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01/04/2014 / Paulo Wainberg

Vida e Morte

Vida e Morte tomam coquetéis de cinquenta em cinquenta anos, para colocar a conversa em dia. Como sempre faz, logo que se encontram Vida diz:

– Morte, querida, como você está bem. Até parece viva.

– Não posso dizer o mesmo de você, meu bem. Seu aspecto é quase terminal.O

– Deve ser, mesmo, afinal você não para de crescer e eu? Pobre de mim, eu definho.

– As regras são estas, querida Vida, você começa apenas para terminar em mim.

– Mas não é justo. Prefiro não começar. Afinal, antes de começar você sequer aparece na linha do horizonte.

– Ahahaha, muito boa a sua tirada, querida Vida. Muitas vezes fico condoída com sua sina. Afinal você existe apenas para me justificar.

– E não é? Já pensou no que seria de você, sem mim?

– Já, e concluí que você existirá sempre em alguma coisa para chegar em mim.

– Posso perguntar uma coisa, sem ofender, é claro? Uma pergunta transcendental, algo que vai além da imanência de que você tanto gosta?

– Claro, meu bem, pergunte o que quiser. Mas antes espere um pouco.

Morte vira-se, chama a garçonete e pede:

– Mais um coquetel de frutas, por favor? E pode carregar na vodka, este último estava muito fraquinho. – Pergunte, querida Vida. Ou quer mais umas cinco doses de uísque. Você está bebendo pouco, hoje.

– Eu sei, meu fígado anda fraco, meu coração bate sem cadência e minha respiração ofega. Certo, certo, afinal só se vivie uma vez. Moça, mais cinco doses de uísque, por favor.

– É assim que eu gosto. Mas diga, qual a sua pergunta?

– É verdade? Isto é, é verdade que no final eu viro você? Ou apenas mais uma lenda urbana? Uma filosofia de  botequim? Ou uma conversa de velório?

– Vida, Vida, vejo que através dos século você nada aprendeu.  Por que você acha que eu, Morte, pareço tão viva e você, Vida, parece tão morta? É porque você existe apenas para me tornar maior, mais intensa e mais perpétua. No fim dos tempos, quando tudo estiver destruído, eu reinarei absoluta no Universo, serei a Morte de todos os tempos, para sempre e eternamente.

– Eu sou apenas uma coadjuvante, é isto que você está me dizendo?

– Não, querida Vida. A cada cinquenta anos eu tenho que repetir a mesma coisa e você se recusa a entender. Não, você não é uma coadjuvante, Vida, você é um alimento.

E como sempre faz de cinquenta em cinquenta anos, Vida se despede de Morte com a mesma frase:

– Então, Morte, espero que daqui a cinquenta anos eu esteja aqui, para mais uma conversa.

E como sempre responde de cinquenta em cinquenta anos, Morte se despede de Vida com a mesma frase:

– Espero que não, Vida, realmente espero que não.

 

 

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