estou falando para mim mesmo e não estou conseguindo fazer. Mas me

esforço e tento, ao menos tento, acompanhar a lágrima que teima

em escorrer do meu olhar com o sorriso, o mais terno que encontro dentro de mim, nem que seja para mim, nem que seja

para me alegrar um pouco.

Você tem todo o direito de perguntar: “Afinal, que tanta tristeza é

essa que você não para de se lamentar?”

Coisas, meu caro, coisas que acontecem, incompreensões, acusações e nenhum perdão.

Hoje de manhã, pensando em mim para variar, me dei conta que

todos os principais erros que cometi na vida tiveram origem no

desejo de ajudar alguém, de prestar um favor, de fazer um agrado.

Em todas essas vezes, pensei mais no outro do que em mim, para variar, mas as consequências, sou eu que suporto.

Tanto desperdício, tanto abrir mão, tanta benevolência acabaram

nisto: Tristeza.

Pego carona, mais uma vez, na música popular, onde se expressa

a verdadeira cultura de uma geração: Tristeza, por favor, vá emobra.

 

Durante a tarde

Quando o telefone surpreende é porque as coisas valem à pena.

Mesmo com esta tristeza e este castigo a que me submetem os

que mais deviam me aprovar, recebo o alento de pessoas queridas

que, sem motivo maior do que o de acarinhar, surgem e falam.

Gosto das madrugadas, mas as tardes são renovadoras.

 

Na madrugada.

Ultimamente, quando me perguntam com vou, resisto ao

impulso de dizer: Vou carregando minha infelicidade para lá

e para cá.

Minha vida é pautada por momentos como este, em que nada

me estimula, nada parece bom. Não é exatamente uma depressão

é um sentimento de inutilidade, é quando parece que nada dá

certo para mim e me sinto sem ter com quem falar.

Durante toda a vida, tive amigos e poucos confidentes. Hoje, palavra de honra, não tenho ninguém.

Meus amigos não me procuram e, quando procuram por eles, não podem por isto ou por aquilo. Serão mesmo amigos?

Será que sou assim tão horrível, tão incapaz, para ser alvo de

todas as críticas do mundo, para não conseguir o respeito interior,

para ser depreciado até no lugar onde, pelo menos e no mínimo, eu

deveria ser admirado?

Acho que sim. Sempre disse que quando alguém se chateia comigo,

alguma coisa eu fiz, mesmo sem querer, mesmo sem saber.

Mas, está muito forte a censura, está doendo demais o descarinho.

Não sei, a vontade é de largar tudo porque nada nem ninguém aprecia o que faço, por mais que faça.

Afinal, de que adianta lutar e tentar corrigir os erros se eles jamais

são perdoados?

Não sei o que fazer. Pela primeira vez na vida estou sem ação e

sem nenhuma vontade da agir.

Vontade de dormir para sempre.

 

escritores e leitores

Escritores que falam muito, escrevem pouco.

Ao abrir um livro o leitor deve esquecer que existe um mundo lá fora e deve conceder à própria imaginação e expectativa de prazer a liberdade de imergir num universo paralelo onde o tempo só existe enquanto o livro está aberto e sendo lido.

Escritor que escreve pensando em leitor pode fazer um livro mas não faz literatura.

A arte é tão absurdamente solitária que o artista não tem amigos, não tem parentes, não tem ninguém. O artista está  sozinho no mundo enquanto cria e, após concluir a obra, percebe que continua sozinho.

A relação espaço-tempo de um livro só existe enquanto ele está sendo lido.

Escritores não tem domínio nem controle, escrevem porque não podem não escrever. Leitores, ao contrário, lêem quando e onde querem e entendem o que estão lendo do seu próprio jeito.

O extraordinário, na literatura, é quando o leitor descobre, no livro, coisas que o autor jamais pensou em dizer.

 

madrugada

Quase cinco horas. A cidade está quieta e, da janela,

vejo apenas janelas apagadas. Bem ao longe, muito, muito longe,

uma tênue luminosidade avisa que o dia está próximo e o sol está quase chegando.

Começo a sentir saudades da próxima madrugada.

 

Lições

A vida ensina várias lições. Algumas aprendemos, outras não. Por isso fazemos errado o que aprendemos e erramos o que não sabemos.

 

Arrependimento

O mundo infantil é tão lindo, doce e gentil.

Por que fui abandoná-lo?

 

Essa tristeza

Ah, essa tristeza que, quando chega, transforma o branco em cinza, o amarelo em preto, o azul em pálido.

Ah, essa tristeza de não ter uma amada a quem cuidar, acariciar e observar enquanto dorme.

Ah, essa tristeza que faz dos dias um único, sempre igual, sempre igual.

Ah, essa tristeza que cria inveja de quem sai de si, olha ao redor, brilha no sol,  acaricia o mar e volta para casa contente.

Ah, essa tristeza que adoece a alma, que esconde Deus, que chora de si mesma.

Ah, essa tristeza da incompreensão, do desestímulo, da solidão.

Ah, essa tristeza, que quando surge, torna-se indesejada e fiel companheira dos dissabores, dos amores e das queixas.

Ah, essa tristeza é a coisa mais triste que já vi, tão triste que tira o sabor da alegria, impede o sonho, deforma o prazer, quem a sente, que falta de sorte, só pensa numa coisa, na morte.

 

Você escolhe

Se você acredita que Deus está sempre ao seu lado, não vou discutir. A fé, por ser fé, é indiscutível, quando você tem, não se fala mais no assunto. A vida fica bem mais simples, para os que têm fé, por exemplo, você está esperando para atravessar a rua, passa um carro sobre a poça dágua e dá um banho, com lama incluida, em você e no vestido novo que você está usando pela primeira vez.

Graças à sua fé, você aceita o fato tranquilamente, perdoa o motorista que fez aquilo de propósito e vai trocar de roupa entoando algum cântico ou, até mesmo, um samba-canção.

Afinal você sabe que aquilo aconteceu por um desígnio de Deus.

Se você não tem fé, ficará incomodada, xingará até à quinta descendência do motorista ultrajante, lamentará seu azar, o dinheiro gasto, o atraso e morrerá de vergonha do aspecto deplorável que o banho inesperado provocou.

Ter fé é acordar abençoado, passar o dia iluminado, dar graças à cada conta que chega e benzer os juros do cheque especial.

Não ter fé é encarar o drama e tomar um porre no fim do dia, porque não aguenta mais enfrentar tudo isso de cara limpa.

Quando alguém aconselhar você a ser feliz porque Deus assim proverá você, que tem fé, ficará imediatamente feliz.

E você que não tem, não.

 

Sorrisos

Se você acredita que foi abençoado só porque alguém sorriu para você, enganou-se redondamente, ou então é muito petulante e pretensioso. Receber um sorriso tem um significado único e especial: Receber um sorriso. Ou você acha que, quando sorri para alguém, está abençoando? Quem você pensa que é para achar que possui esse poder? Ganhe os sorrisos que lhe cabem, sorria quando lhe for conveniente, mas pare com essa mania de dizer aos outros que  sorrir é uma forma de distribuir felicidade. Por acaso você é feliz, só porque o cara a quem você fez um sinal para sair na sua frente do elevador, agradeceu com um sorrisinho?

 

Questões

Cedo ou tarde as coisas voltam ao seu lugar. Que lugar é esse para onde as coisas voltam? O lugar onde estavam antes? E por que as coisas sairam do seu lugar? Qual força fez com que elas se movimentassem? E, por que , ao movimentá-las, puseram as coisas naquele específico lugar, sabendo que cedo ou tarde elas voltarão para o seu lugar? E, afinal de contas, que coisas são essas?

 

Sem retorno

A cada dia que passa, mais distantes ficamos do paraiso. Quando Deus expulsou Adão do Eden e ordenou que ele ganhasse o pão com o suor de seu rosto, estava ordenando a todos os fetos que saissem do útero da mãe, carregando nas costas a maldição de viver.

Deus jamais garantiu que a volta era possível. Porque não é.

 

Pensamentos muito esquisitos

Este pensamento está se tornando quase obsessivo: Em abril de 2013 estarei com sessenta e oito anos e sete meses, a idade com que morreu meu pai, em 1984. Ficarei mais velho do que ele! Ora, até hoje meu pai é superior, minha segurança, meu modelo, mesmo após sua morte. Como, então, poderei ultrapassá-lo, pensar nele como em alguém mais moço do que eu? Acho que isto não deveria acontecer com ninguém,  não me parece justo, não me soa correto. Por isto tenho duas propostas à Natureza. Uma, que já reivindico há anos, é que após os trinta  nada mais se modifique em nossa aparência. Você faz trinta e vai ficar daquele jeito até o fim, excluindo apenas engordar e emagrecer, a critério de cada um. Mas nada de rugas, perda de cabelo, flacidez, cara de velho e essas coisas que azucrinam nossa vida. Agora acrescento outra sugestão, talvez a Natureza me ouça e acolha as duas: Todos nós morreremos com a mesma idade, a critério dela, Natureza, mas sugiro cento e vinte. Na véspera do seu aniversário você reune a turma toda, faz uma festa de despedida, vai dormir e não acorda mais. Simples assim. Uma coisa é certa, caso minhas sugestões forem aceitas, ninguém precisará mais pensar coisas desse tipo.

 

Envelhecer

Ocorreu-me, pouco antes de desistir de dormir, que o corpo humano rejeita tudo o que vem de fora. Estou falando de tudo mesmo, sem exceções. Tudo que ingressa no nosso corpo, seja pelo buraco que for, é rejeitado e expelido, cedo ou tarde. Se o corpo não fizer isto, adoece e morre. Não estou me referindo à substituições e reposições, caso dos transplantes, soro e sangue. Ainda assim, para serem admitidos, a ciência teve que providenciar um bocado. Bebemos água e suamos e urinamos. Comemos e defecamos. Respiramos e expelimos o ar respirado imediatamente. Para micróbios, virus, bactérias e mil outros objetos, a porta da rua é a serventia da casa, inclusive o esparmatozóide vencedor que fecunda o óvulo e é expulso em forma de bebê, o que é um poema a valer. Espinhas, cravos, furúnculos, abscessos são também expedientes utilizados pelo corpo para se livrar dos indesejáveis. Calculo que deve ser extenuante para o corpo essa lida constante de jogar para fora tudo o que de fora vem, garantindo ao máximo os originais. Vai ver, então, que é por isto que envelhecemos, não há quem aguente ficar jovem, esbelto e com os cabelos da cor original, se permanentemente alguma coisa está invadindo o pobre. Agregue os efeitos da gravidade e o passar do tempo propriamente dito e, eis aí, decifrado o mistério do envelhecimento. Se eliminarmos esses três fatores, temos muito mais probabilidade de ficarmos sempre jovens e, quem sabe, para sempre.

 

Vida sem fim

Vida sem fim será, provavelmente o título de um livro que está lançando fagulhas em minha mente. Ainda não sei o que significa vida sem fim, mas sei que nada tem a ver com eternidade. O que me sugere, a frase, é mais próximo de excesso, demasia, algo que deveria terminar e não termina. Uma dor de dente? Ataque de apendicite? Vida sem fim é um espasmo incontrolável, uma convulsão, ou uma dádiva cruel. Por que me acordo às cinco horas da madrugada, sem sono e com receio do dia que vem aí? Que excedente de culpa não me deixa despertar em paz? Quem quer paz? Imagino uma vida tranquila, nenhuma preocupação ou compromisso, nada que eu não queira fazer e, só de imaginar, sinto um cansaço, uma inútil urgência, a verdadeira chatice. Eu queria não ter de mudar nada, mas não gosto do jeito que está. Nem quero gostar. Vida sem fim é, talvez, colocar tudo isto diante do espelho e pensar que só vem coisa boa, que o prazer está me esperando logo ali, que é tão bom ser feliz com as pequenas coisas, que nada é mais grandioso do que o detalhe. Ser capaz de esquecer de tudo e, durante horas, admirar o vôo de um pardal ou o estranho desenho feito pelo desgaste da pintura numa parede do edifício. E depois sair andando, satisfeito da vida, com a sensação de missão cumprida. Van Gogh, alguma vez ficou feliz por ter acertado o amarelo perfeito de suas margaridas? E foi dormir em paz para, em paz, acordar no outro dia?  Castro Alves tossia, tranquilo, após concluir o Navio Negreiro? Lorival Souza estava feliz, tomando cerveja com seus amigos, depois de um dia de trabalho na construção? Vida sem fim, com certeza. Tal qual Plinius, oleiro na Roma Antiga. Nero, incendiando a cidade. Napoleão reconquistando o trono. Zé Antônio, cobrador da linha T. Sim, Vida sem fim será o título de um romance que vou escrever um dia, quando acordar na madrugada, sem sono e sem medo, olhando o dia passar como uma banda formada apenas por contrabaixos e violoncelos, cruzando as ruas da cidade e entoando, em ritmo de marcha, um réquiem de Mozart ou de Verdi para alegrar os corações empedernidos.

 

Respostas

Sei que vou tentar até o fim, isto é uma verdade. Leio e ouço o tempo todo, que alguma coisa vai acontecer, que a vida é uma eterna surpresa, que a qualquer momento aquilo que tanto se espera se realizará. Até os horóscopos dizem isto.

Portanto, até o fim eu vou tentar.

Dizem que ser ou não ser feliz é uma questão de escolha, afinal todas as coisas tem vários aspectos e você pode escolher o aspecto que faz bem e deixar de lado os outros, que só atrapalham.

É lógico que, até o fim, eu vou tentar.

O amor e a paixão estão bem ali, dobrando a esquina. Basta você estar naquela calçada para que eles se apoderem, tomem conta de você, seu coração e sua alma.

E eu, até o fim, vou tentar.

Você pode ser rico e viver cheio de problemas, sem saber aproveitar sua riqueza. Você pode também, viver repleto de dívidas e viver sem nenhum problema. E, também, você pode ser pobre e… por aí, meu amigo, todas as possibilidades que você puder imaginar.

Até o fim, eu vou tentar.

Tem gente que tenta até o fim e não consegue. Outros conseguem logo no início.

Eu vou.

 

Perguntas novas

Acaba de me ocorrer que a causa da morte é a gravidade. Nosso estado concebido é flutuar em aconchegante líquido que nos expulsa sem piedade para sermos puxados para baixo pelo resto da vida. Por qual razão a Natureza insiste tanto em nos enfiar embaixo da terra?

Coisa boa de pensar, às quatro da madrugada, não é?

Mas é verdade, nós crescemos contra a corrente, estamos em permanente luta contra a terrível força que nos empurra, célula por célula, para baixo, para baixo e mais ainda, para baixo.

É tão forte a pressão da terra a nos puxar, que acaba nos sugando e vamos acabar embaixo dela.

A Natureza é injusta conosco, isto é fato. Devia haver um dispositivo, uma lei, uma medida provisória que fosse, proibindo o ser humano de aparentar mais de trinta anos, mesmo que viva cem. Seria mais justo, mais adequado, afinal somos tão bonitos e inteiros, aos trinta, por que ela quer tanto nos surrupiar tais atributos?

Eu não sei, duvido que alguém saiba. Tenho certeza de que se vivêssemos livres da gravidade, nossas células se manteriam eternamente jovens e nossos músculos firme e retesados.

Porém, hélàs, não é assim. Por isto existem as guerras.

 

Amigos

Nada é mais decepcionante, para mim, do que ser decepcionado por um amigo. Falo de amigo mesmo, aquele a quem não devemos explicar o que sentimos, mesmo quando erramos. Falo de amigo mesmo, aquele que compartilha seus segredos e nossos segredos, aquele que entendemos e nos entende, aquele a quem nunca julgamos e nunca nos julga, mas está sempre presente para nos dizer o que fizemos de mal e o que devemos fazer de bem. Quando achamos que temos um amigo assim e vemos, de repente, que ele não é assim, então a decepção é enorme, quase definitiva. Como toda decepção, ela é dolorosa porque revela nosso próprio engano, demonstra como fomos tolos ao julgar que tal amigo tinha, por nós, o mesmo sentimento e consideração que tínhamos por ele. Essa dor machuca muito. Entretanto, como sempre, a verdade é melhor do que a mentira e, mais cedo ou mais tarde, se revela.  Feliz daquele que, ao longo da vida, pode dizer que tem pelo menos um amigo de verdade.

 

Sobre a morte

Morreu Sócrates, o jogador de futebol. Morreu porque seu organismo foi destruido pelo álcool, do qual foi dependente por muitos anos.

Primeira coisa que pensei: Para ele o sofrimento acabou e para nós, não.

Com esta lógica fria, meu pensamento é relevante, isto é, a morte é o fim de todo o sofrimento. Funciona como uma falha na energia elétrica, neste instante há luz, no seguinte há escuridão.

Todas as angústias, medos, revezes, indignações e tristezas apagam, deixando aos vivos a árdua tarefa de entender e a fugaz sensação de saudades que o dia a dia trata de amortecer.

Porém, as coisas não são assim, tão friamente lógicas e há que pensar, nem que seja para continuar vivendo, que a morte apaga também as alegrias, as conquistas, os sonhos e o prazer. O falecido também perde esse manancial, deixa de aproveitar, sai de cena.

A fria lógica, inconformada, ataca novamente: O que é melhor para o falecido, deixar de sofrer ou deixar de aproveitar?

Minha resposta é definitiva para essa questão: Não sei.

Só conheço uma situação, durante a vida, em que ela vale à pena cem por cento que é quando se realiza plenamente a paixão.

Aí sim nós atingimos a plenitude da felicidade e parece que, yes!, é bom viver.

Mas… é tão fugaz, esse momento que se esgota em si mesmo e que o tempo se encarrega de amortecer que…

Bem, estou falando disto porque o Sócrates morreu e ele foi um cara importante e super conhecido. Entretanto tantos morreram na mesma hora que ele, e todos os dias, e a cada minuto do dia, que este assunto, sinceramente, nem devia ser mais assunto.

 

Longos Pensamentos Noturnos

Estas são as madrugadas que gosto. Quatro e meia, todos dormem, a casa está quieta e a rua mais do que silenciosa, sob o murmúrio da fraca chuva que inicia. Trabalhei até agora, no novo romance que apenas começou e ainda não sem para onde vai, Hoje foi interessante, pelas duas, cansei e resolvi dormir. Na cama, os novos personagens não calavam a boca, E o cansaço se transformou numa espécie de adrenalina eufórica, não consegui permanecer na cama e voltei para o computador. Escrevi febrilmente, praticamente sem parar, durante duas horas. E o mais notável é que não tenho a menor idéia do que escrevi. E vou continuar assim até amanhã, quando retornar e ler o texto, desde o começo. Tremo só de pensar nos mil erros de digitação, concordância e gramática, como sempre acontece quando fico nessa onda, num barato total, parece uma viagem, palavra de honra. Agora, aqui no blog, estou tentando acalmar os ânimos, a impressão é que o pessoal se aquietou, na minha cabeça, mas ainda tem ventania percorrendo meu cérebro, lufadas de um lado para o outro, agitando tudo lá dentro. Que coisa! Meu cinzeiro está repleto de cigarros não fumados. Não me lembro de ter acendido tantos, mas acho que sim, acendia, largava no cinzeiro e eles iam queimando sozinhos. Se eu fumasse sempre assim, seria um fumante bi, quer dizer, ativo e passivo ao mesmo tempo. Legal essa: fumante bi, o cara que acende o cigarro e não fuma mais, fica apenas num abiente de fumantes. Quem não é fumante provavelmente sabe do que estou falando. Mas agora não. Este cigarro estou fumando às ganhas, é um dos raros cigarros conscientes do dia, um dos raros que realmente dão prazer. O pior de tudo é que amanhã (hoje), excepcionalmente, tenho que estar acordado super cedo, oito horas no máximo. E não tem jeito, vou ter que acordar, o que significa que tenho menos de três horas de sono, se é que ainda conseguirei dormir. Acho que meu destino é passar o dia que vem por aí, com a cara e a coragem. Tenho uma audiência às 10 e reunião com o cliente as 8,30, então… não vai ser fácil. Me consola que não é a primeira vez que acontece. É raro, mas acontece. Normalmente, por esta hora, um pouquinho mais cedo, vou dormir mas posso acordar bem mais tarde e ir para o escritório por volta do meio dia, que é o meu horário de chegar. Para os casos como o de hoje, desenvolvi um truque: Finjo que fiz uma longa viagem noturna, de turismo. Neste caso, não vou perder tempo dormindo, passo o dia com sono mas aproveito. Então eu me digo: Tem que trabalhar? Faz de conta que é turismo. O grande problema desse truque é que ele não funciona, não há modo de eu achar que trabalho é turismo. Hélàs!, como diria um francês qualquer nesta situação. Em resumo: Me fodi.

 

Frases Soltas

A tristeza é um negócio muito triste. Nada é pior do que estar infeliz.

Coisa ruim, o desespero.

Se fosse possível, não seria impossível.

Pior do que ser é pensar que é.

Qualquer um pode ser alegre, quero ver mesmo é aguentar a tristeza.

 

PERGUNTAS

São tão pequenas as grandes coisas desta vida, que as grandes

coisas desta vida ficam pequenas e, assim, numa espiral sem virtude,

tudo volta ao começo e nada faz sentido.

As perguntas que não cesso de fazer são: O que significa ‘fazer sentido’?

Como entender a eternidade se mal concebemos o infinito?

A distância entre o nascimento e a morte é ínfima, mal ocorre o primeiro e a segunda está bem ali, batendo na porta de entrada, a mesma porta por onde se sai.

Que mal há em amar, que tanta falta nos faz quando não temos, que

tanta tristeza nos causa quando perdemos? E tão pouco dura?

Em momentos distintos escrevi duas coisas contraditórias: Solidão, solidão, olho ao meu redor, a multidão.

E:

Tantas vidas tenho dentro de mim, que jamais serei um solitário.

Esta última foi um equívoco, nada é mais solitário do que conviver

apenas com as vidas internas.

É assim que estou, olhando, ao meu redor, a multidão.

 

 

Batalha inglória

Acaba de me ocorrer que a causa do envelhecimento

e da morte é a Lei da Gravidade. O nosso estado natural,

logo que concebidos, é flutuando em aconchegante líquido.

Porém, no instante do nascimento, somos puxados para baixo pela infernal força contra a qual lutamos, na tentativa inglória dela escapar.

Coisa interessante de pensar, às quatro e meia da madrugada, não é?

A luta é tão intensa que conseguimos crescer, porém ao mesmo

tempo, nossas células são obrigadas a se renovar permanentemente, enquanto se desintegram devido ao próprio peso.

E o peso é a arma da Lei da Gravidade, utilizada pela Terra. É tão  insuperável que, no fim dos tempos, acabamos embaixo dela.

A Natureza é injusta conosco. Devia haver uma lei, uma portaria, medida provisória que fosse, proibindo o ser humano de aparentar mais de trinta anos, mesmo que viva cem.

Somos bonitos e nossos músculos fortes e tensos, aos trinta, nossa energia no auge que, acredito, é nesta idade que conseguimos equilibrar a batalha, a gravidade puxando para baixo e nós teimando em ir para cima.

É quando a Natureza nos fulmina de vez, determinando

que, lentamente, cedamos terreno, sucumbindo ao poder

maior.

Acho que é por isto que existem as guerras.

 

certos dias

Certos dias, como hoje, minha alma se confunde toda. Ou será meu pensamento? Ainda não distingui uma do outro. Se minha alma me fornece as emoções, meu pensamento é quem me informa delas. De que adiantaria sentir emoções sem um pensamento a anunciá-las.

Não sei, não sei, acho que alma e pensamento andam juntas e, quando um não quer saber do outro, aí é que as coisas se confundem.

Dias como hoje, não consigo pensar, não consigo trabalhar, apenas me contemplo e… gosto pouco do que vejo.

Seria bem melhor parar com isto e olhar para fora, romper este ciclo em que me torno viciado em mim, o que significa viciado em desalento, desalegria, tristeza e desamor.

Há um dia tão lindo lá fora! O céu e o sol brilham, a água dança, as folhas flutuam e eu aqui, olhando para tanta feiura, como se minhas pupilas estivessem viradas ao contrário.

O que me daria força para reagir? Quem?

 

escritores

Ser escritor é sofrer, o tempo todo, a alegria da solidão compartilhada. É não perceber quem está a sua volta, enquanto milhares fulguram na mente. É não ver o amanhecer pela janela, porque em sua cabeça está anoitecendo. Ser escritor é nunca saber o que vai pensar nem o que seus dedos vão digitar.

Ser escritor é viver no inferno do paraiso.

 

amores

amores são vários, de vários tipos. Amores sem

alma, amores vilões, amores cansados, amores

ardentes. São todos verdadeiros, fustigam a alma

e machucam o peito, alegram as noites, torturam

e choram.

Ah, amores, diante de vocês, impossível calar,

impossível… impossível… como não amar?

 

sonhos em vão

Meu coração, que era de pedra, está esfarelando, virando pó dourado, iluminado por palavras lindas que  – me dizem – são bonitinhas e, para servir de consolo, doces. Meu coração esfarelado vagueia entre meteoros, em busca da distante luz que, mal percebo, teima em apagar.

 

impressões

Fico impressionado de ver, nos feriados religiosos de qualquer religião, milhares de pessoas celebrando ritos humanos como se fossem divinos, assistindo homens fantasiados com as mais variadas e estranhas roupas, auto denominados intermediários entre os homens e uma divindade, celebrando palavras regadas a súplicas, preces e promessas e acreditando em tudo.

Fico estarrecido ao perceber que o ser humano é ainda pré-histórico, pulando ao redor de uma fogueira e tremendo de medo à simples presença de um deles, com uma máscara de dinossauro na cabeça, ameaçando terríveis destinos para quem não obeder.

Fico desanimado ao ver que o ser humano abandona sua razão ao menor motivo, preferindo crenças absurdas, esperando soluções milagrosas, lutando em guerras intermináveis em nome de deuses cujas principais prerrogativas são fiscalizar, punir, condenar ou perdoar.

Fico triste ao constatar que a fé é a maior multinacional do mundo, o mais disponível mercado de trabalho para fieis mal remunerados e o maior depósito de riqueza do planeta.

desemoção

Disseram que surpresas esperam a cada esquina.

Desalentado como estou, cruzo esquinas e nada

vejo.

Estou simplesmente desemocionado.

 

Não sofrer

Só existe um modo de não sofrer: morrendo.

 

Definições

Fantasia se faz. A imaginação é livre.

 

Natureza

A humanidade pertence à Natureza. Os ecologistas querem nos colocar fora dela, como fôssemos uma entidade a parte.

A Natureza é una, autodegenerativa, violenta e implacável.

 

Frases soltas

A melhor certeza é a dúvida.

Passou a vida concordando, morreu acordado.

Mão que economiza é mão que não dá.

A sorte é um dos azares da existência.

A geração saúde é tão, mas tão saudável, que morre curada.

Sua solidão era tal, que usava viagra para se masturbar.

Se Deus é o pai, prefiro ser órfão.

 

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