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20/03/2014 / Paulo Wainberg

Visões noturnas


Toda noite às três em ponto, faça chuva ou faça estrelas, um gato
cruza na frente da minha janela.

Não sei se ele é preto ou pardo, branco não é. Espero uma lua cheia
desabando em minha rua para descobrir. Temos pouca intimidade, ele
surge do nada e para o nada vai, altivo e indiferente, nem olha para
mim. Passa rápido, uma quase fugaz visão, quando junto os lábio para
fazer psiu, ele sumiu.

Pontualidade absoluta. Minha sorte é que, nessa hora, estou diante da
janela, olhando para a noite escorrendo lá fora. Caso contrário, não o
veria.

O tempo fica lento, à noite. O enorme coqueiro que plantei na calçada,
quando ele era apenas uma fina haste, raquítica e inviável, movimenta
em câmera lenta as suas grandes palmas, bem ao contrário do dia,
quando ele se abana e abana quem por ele passar.

Durante a noite, mil efeitos de luz provocados por lâmpadas brancas,
amarelas ou pálidas, acrescidas de um esfumaçar de neblina ou gotas
calientes de chuva, transformam a paisagem em cenário. Minha janela dá
para mil janelas das casas e edifícios, onde luzes acendem, luzes
apagam, sem qualquer nexo ou sentido.

Eu ali, observando, sinto um saudável prazer, posso controlar tudo e
imaginar o que quiser, cada vez que uma janela se ilumina, cada vez
que uma janela se apaga.

Às cinco meu vizinho da frente pega o carro e sai. Para onde? O que
ele precisa fazer, naquela hora? Já pensei em perguntar, mas aí perde
a graça. Ele pode me dizer que é um agente secreto do governo, saindo
para uma missão. Ou então um estripador em série, em busca da próxima
vítima.

E eu, como é que fico, sabendo de tudo?

Melhor não, melhor imaginar.

A realidade tem pouca graça. Vai ver ele tem que abrir a loja, fechar
a padaria, qualquer outra coisa assim prosaica a fulminar minha
imaginação.

Tem também o velhinho que sobe correndo a ladeira, com frio, com chuva
e sereno, casaco de abrigo, calção e tênis, passos curtos, quase
claudicantes. Que idade terá ele? Não faço a menor idéia, mas é um
velhinho, disso não tenho dúvida. Sua postura é de velhinho, sua
careca é de velhinho e seus passinhos são de velhinho.

Eu, velhinho também, invejo o cara que, com certeza, não sente dor nas
pernas a cada passo que dá.

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