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27/04/2014 / Paulo Wainberg

Nove e meio

Acordei lembrando uma conversa com um mais conhecido do que amigo, durante um chope, já faz tempo.

Estávamos ambos sozinhos no bar, nos vimos e nos juntamos. Ele, entre quarenta e cinquenta, mantinha comigo uma conversa agradável quando, sem mais nem menos, interrompeu o que dizia, tomou um gole, girou o copo sobre a mesa e disse:

– Quando eu tinha doze anos mostrei o boletim para meu pai. Eu tinha dez em nove matérias e, numa única, nove e meio. Meu pai olhou o boletim com aquele jeito severo dele e a única coisa que me disse foi: “Por que o nove e meio?”. Porra, cara, nenhum elogio, nenhum comentário, só crítica, crítica…

Fiquei olhando para ele, surpreso e sem saber o que dizer. Mas disse:

– Chato, mas que diferença faz isto hoje?

– Que diferença? Que diferença??? Passei a vida tentando receber um elogio do meu pai e nunca consegui, esta é a diferença!

– Eu sei, é chato – repeti – mas insisto, em que este episódio interfere na sua vida hoje, depois de tantos anos?

– Interferiu, interfere e vai continuar interferindo, meu amigo. Você não imagina o que significa um único nove e meio no boletim! Nunca entendi aquele nove e meio, eu tinha certeza, eu sabia tudo, por que o maldito professor abateu meio ponto de minha nota? Esse meio ponto alterou minha vida. Eu poderia ter sido qualquer coisa, menos o funcionário público que sou. Eu tinha tudo para ser embaixador, espião, melhor médico do mundo, prêmio Nobel de literatura. Aquele meio ponto, rapaz, desagradou meu pai porque ele queria que eu fosse perfeito, nota dez em tudo, e eu não consegui. Sabe qual foi a última coisa que eu disse a ele quando morreu? Desculpe aquele nove e meio, foi o que eu disse. E agora preciso ir.

Deixou dinheiro da sua parte sobre a mesa, levantou e foi embora. Nunca mais o vi e nem sei a razão de ter lembrado o episódio. O que terá acontecido com ele? Provavelmente nada, provavelmente se aposentou e hoje cuida do jardim, não sei e, na verdade, não estou nem um pouco interessado. O sujeito que não supera um episódio assim nem merece ser lembrado. Mas lembrei. E aí está.

Se você acha que inventei a história para falar de mim enganou-se redondamente. Jamais tirei meus muito raros dez em mais de uma matéria. E quando aparecia no meu boletim um eventual dez, meu pai olhava o boletim e perguntava:

– Por que o dez?

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