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22/11/2013 / Paulo Wainberg

A Bíblia tinha razão

Moisés, Príncipe do Egito, após longa peregrinação viu-se no sopé do Monte Sinai que ainda não tinha esse nome e nenhum outro.

Louco de sede, a pele ardendo devido a sol implacável do deserto, resolveu armar a barraca para descansar.

Ofegante e fraco, ainda pensou: “Com mil cobras corais e duzentas lagartixas, por que demônios resolvi acampar no deserto, em pleno verão”.

Mal cravou a primeira estaca para erguer a barraca, uma voz profunda e fantasmagórica ribombou em seu cérebro:

– Moises!

Olhou para os lados, para cima, para baixo e não havia ninguém. “Uma alucinação” – pensou – provocada pela fome, sede, calor e uma cólica renal simplesmente insuportável.

Já enfiava a segunda estaca na areia quando ouviu a voz novamente:

– Moisés, por que não Me respondes?

– Não respondo porque não te vejo. Com certeza esta voz é coisa minha.

– Ah é?

– É.

– Ah é?

– É.

– Então olha isso!

Uma gigantesca bola de fogo surgiu no alto da montanha e veio rolando, rolando, até chegar diante de Moisés.

– Este sou Eu Meu, Jeová, Adonai para os amigos, Deus para o populacho.

– Ah, tá. Minha cabeça está muito ensolarada mesmo.

– Ainda não acreditas em Mim?

A bola de fogo envolveu Moisés e elevou-se até pairar sobre a cabeça dele.

– Se Eu quisesse, estarias totalmente queimado. Mas como Minha missão para ti é inadiável e não Tenho tempo de procurar outro, poupei tua vidinha de playboy, de Príncipe do Egito filhinho do papai. Esta bola de fogo que te cobriu será conhecida, no futuro, como fogo fátuo.

Um clarão seguido por uma trovoada, ambos enlouquecedores, ouviu-se por todo o deserto, deixando Moisés estirado no chão. Quando a turbulência passou, Moisés recuperou os poucos sentidos que havia perdido, passou a mão pelo rosto e pela cabeça e viu que suas barbas estavam imensas (só que me falta é estarem brancas, pensou) e seus cabelos haviam crescido abaixo dos ombros (Moisés pensou a mesma coisa). Para mostrar seu poder, Jeová fez surgir um espelho de água no qual Moisés se mirou e viu que seu principal temor havia se realizado, estava com o cabelo e a barca completamente brancos.

Novamente a voz:

– Eu Sou Jeová, Teu Deus e Senhor e tu, guri posto em berço esplêndido nas águas do Rio Nilo, és na verdade, filho do Meu povo, o povo que escolhi para herdar a Terra.

Moisés prostrou-se em atitude simultânea de penitência e reverência, caindo de joelhos ao chão.

– Jamais te ajoelhes diante de Mim. És um homem, fruto da Minha criação. Diante de Mim permanecerás ereto como um guarda do palácio de Burghingham. Diante de Mim cobrirás tua cabeça, senão ai de ti.

Como mágica, diante do delirante Moises, desceu dos ares uma quipá, que ele imediatamente colocou sobre a cabeça, quipá essa que seria de uso obrigatório aos judeus, ao longo do séculos. Aos ortodoxos com toda a certeza.

– E agora vai lá e liberta Meu povo da escravidão do Egito. Chega de conversa. Quero todos eles na Terra Prometida.

– Como assim, Senhor, ir lá e libertar o povo?

– Simples assim, quer que Eu desenhe? Diga ao faraó que Eu mandei que ele libertasse o meu povo.

– Quer dizer, eu saio caminhando daqui, chego ao Palácio do Faraó, entro, peço uma audiência, o chefe de gabinete dele pergunta qual é o assunto, digo que tenho uma mensagem de Jeová para ele, o chefe de gabinete me olha com uma expressão estranha, pensa que eu sou louco, mas por alguma razão que só o Senhor pode explicar, permite que eu entre?

– Exatamente assim, você está indo bem.

– Aí, entro na sala do Faraó, faço a reverência adequada a ele e a Amon-Rá, seu deus preferido, e digo: – Faraó, acabei de bater um papo com Jeová e ele me pediu para dizer ao senhor para libertar o povo dele, os escravos judeus.

– Muito bem, Moises, Muito bem. Você está compreendeu direitinho.

– Mas.. Senhor! Por que razão o Faraó iria acreditar em mim?

– E por que não, se Me faz o favor?

– Ora, bem, desculpe meu Senhor, meu Deus, mas acho que o senhor está um pouco por fora dos trâmites burocráticos. Terei que fazer um requerimento que será encaminhado para o Ministério das Relações Exteriores, que terá que ser lido e analisado pelo secretário geral…

– Basta! Nem uma palavra mais! Diga ao faraó que o assunto é pra ontem e se ele não obedecer, Lançarei dez pragas sobre o Egito. Entendeu? Está tudo claro?

– Sim, Senhor, está tudo claro, farei exatamente como me mandou fazer. Uma perguntinha final, posso fazer?

– Se for a final, pode.

– Digamos que dê tudo certo e que o faraó mande libertar o povo. O Senhor tem algum plano B para que eu possa convencer os velhos rabinos a me seguirem deserto adentro?

– Fora daqui, moleque!

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