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30/11/2013 / Paulo Wainberg

Quando tudo dói – 24/09/2008

Hoje cortei os cabelos e remocei no mínimo três meses. É notável como, na medida em que a idade avança, certas diferenças visuais aumentam ou diminuem a idade aparente das pessoas.

Conheço uma senhora de setenta e cinco anos que, após uma acurada plástica removedora de pelancas, elevadora de seios e bumbum, extirpadora de excessos abdominais, alisamentos rugais, niveladora de papada e esticamento dérmico em geral, apresentou-se fulgurante e fogosa em badalado acontecimento social exibindo o remodelado visual.

E ninguém notou.

Pois é. Quando eu tinha quarenta anos e cortava o cabelo eu remoçava dez. Anos. Hoje remoço meses, cada vez menos meses, fato que me leva à conclusão nada consoladora de que modificar a aparência não me remoça mais nem me deixa mais bonito, sensual ou elegante do que já sou naturalmente, modestamente falando.

Se há na vida um fato consumado este é a velhice. Ela chega e se instala sem pedir licença, sem cuspe nem camisinha. Um dia você acorda, escova os dentes e se olha no espelho e, cataplum, você é um velho.

Seu rosto é velho, o viço sumiu, a pele encardiu e o próprio olhar perde o brilho, o olhar da velhice é morno, achatado, as pálpebras tombaram e você vê cada vez menos.

Há os resistentes que apelam para cremes, loções, muitos acreditam que bosta de cavalo regenera, mas o nariz continua poroso após as aplicações e as papuças não dão tréguas e, vá que você resolva extirpá-las, o máximo que conseguirá é parecer um velho sem papuças. O que, para o efeito, é pouco, minha querida, muito pouco.

Os cabelos grisalhos que lhe davam um charme especial aos trinta hoje são brancos, perfeitamente adequados à sua idade senhoril e tudo aquilo que antes lhe assegurava rápido e seguro acesso às jovens hoje é recebido como uma manifestação carinhosa e paternal que transforma você “num amor de velhinho”, “coisa mais querida” e “num senhor super simpático”.

Isso dói, cara.

Quando você fica velho pode malhar doze horas por dia que, no máximo, conseguirá ser um velho sarado. Sobre o corpo esbelto e musculoso – que não resiste a uma semana de férias – está um rosto saudável e… velho.

O pior de tudo na minha opinião, é que todo o velho, por mais que negue sua velhice, por mais que se sinta “jovem por dentro”, é um anacrônico.

Não acredita?

Proponho um teste: vá para a fila de uma balada. Saradão, vestido na última moda, alegre, jovial (jovem por dentro) e procure se enturmar, tente comunicar-se com as tribos, com a garotada com quem você tanto se identifica.

Acredite, meu bom velhinho, que sob a saraivada de “tios”, “coroas”, e “com licença senhor”, você murchará como uva em passas, recolherá os flaps, dará de frente com a dura verdade da sua velhice e vai acabar a noite tomando cerveja no boteco de sempre. Aquele cujo balconista entende você.

Envelhecer não é um processo e sim uma maldição vital da qual ninguém escapa. O pior de tudo é que a grande sabedoria que você adquiriu com a velhice seria perfeita se você tivesse trinta anos, sabedoria que, aos trinta anos você não tinha.

Isso é injusto e dói, cara.

Existem mil livros, grupos, excursões, propostas, conferências, congressos, debates, encontros, bailes, reuniões e seminários querendo convencer os velhos que a velhice é a melhor idade.

Ora, ilustre poeta, douto filósofo, iluminado profeta, vá catar piolhos na cabeça da sua avó. Quero ver se vai achar isso quando for, você também, um velho!

O “tudo de bom” da velhice não passa de consolo, minha jovem, coisas boas que os velhos usufruem para compensar a juventude perdida. Usufruem? Claro que sim! Usufruir os netos, por exemplo, é o sonho de qualquer velho. Isso deve ser coisa muito boa, virar avô. Ter um neto para brincar, para ver crescer, para se maravilhar, amar e adorar. Prerrogativa da velhice, isso eu reconheço. Com trinta anos é muito difícil ser avô. Acontece, mas é raro.

Não ter que ir a cerimônias de formatura é outra vantagem da velhice. Os velhos vão direto à festa.

Andar de ônibus de graça. Conheço pessoas que nunca andaram de ônibus e que, depois de velhos, passaram a andar só para aproveitar plenamente as vantagens da velhice.

Jogar dominó em praças públicas é outro privilégio dos velhos, deitar à noite e suspirar aliviado porque não precisa transar, não ligar para a bronca dos filhos porque está muito gordo e, maravilha das maravilhas, ficar o tempo que quiser no banheiro sem ninguém batendo na porta.

E quando batem é sua mulher querendo apenas saber se você está vivo.

Das muitas coisas que aprendi na vida tenho certeza de apenas uma: Nada remoça um velho.

A não ser uma paixão.

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