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21/11/2013 / Paulo Wainberg

Crônicas adventistas – 20/05/2000

SIMPLES COMO UM LOGARÍTIMO

Após a hecatombe restou uma única pessoa na face da terra, um homem. Vagou de um lado para o outro, entre escombros e florestas calcinadas até que, cansado, sentou à beira do penhasco, olhando o abismo sem fim e pensando seriamente em jogar-se lá de cima.

A vista, ainda que trágica, tinha uma estranha beleza, profunda e aterradora. E assim perdido em contemplação, quase caiu ao ouvir uma voz às suas costas:

– O senhor tem fogo?

É aí que começa o drama: quem fez essa pergunta? É indiscutível o fato de ser o homem o único sobrevivente, ergo, não poderia ser uma pessoa.

Um alienígena talvez, compadecido da Humanidade e seu desastre, vindo à Terra para criar um novo ciclo, fecundar novamente o planeta, salvar a espécie, usando as capacidades científicas que os povos das galáxias com certeza possuem e muito superiores as nossas.

Porém ele queria fogo! Seria um ET fumante que esqueceu a caixa de fósforos ou o isqueiro Bic na astronave? Seria ele um errante das galáxias em busca do fogo desconhecido em outros planetas, para assar uma costela gorda ou cozinhar uma canja de galinha?

Novo drama à vista: obviamente o ser, assim tão evoluído, há muito descobrira o fogo e seus usos, sem mesmo precisar de um Prometheus acorrentado à rocha, tendo seu fígado devorado diariamente por uma águia.

Outra hipótese: As radiações nucleares produziram um acelerado desenvolvimento na inteligência das baratas, dotando-as de poder de raciocínio, fala, sentimentos, ego e superego e, pasmem, inclusive fé em Deus.

A Nova Barata, como se denominaria a espécie, em pouco tempo adquiriu os hábitos da Humanidade quase extinta, inclusive o de fumar, mas ainda não inventara o palito de fósforo. Vendo o humano, louquinha para acender o cigarro preso entre suas antenas, a Nova Barata achou que, com sorte, o último homem vivo na face da Terra era fumante e teria fogo no bolsinho do colete.

Ou, sendo barata, precisava de fogo para eliminar a nova espécie rival alterada geneticamente pela radiação, a raça dos Amores-Perfeitos que desenvolvera extrema crueldade e disputava o Domínio do Planeta com a raça da Nova Barata. Teria o líder imaginado que com fogo seria fácil destruir as pétalas dos Amores-Perfeitos que, ainda por cima, eram ateus. Ou não eram e adoravam o Girassol como o representante divino, o profeta, a voz de Deus na terra.

A Nova Barata, tendente a versões mais radicais, não aceitava os dogmáticos princípios dos Amores-Perfeitos e, por isso, tinha que exterminá-los da face da Terra.

Sinceramente? Também não acredito nesta hipótese. Não vejo como radiações nucleares possam produzir efeitos evolutivos, considerando é claro meus vastos conhecimentos sobre o assunto. Muito antes pelo contrário, acho que as baratas continuariam baratas mais fortes e os amores-perfeitos, dada sua natureza vegetal, seriam dos primeiros a desaparecer sob os ventos núcleoradioativos.

Quem ou o que estaria atrás do homem, pedindo fogo? Não posso aceitar a hipótese de um engano do narrador, isto é, o homem não foi o único e  outro sobrevivente havia restado. E casualmente se encontraram naquele penhasco tendo um planeta inteiro a separá-los.

Ridículo.

É inconcebível também que os minerais tenham passado a viver. E, ainda que aceite isso, raciocinando pelo absurdo, para que precisariam eles de fogo? Por mais maluca que seja minha imaginação (ou a sua), dá para pensar num cascalho segurando um palheiro, um cachimbo, um charuto ou, prosaicamente, um cigarrinho?

Não, não é por aí.

Vai um fantasma? Uma alma de outro mundo que escapuliu do Vale dos Mortos e veio ver de perto o produto final da obra? Acho que por aí podemos chegar a algum lugar.

Se eu fosse o narrador não iria resistir: quem pediu fogo ao homem no penhasco foi a alma da sogra dele! Ou do cunhado! Ou do cara para quem ele nunca pagou o empréstimo! Ou – ó supra-sumo do terror – o espírito de um gremista!!!

Mais uma vez o drama aflora: para que uma alma do outro mundo precisa de fogo? O que fará o etéreo ser com uma labareda, uma mera chama, uma simples fagulha?

Caso eu fosse uma alma do outro mundo ia querer qualquer coisa do homem, menos fogo. Atormentá-lo, com certeza. Assombrar o resto de seus dias terrenos, infernizar suas noites, carregar correntes barulhentas pela caverna dele e chocar o último gole de cerveja que ele guardou para uma ocasião especial.

Mas fogo? Nunca. Até porque eu provavelmente viria de um ambiente onde o fogo abunda como areias da praia.

Outra hipótese: o último homem sobre a face da terra enlouqueceu e imaginou uma voz atrás dele pedindo fogo. Entre jogar-se penhasco abaixo e enlouquecer, preferiu continuar vivo e louco, criando pessoas ao seu redor e acreditando nelas como se fossem reais.

Também é insuficiente porque, após a hecatombe, fogo é o que não faltava na superfície, vulcões ativos estariam despejando lava ardente, as profundezas jorrando altíssimas labaredas, o homem podia ser louco, mas não era burro. Não ia imaginar alguém pedindo exatamente aquilo que havia de sobra.

Se eu fosse ele, podes crer, ia imaginar coisa bem melhor, da Juliana Paes para cima.

Tudo bem chega de suspense, vamos logo à revelação, ao esclarecimento definitivo do mistério.

O único sobrevivente após a hecatombe, um homem, admirava a paisagem bela e aterradora, à beira do penhasco, quando uma voz perguntou às suas costas:

– O senhor tem fogo?

Ele se virou calmamente, fez que sim com a cabeça, tirou um isqueiro Bic do bolso do colete e estendeu o braço, entregando o isqueiro a quem pedira, acrescentando:

– Pois não.

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