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01/12/2013 / Paulo Wainberg

Eloir vai fundo – 02/07/2008

Meu nome é Eloir, Inspetor Eloir. Sou uma lenda viva no Departamento, ninguém conhece minhas origens e os que conhecem estão mortos ou coisa pior.

Uso costeletas, cabelo crespo e camiseta de física por baixo, e tudo o que sou devo a mim mesmo e não pago.

Meu instrutor na mitológica Escola de Polícia foi o Velho Sargento que, por ser anão, jamais usou bermudas.

Na ordem unida os recrutas ficavam de joelhos para a inspeção, porque o Velho Sargento gostava de olhar os novatos olhos nos olhos.

Quando parava na minha frente dizia:

– arruma a gola, calhorda – um apelido carinhoso que usava só para mim.

Sou duro por dentro e mole por fora, mas é assim que eu sou. E vice-versa. Não levo desaforos à boate e mulher, para mim, é como filé com fritas: como a qualquer hora.

Quando uso meu sorriso de esguelha com o levantar da sobrancelha oposta as mulheres caem aos meus pés. Mas não chuto, pois tenho bons sentimentos.

Não gosto de mulheres fáceis, filé para mim tem que ser ao ponto. Quando quero mulher fácil ou não tenho tempo para o almoço vou à lanchonete e ao puteiro onde como e cobro.

Eu sou assim, mas é assim que eu sou.

Duro.

E mole. Por fora ou por dentro.

Eu tinha acabado de prender um cossaco ilegal que vendia dvds piratas de campanha eleitoral para candidatos a vereador, quando o Chefe me chamou.

Entrei na sala dele e ele estava de costas para mim, olhando para o vazio através da janela suja. Vazio era como chamávamos o poço de luz, no prédio do Departamento. Sem se virar, ele disse:

– Solta o cossaco, Eloir.

– Solta tu, Chefe – respondi.

Nossa relação era assim, franca e direta. Apesar das aparências eu sei que o chefe gosta de mim. Sinto a ternura até nos piores momentos. O Chefe sabe que, sem mim, ele vai brigar com a mulher dele, em casa.

– Como é que é, imbecil?

Percebem? Apesar das palavras duras, o carinho estava implícito.

– Chefe, é simples, eu prendo, você solta. Você prende, eu solto.

Ele se virou lentamente e ficou de frente para mim. A única coisa que não gosto no Chefe é do bigode.

– Não dá pra tirar o bigode, Chefe?

– Desaparece, Eloir. Sai da minha frente! Some! Xô, desgraçado! E me solta o cossaco já!

Desviei do cinzeiro que o Chefe jogou e, antes de fechar a porta, comentei que as coxas da mulher dele eram divinas.

Duro por dentro. Mole por fora.

Quem era o cossaco? Eu sabia. Por que o Chefe queria soltá-lo? Eu não sabia.

Mas escutei a voz do Velho Sargento, furando meus tímpanos, ele que, por ser anão não ia ao Circo, me orientando:

– O que vem de cima sempre te atinge, idiota.

Desci ao porão do Departamento onde ficava o xadrez e mandei soltar o cossaco que suava por causa do casaco e do gorro de pele de urso polar.

Ali tinha coisa e resolvi investigar. Eu sou assim, o que é que eu posso fazer?

Segui o cossaco e não se impressione com meu talento, seguir o suspeito é a primeira regra do manual.

Na segunda esquina, perdi o cossaco de vista.

Não sou bom em seguir suspeitos. Nunca fui. Mas eu sabia aonde ele ia e cheguei lá antes dele.

Agora você pode se impressionar.

Entrei na sala do deputado que estava repleta. Eram os vinte e cinco assessores dele que aguardavam o pagamento do salário. O deputado conversava com o cossaco num canto isolado da sala, os dois tomando um cafezinho.

Suspeitei e, sem pedir licença perguntei:

– Vossas excelências me permitem um aparte?

– Certamente – respondeu o deputado.

– Eu gostaria de um cafezinho.

O deputado fez um sinal e os vinte e cinco assessores se aproximaram ao mesmo tempo.

– Um cafezinho aqui para sua excelência – ordenou.

Em quinze segundos vinte e cinco cafezinhos estavam à minha disposição. Observei um a um e escolhi o que me pareceu melhor, pensando com o segundo botão de minha camisa que, falassem o que falassem, o serviço público funcionava bem.

Ingeri o café e gostei. Amargo. Como eu gosto.

Voltei ao Departamento e entrei na sala do Chefe sem pedir licença. Ele cofiava o bigode, pensativo. Ergueu um olhar mortífero em minha direção, mas fui mais rápido:

– Descobri tudo, Chefe. Já sei por que soltou o cossaco.

– Parabéns Eloir – ironizou o Chefe – então já sabes que o cossaco é nosso.

– Sério? – surpreendi-me – pensei que o cossaco fosse de um só.

Eu sou assim, mas é assim que eu sou. Não dou mole à pedreira nem azar à sorte. Se o Chefe queria brincar, ele ia ter parceria.

– Nosso cossaco, é? – continuei. – Um saco coletivo, é isso?

– Vai pra puta que te pariu, Eloir! – disse o Chefe, com carinho.

– Nosso cossaco, Chefe, para mim é isso: um saco coletivo, co-saco, entendeu? Mas não gosto da idéia Chefe, prefiro ter o meu saco individual, mas não me oponho se o senhor quiser compartilhar o seu.

Com algum esforço consegui tirar as mãos do Chefe de minha garganta. É que também sei ser irônico, quando precisa.

– Quero um relatório escrito na minha mesa em uma hora e trinta segundos! – ordenou o Chefe.

– Se a sua irmã me liberar. – E saí da sala segundos antes dele empunhar o revólver.

Fui para minha mesa, a pensar: o que estava acontecendo? O que havia por traz daquilo tudo? O que o Chefe estava escondendo? Quem mandava na maloca, quem era o homem da casa, quem havia depilado o sovaco da cobra? Pensei muito e conclui que só de pensamentos eu não ia ganhar a mega-sena. Eu precisava agir. Novamente pensei: agir como? Por onde começar? Qual o primeiro passo?

Anotei no meu bloqueto de notas os fatos: o cossaco ilegal vendia dvds piratas de campanha eleitoral para candidatos a vereador. As eleições estavam próximas. O cossaco era amigo do deputado. O Chefe queria o cossaco solto.

A voz do Velho Sargento, que por ser anão não usava chinelos de dedos, novamente estourou meus tímpanos:

– Fatos são fatos, estúpido, e hipóteses não

Deixei de lado os fatos e saí em busca das hipóteses. Quais eram as hipóteses? Eu não sabia.

Eu tenho filosofia e já folheei o Pequeno príncipe. Aprendi que diante do inevitável é melhor não evitar.

Foi o que fiz. Saí do Departamento e fui para o Perfidu’s, um cabaré de virgens estudantes do curso de Secretariado na Federal, mas que aceitava também virgens dos cursos de Farmácia, Letras, Informática, Nutrição, Direito, Medicina, vestibulandas e analfabetas.

Eu sabia que após algumas horas lá, um túnel surgiria a minha frente, segundos antes de apagar a luz.

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Como sempre faz na hora agá, Eloir passou a narrativa para este que vos fala. Quem sou eu? O biógrafo, claro, um homem que dedica sua vida a contar as notáveis façanhas desse policial sui generis, como já fez nos casos do Carrilhão Quebrado e de Um Susto na Escuridão, mesmo com o custo de duas dentaduras novas.

É que Eloir não me suporta, lamento dizer. E costuma demonstrar-me isso mediante o uso de seu vigor físico e socos na cara.

Mas não me importo, não sou como certos biógrafos que se anulam para exaltar o gênio dos biografados, como aquele inglês elementar, o segundo mais conhecido no mundo.

Como sempre acontecia Eloir chegou ao Perfidu’s em horário de aula e todas as virgens estavam em classe. Contentou-se com três das antigas e tarimbadas o que não lhe desagradou totalmente, porque estava impaciente com o caso do cossaco e não queria perder tempo com defloramentos.

Satisfeito, voltou aos seus domínios, onde conhecia cada passo do camelo, cada marca de bicicleta e cada meandro marginal: as ruas.

Depois de duas bofetadas na cara de Xoxô, seu antigo informante e amigo, Eloir recomendou:

– Desembucha, Xoxô!

Antes da resposta desferiu outras duas bofetadas para clarear as idéias de Xoxô, soltou-lhe o pescoço e manteve uma mão no peito do rapaz, ancorando-lhe as costas contra a parede de tijolos, no beco, pressionando de leve, o suficiente para Xoxô mal conseguir respirar:

– Não sei de nada Inspetor, juro, estou limpo cara, fock you!

Eloir ergueu a sobrancelha direita, estreitando ainda mais sua estreita testa. Seu olhar era fino como um bisturi, frio como um pé descalço no gelo, ameaçador como um corno de javali.

– O cossaco, Xoxô, abre o bico bastardo, qual é a do cossaco? Você me conhece moleque, não me queira como inimigo! Desembucha de uma vez!

– Cossaco? Que cossaco, Inspetor? Não se de nada, juro, não sei de cossaco nenhum, cara…. Tudo bem, tudo bem, estou me lembrando, o senhor está falando do cossaco? Aquele cossaco?

– Não brinca com fogo, meliante.

– Aquele que é amigo do deputado? Que vendes dvd pirata de campanha eleitoral para vereador?

Eloir apertou mais ainda o peito dele contra a parede.

– Não sei nada dele, Inspetor, juro pela alma da sua vó.

Eloir era assim, mas era assim que ele era. Duro por dentro e mole por fora. Desferiu mais duas bofetadas e liberou Xoxô. O pobre diabo nada sabia, isso era evidente.

Havia um algo, um algo insistente, um algo com consistência, um algo com vida própria, emoções e sentimentos, que martelava a cabeça do Inspetor Eloir com a insistência de um vendedor de cortadores de grama. Que algo era esse? Perguntava-se Eloir, a si mesmo e a todos os botões de sua camisa, inclusive um que estava faltando embaixo do umbigo.

O Inspetor Eloir, lenda viva do Departamento, havia aprendido da pior forma a confiar nos seus algos. Porque seus algos sempre tinham alguma coisa a lhe dizer. E para descobrir ele tinha que ser atencioso, dar carinho, oferecer amparo e solidariedade, pois, como ele dizia, algos também são gente.

Voltou ao departamento, sentou em frente ao seu computador e começou a jogar paciência, método novo de investigação que adotara, depois que inventaram o computador.

Mal conteve um sorriso ao lembrar que sobre aquilo o Velho Sargento nada lhe disse, pois, naquela época, não existia computador. Mas Eloir sabia, ah como ele sabia, o que o Velho Sargento, que por ser anão jamais jogara bilhar, teria a lhe dizer:

– Paciência, imbecil, é inimiga da pressa!

Duas horas e dez jogos sem vitória mais tarde Eloir desligou o computador e deu um berro.

Os berros do Inspetor Eloir eram famosos e produziam estragos. No berro anterior as autoridades sanitárias procuraram por meses pelo louco que havia praticado uma chacina nos porcos da cidade.

Naquele berro o efeito foi menor e somente duas freiras abandonaram o Hábito.

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Viu? Viu porque eu tenho que quebrar a cara desse biógrafo? É um incompetente e só conta as coisas pela metade! Foram quatro freiras que abandonaram o Hábito! O safado não perde por esperar e já pode ir encomendando a nova dentadura.

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Apenas para constar, este biógrafo informa que acabou de concluir seu curso de cu-tsen-pung e já é faixa lilás…

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Deixa ele pra lá. Como dizia o Velho Sargento:

– Se você pisar na merda, calhorda, seu pé vai feder.

Ah o Velho Sargento, quanta saudade daquele anão que eu pegava no colo para que ele pudesse gritar ao meu ouvido.

O meu algo vinha novamente em meu socorro. Não que eu precise, mas ele veio mesmo assim. Era aquele algo a mais que não se acha em prateleira de botequim nem em loja de carros usados.

O algo me disse o que eu já sabia, mas ainda não sabia que já sabia. Sem pestanejar, sem piscar nenhum dos três olhos, invadi a sala do Chefe, sentei na poltrona, cruzei as pernas mostrando um pedaço do meu tornozelo porque minha meia estava caída.

O chefe abriu a gaveta dele e tirou lá de dentro um par de socos-ingleses que depositou sobre a mesa, olhando para mim de cima para baixo porque a cadeira dele era mais alta do que a minha poltrona.

Sustentei o olhar como se fosse um retentor ou pastilha de freio.

Jogamos sério por alguns segundos e então, sem pigarrear, eu disse:

– Por que o senhor queria soltar o cossaco, hein Chefe? Qual é o seu interesse neste caso, hein Chefe? Por acaso tu é sócio do cossaco em algum esquema? Por acaso o Departamento está comprando clipes piratas e pagando como se fossem originais? Hein Chefe?

Eu sou assim, não tenho meias palavras. Para mim meia palavra é bosta, em terra de cego quem tem olho é cu, devagar não se chega nem na esquina e quem está na merda não pia. E, como não sou macaco, estou em todos os galhos. Entendam isso! É assim que eu sou, mas eu sou assim.

Duro.

Mole.

Por fora.

E por dentro.

Não me venha de chinelas ao chuveiro e só coce as minhas costas se tiver seios de nascença.

– Então você descobriu, Eloir – disse o Chefe colocando um soco-inglês em cada mão. – Tenho que reconhecer, você é esperto e tem mais sorte do que juízo. Sim, o cossaco é meu sócio desde o tempo em que comunista comia criancinha. O que você pretende fazer agora, Eloir? – perguntou o Chefe, ajustando o soco-inglês da mão direita.

Podem me chamar de tudo, menos de burro. Até ignorante eu aceito, daí para frente é ofensa. E o último que me ofendeu nunca mais disse uma palavra. Ajustei a calça para tapar o tornozelo e respondi:

– Qual é a instrução, Chefe? Estou aberto às propostas.

– Vinte por cento.

– Trinta.

– Vinte e cinco.

– Trinta.

– Com recibo?

– Recibo só dou de cinco.

– Fechado.

O Chefe retirou lentamente as soqueiras, colocou-as dentro da gaveta, recostou-se na cadeira e disse:

– Aceita um cafezinho, sócio?

– Não obrigado, Chefe. Mas tu pode tomar um.

E levantei da poltrona. Antes de fechar a porta olhei para o Chefe que já colocava o celular no ouvido. Falei baixinho, mas pra ele ouvir, que a mulher dele adorava de quatro e saí para a rua. Eu precisava de ar puro, de ar fresco, de ar.

É assim que eu sou, só me corrompo por muito.

A cidade, naquele entardecer, parecia triste, mas não me importei porque eu estava alegre. Antes de ir para casa para tomar meu café com leite e bolacha Maria com meu grande gato amarelo que jamais miava, ainda ouvi a voz do Velho Sargento, meu antigo instrutor na mitológica Escola de Polícia, que por ser anão nunca usou cueca samba canção, berrando em meus ouvidos:

– Nunca esqueça, escroto, que a única diferença entre um rato e um camundongo é o tamanho do rabo. Entendeu calhorda, o tamanho do rabo.

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One Comment

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  1. Adriane Garcia / Dez 3 2013 15:08

    Fantástico. Bem escrito, de um humor inteligente que funciona todo o tempo. Lembra as melhores crônicas do Veríssimo ou as do Ponte Preta. Um show.

    Gostar

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