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28/11/2013 / Paulo Wainberg

Um discurso – 08/10/2008

Quando a Lica e o Jorge descobriram que a filha deles de 16 anos, estava fumando maconha, foi um desastre em casa. Pior, um furacão. A Lica descobriu a maconha na mochila da Mônica, mostrou para o Jorge e lá se foram os dois, para o quarto da menina, fechado por dentro, de onde saia um som impossível, no volume e na melodia.

Jorge deu murros, Lica gritou até que Mônica abriu a porta e vendo os olhares furibundos, recuou para a cama.

– O que é isso que achei na tua mochila, Mônica? Hein? Me explica! O que quê é isto? – berrou Lica, enquanto Jorge desligava o som furioso.

– Isso o que, mãe? Que saco! Não posso ficar quieta no meu quarto que…

– Maconha, sua… sua… sua vagabunda! – vociferou Jorge. A minha filha fumando maconha! Depois de tudo o que a gente te ensinou, de tudo o que a gente faz por ti e tu te drogando por aí…

– Maconha? – espantou-se Mônica – Ah, isso aí – apontou para o cigarro na mão de Lica – não é meu, gente. Que é isso? Nunca fumei maconha na vida, isso aí é de um colega meu que pediu pra guardar e esqueceu de pegar. Amanhã vou devolver. Nossa! Quanto escândalo. Vocês não confiam em mim mesmo, né gente? Por isso é que não agüento mais morar nesta casa!

Imediatamente Mônica atirou-se sobre o travesseiro, desatando num choro convulsivo enquanto Lica e Jorge se olhavam cheios de culpa.

………….

O pequeno drama acima repete-se e repetiu-se em milhares de casas neste mundo, pais perplexos diante de filhos que se drogam e usam sempre a mesma desculpa: – Isso é de um amigo que me pediu para guardar.

Não sou de me meter na vida de ninguém, muito menos criticar pessoas ou julgar os outros. Porém o tema das drogas é tão avassalador, tão cruelmente devastador que falar nele, às vezes, surge como um imperativo à minha consciência, mesmo que não adiante nada falar.

Eu, que sou dependente de cigarro, comecei a fumar na época em que fumar era o maior charme, a coisa mais bonita, romântica e sedutora do mundo. Ver a fumaça subindo pelo rosto do Humphrey Bogart enquanto ele dizia para a Lauren Baccal que ela era a mulher mais importante da vida dele, ou quando olhava para a Ingrid Bergmann e dizia que, para eles, sempre haveria Paris era, na expressão da época, o máximo.

Eu, com 13 anos me achava, vocês podem imaginar, um charme acendendo um cigarro e fazer uma espiral com a fumaça, olhando de lado com o cenho franzido para a coleguinha de aula que queria conquistar.

Portanto eu tinha um motivo real para fumar. Era a moda, naquela época não fazia mal e ajudava na paquera.

As razões que levam a maioria da garotada a experimentar drogas não são exatamente as mesmas. Existe, é claro, o desejo de “pertencer”, de estar integrado ao grupo, de fazer como todo o mundo. Porém a droga, da maconha às mais pesadas, produz efeitos que o cigarro jamais produziu, modifica o comportamento, altera a percepção, afeta os sentidos e leva o consumidor a fazer coisas que não faria e, o que é pior, por serem drogas ilícitas, geram uma dependência intolerável que só muito dinheiro pode satisfazer.

Os resultados disto nós todos sabemos.

A dependência química é uma doença e não uma falha de caráter. Uma vez dependente, não basta força de vontade para se livrar. O drogado deve ser tratado como um doente, entendido como um doente. O mesmo acontece com o alcoolismo.

A tendência que temos de associar o alcoolismo e o consumo de drogas à vagabundagem, a atitudes marginais ou às desvalias da personalidade é um grande erro porque, se já é difícil resistir às tentações mais ingênuas como matar a aula ou o trabalho, por exemplo, é simplesmente impossível resistir sozinho às exigências do organismo por substancias das quais ele depende.

A dependência tem força tão avassaladora quanto a necessidade de respirar, beber água ou comer.

Abster-se de comer leva à morte. Abster-se da droga leva ao sofrimento implacável e irresistível que precisa ser eliminado pelo consumo imediato.

Muitas vezes a pessoa se vale de álcool ou drogas para reduzir efeitos de males psíquicos como ansiedade, depressão, pânico, sem mesmo perceber que está se tornando dependente. A droga tem efeito anestésico para um sofrimento anterior que não se compreende, que não se conhece a causa e a origem. Ao tornar-se dependente, duplica-se o sofrimento, pois sem ela sofre-se por causa da ansiedade, da depressão ou do pânico e também por causa da abstinência.

E, acreditem nestas palavras, o sofrimento é tão intenso, tão destruidor que as pessoas perdem as referências, animalizam-se e são capazes de tudo, fazem qualquer coisa para aplacar tamanha dor.

Portanto não punam seus queridos que, por isso ou aquilo, tenham se tornado dependentes. Cuidem deles, tratem deles, compreendam e associem-se ao sofrimento deles, sem indagações, sem preconceitos e, principalmente, sem julgamentos. Apenas gostem deles, os seus queridos, mostrem esse gostar e façam tudo o que for possível para, ao lado deles, ajudá-los a compreender a própria doença. Ajam sem qualquer sentimento de vergonha porque nenhuma doença é vergonhosa. Nenhuma.

Se descobrirem drogas entre as coisas dos seus queridos, finjam acreditar que eles apenas estão guardando para outros. Mas não acreditem. E façam o que deve ser feito: carinho, compreensão e ajuda.

Quando seus queridos sentirem que são queridos de verdade, virão para o lado de vocês, não terão vergonha de pedir ajuda e terão muita coragem para se deixarem ajudar.

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