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22/11/2013 / Paulo Wainberg

O mundo é o bastante – 05/11/2008

Nos anos oitenta fui de uma importância fundamental para as grandes empresas. Não havia reunião de diretoria em que meu nome não fosse citado, enaltecido e recomendado.

Foi uma época esplendorosa da minha vida quando, diariamente, eu recebia telefonemas e visitas de vendedores de consórcios, enciclopédias, túmulos, ações, investimentos financeiros, títulos patrimoniais de dezenas de clubes.

Eles se anunciavam dizendo, para meu orgulho e glória, que a diretoria havia recomendado meu nome, fato que me dava uma sensação de importância magnífica.

Enciclopédias eu comprei, uma sobre bichos e outra em inglês, visto que, como recomendado pela diretoria editorial, aquelas obras seriam extremamente importantes para uma adequada formação de meus filhos que, sinceramente, não poderiam ser privados do acesso à cultura e à informação.

Estão lá em casa até hoje.. Minha filha nunca abriu um único volume. Nem eu. Nem ninguém da minha família.

Porém, como poderia eu recusar a oferta, vinda assim de tão altos escalões corporativos, além de recusar à minha filha, tão transcendental oportunidade?

Adquiri também um consórcio para um carro que todos os meses eu poderia receber, ou por lance ou por sorteio. Não fui sorteado e não dei lance. No terceiro mês agi por conta própria, comprei o carro que eu queria e dei o consórcio como entrada.

O sucesso excessivo, a fama explícita e o reconhecimento das diretorias empresariais exagerado produziram em mim o desejo de voltar à antiga obscuridade, enfarado que fiquei de ser tão importante.

Não foi fácil, mas consegui convencer minha secretária da época a não me passar mais ligações de ofertadores, por mais que insistissem e invocassem a grandeza da honra que suas diretorias me conferiam.

Voltei ao anonimato e, por muitos e muitos anos, as diretorias mercantis esqueceram que eu existia.

Malgrado certa sensação de abandono, sucedeu que, assim ignorado, voltei às minhas anteriores práticas de comprar o que eu queria, quando eu queria, onde eu queria. Tive algumas dificuldades iniciais, pois já me acostumara a ter meus desejos definidos pelas diretorias empresarias.

Você sabe como as escolhas em geral são difíceis.

Felizmente me acostumei com a renovada realidade e ao longo dos anos seguintes minhas compras obedeceram a três critérios imutáveis que cumpri de forma intransigente, sem concessões e em rigorosa ordem: impulso, vontade e necessidade.

Com a pertinácia que me é peculiar comprei na Colômbia, pela bagatela de cem dólares, três pedras de cristal, informado que fui pela vendedora, dos efeitos energéticos positivos dos cristais. Fiz um enxoval completo de roupas dois números menores do que o meu porque iria – e ainda vou – emagrecer. Troquei vários aparelhos de som, automóveis, adquiri uns posters semi pornográficos num brique, enfim, fui fiel às minhas prioridades, com prudência e parcimônia, baseado no universal princípio econômico segundo o qual, quem não deve teme. Eu, para não temer, devo.

Não é que ontem, pelas quatro da tarde, minha secretária me passa a ligação de um senhor chamado Charles. Imaginei tratar-se de Charles Kieffer, patrono da Feira do Livro, único Charles que conheço, querendo me convidar para alguma homenagem ou coisa assim. Mas não era. Disse-me o outro Charles ao telefone, literalmente:

– O seu nome foi selecionado e recomendado por nossa diretoria para uma oferta maravilhosa de um consórcio.

Quase caí da cadeira: estou recuperando minha antiga importância? Disfarcei e disse:

– Que ótimo. Consórcio do que, mesmo?

– Para o que senhor desejar, doutor. Imóveis, carros, eletrodomésticos…

– Para divórcio tem? – interrompi.

– Como?

– Divórcio. Aqui em nosso escritório elaboramos um plano de consórcio para divórcio. Se o senhor aderir, poderá se divorciar por lance ou por sorteio, são dois divórcios por mês, ou então no final do plano. Com uma vantagem adicional: o senhor pode transferir o plano para quem quiser, algum amigo, sua mãe e até mesmo para sua mulher.

– Sério?- perguntou Charles. Vocês têm mesmo esse plano? E quem for solteiro, como eu?

– Não tem problema nenhum. O senhor pode ingressar no plano especial de Divórcio Preventivo.

– Preventivo? Como é que funciona?

– É simples. Hoje o senhor é solteiro, mas um dia vai casar. Se você adquirir um plano de Divórcio Preventivo, quando casar já estará com seu divórcio assegurado.

Sem nenhum comentário Charles agradeceu e desligou o telefone.

Eu fiquei dividido entre dois sentimentos: orgulhoso por estar ocupando outra vez um lugar de destaque entre as diretorias das grandes empresas e temeroso de que venham condicionar e decidir sobre os meus ideais de consumo.

Estarão os velhos tempos de volta? Sou de novo uma celebridade entre os executivos?

Para me preservar resolvi responder ao ferro com ferro. Ofereçam-me um consórcio e devolverei em troca o consórcio de divórcio.

Aos mais afoitos advirto: já estou bolando outro plano consorcial, algo a ver com rolhas, tampas de garrafa e preservativos.

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