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29/06/2014 / Paulo Wainberg

A mãe que não era

Bastard era filho de mãe desconhecida com o cientista político Anisius Praticus. Com efeito, Anisius não economizava em matéria de libertinagem e promiscuidade e mantivera sexo com cinco ou seis mulheres ao mesmo tempo, todas capazes de serem a mãe de Bastard.

Naquela noite, na sala de espera do hospital, Anisius fumava cigarro após cigarro (naquela época era permitido) quando a enfermeira depositou em seus braços um nenê e, antes de sair, declarou:

– Toma que o filho é teu.

Feliz como um passarinho aquecido em bosta de cavalo, Anisius aconchegou Bastard e foi para casa, dedicando-se com o maior desvelo a cuidar e educar seu filho.

Jamais procurou saber quem era a mãe da criança.

Certa vez, quando já tinha sete anos de idade, Bastard perguntou ao pai:

– Papai, a política é uma ciência ou uma arte?

– Uma arte, Bastardinho, uma arte.

– Então você devia ser um artista político e não um cientista político, né?

– Tem razão – sorriu Anisius – acontece que artista político é protagonista, faz campanha, se elege e tudo isso, enquanto nós, cientistas políticos, ficamos do lado de fora, estudando os desdobramentos da coisa.

– O que é que faz um cientista político, papai?

– Muitas coisas, meu filho. Em primeiro lugar temos de estar sempre à disposição para participar de debates e entrevistas nos programas de rádio, televisão e também para reportagens em jornais e revistas. Em segundo lugar, analisamos os resultados das eleições e, antes delas, comentamos as possibilidades dos partidos e dos principais candidatos, fazendo previsões e tirando conclusões.

– E vocês ganham bastante dinheiro pra fazer isso, papai?

– Claro filhote, é a nossa profissão.

– Hummm, contentou-se o menino.

Na escola Bastard era bastante provocado por ser filho de mãe desconhecida. Era chamado disto e daquilo, jamais daquela pois ninguém sabia quem era aquela.

O dia das mães era muito triste para Bastard que não tinha a quem beijar, dizer feliz dia das mães e dar presentes. Revoltava-se por não existir um dia das tias, pois tinha duas, irmãs de seu pai.

Nem ia ao colégio no dia das mães, para não morrer de inveja de seus coleguinhas.

Anisius tentava suprir a carência de Bastard, sem sucesso. Como pai dedicado, tentava explicar que várias mulheres podiam ser sua mãe, ele não tinha como saber qual pois nunca havia tido sexo com uma mulher mais de uma vez, fodia, vestia a roupa e ia embora.

No dia em que completou vinte e sete anos, Bastard estava sozinho em casa, esperando o pai que estava participando de um debate na televisão. Para passar o tempo, ouvia um cd de que gostava especialmente, não lembramos agora o nome, quando tocaram a campainha.

Dirigiu-se para porta perguntando-se quem será, abriu e lá estava uma mulher bastante castigada pela vida, cabelos brancos sujos e emaranhados, pele enrugada, olhos macilentos, magra e fedorenta. E desdentada.

– Pois não?

– Você é Bastard, filho de Anisius Praticus?

– Sim, sou, quem é a senhora?

– Meu filho, desmanchou-se a mulher em prantos. Meu filho querido, me perdoa, me perdoa, me perdoa?

– A senhora é minha mãe?

– Sim, sou eu mesma. Na noite em que você nasceu, fui escondida para o hospital, mandei chamar seu pai e recomendei que ele não me visse, porque eu era jovem, ingenua, sem dinheiro e sem condições de criar um filho. Mas tenho acompanhado sua vida, sempre ando por perto e você, mais de uma vez, jogou moedas na minha caixa, naquela esquina do centro onde faço ponto.

E assim termina nossa história, com um final mais ou menos feliz. Ao chegar em casa Anisius encontrou Bastard  abraçado com a velha no sofá, aos prantos. Ao saber que ela afirmava ser a mãe de Bastar teve um assomo de fúria, negou o fato, expulsou a mulher com a recomendação de jamais aparecer novamente ou chamaria a polícia, explicou ao filho que se aquela vagabunda era sua mãe então ele, Anisius, não era seu pai e que se Bastard insistisse na coisa, além de mãe desconhecida seria filho, também de pai desconhecido, o que ele preferia?

Bastard pesou bem a situação, mediu os prós e os contras, não havia gostado mesmo da mulher, papai estava ali para lhe garantir a mão e jurou que nunca mais pensaria em sua mãe, fosse ela quem fosse.

Felizes, pai e filho se abraçaram e, como se fosse um último consolo, Anisius disse:

– Parabéns a você Bastard, meu filho querido, muitas felicidades.

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