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01/09/2014 / Paulo Wainberg

Futebol e racismo

Cresci com a ideia de que o Grêmio era um clube racista e que o Internacional era o clube do povo. Que o Grêmio só permitiu que negros jogassem no time na década de 50 e que o primeiro foi Tesourinha, um dos maiores ídolos do Internacional. Que, mesmo admitindo negros no time, o Grêmio não os admitia como associados nem permitia que entrassem nas dependências sociais para usufruí-las. 

Enquanto isso o Internacional, como o Clube do Povo, não fazia quaisquer restrições a raças, religiões, cor e tudo o mais, era um clube democrático e livre dos preconceitos.

Eu sou colorado desde crianças, mas por favor, não me entendam mal, não foi por nenhuma razão humanitária, libertária ou democrática que me tornou colorado. Não. Eu virei colorado apenas porque meu pai, que era colorado, um dia me disse que o Internacional era o time que ganhava tudo, o maior, que o colorado era o Rolo Compressor e que ele, meu pai, era colorado e gostaria muito que eu também fosse.

Inundado pela idolatria de meus cinco ou seis anos, jamais me ocorreu ser outra coisa que não colorado, muito embora naquela época e mal compreendesse o significado daquilo.

Feito o esclarecimento, volto ao assunto. Sabe-se, hoje, que tanto Grêmio e Internacional tinham preconceitos racistas, isto numa época em que o racismo era livre, cotidiano e, em muitos casos até recomendável. No Brasil e no resto do mundo onde, aliás, o racismo era oficial, como nos Estados Unidos, Africa do Sul e outros países e quando ser antissemita não ofendia ninguém, salvo os judeus.

O Internacional talvez tenha se antecipado ao Grêmio, na liberalização e na permissão de negros no time, talvez até como estratégia do clube para ganhar grenais que, a história não mente, eram vencidos pelo Grêmio por goleadas históricas.

O fato é que a lenda se criou e eu fui uma de suas vítimas.

Agora o racismo volta a atormentar o Grêmio, graças ao desvairío de uma de suas torcidas organizadas e de torcedores inconsequentes (e não são poucos), que acham que torcer para o seu time é ofender jogadores adversários por serem negros.

A questão a ponderar é: O Grêmio instituição, o Clube Grêmio Footbal Portoalegrense é uma instituição racista?

É ÓBVIO, É EVIDENTE QUE NÃO!

Isto é o que deve ficar bem claro para a sociedade. Seu diretores, conselheiros, presidente e ex-presidentes, grande maioria de torcedores não só não são racistas como execram o racismo e toda e qualquer forma de discriminação.

Talvez falhe, a instituição Grêmio, no controle do que fazem certas torcidas e certos torcedores, mas não acontece apenas no Grêmio, acontece em dezenas de clubes do mundo inteiro, um dos exemplos mais flagrantes é o time da Lázio, de Roma, identificada com o franquismo e o fascismo, portanto com o racismo.

Como colorado, lamento que o Grêmio esteja vivendo um péssimo momento histórico, tendo que conviver com manifestações odiosas de torcedores deformados, tanto pelos sentimentos quanto pela ferocidade com que se manifestam, coisa que, aliás, acontece também no Internacional.

Não acho que o Grêmio deva ser punido, principalmente após ter tomado todas as providências cabíveis, inclusive manifestações oficiais, repudiando o ocorrido e excluindo os racistas de seus quadros sociais.

O Grêmio (e nenhum clube de futebol) pode ser responsabilizado por ações difusas praticadas por indivíduos num universo incontável de pessoas, indivíduos que usam o futebol para expor suas piores qualidades, seus mais graves defeitos e sua ânsia criminosa de praticar a intolerância e a discriminação. 

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