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19/11/2013 / Paulo Wainberg

Crônicas psíquicas – 24/03/2009

Ó DÚVIDA CRUEL

Dizem que para combater a crise e colocar a globalização e o liberalismo na posição de proa em que merecem estar, as autoridades estão anunciando uma técnica revolucionária que irá protagonizar um crescimento universal infinitamente superior ao da Revolução Francesa: Privatizar o Inconsciente Coletivo.

O PT, é claro, já disse que é contra. O PSOL, por sua vez, é contra tudo o que o PT é contra e também é contra tudo o que o PT é a favor. O PSOL, aliás, deriva daquela antiga ala do PT que é contra tudo. O PMDB quer saber, antes de se posicionar, se a Diretoria da privatização será dele, os Democratas aguardam melhores esclarecimentos e o PSDB, bem, o PSDB assumiu uma posição enérgica e definitiva: não é a favor nem contra. Outros partidos ainda não definiram suas posições, a espera de quem der mais.

Colocada a questão política a priori, incumbe-me esclarecer os prós e contras para que vocês, meus queridos, tenham a perfeita noção, a maior transparência e todos os esclarecimentos que, numa questão assim transcendente, podem ser esclarecidas, guardando-se em segredo de justiça aquelas que não podem.

Para os Privatistas o inconsciente coletivo é uma reminiscência inaceitável do stalinismo totalitário, um passo atrás na evolução da economia, dos bancos, dos negócios internacionais e dos conchavos. Querem uma sociedade moderna, produtiva, com visão ampla de futuro, querem deixar para os nossos netos um mundo melhor, sem as mazelas contemporâneas, onde o Mercado reine em paz e o Consumo cresça e se reproduza.

Por sua vez os Coletivistas se opõem à idéia globalizante de um Estado mínimo, enfraquecido, sem poder, sem ingerência, privilegiando os ricos e poderosos em detrimento dos pobres e humildes que, no Estado máximo e abrangente, serão os privilegiados.

Do que se trata, afinal? Sobre o que estamos falando? O que é esse Inconsciente Coletivo cuja privatização é apontada como a salvação definitiva, a redenção final, o início da redenção e da prosperidade eterna?

Já explico.

Jung, o psicanalista que foi discípulo de Freud, amigo dele e depois inimigo mortal (coisa de vaidades), percebeu que as pessoas quando vêem uma cobra pela primeira vez, ficam com medo.

Raciocinou: “Por que as pessoas, todas as pessoas, sentem medo de cobra mesmo que nunca tenham visto uma antes, mesmo que nunca tenham ouvido falar de cobra?”. E concluiu: “Por causa do Inconsciente Coletivo, é óbvio. Cada um de nós carrega uma memória inconsciente herdada de nossos ancestrais que se manifesta automaticamente, sem carecer das memórias ou experiências individuais.”

E por aí se foi o Sr. Jung, identificando várias memórias ancestrais as quais denominou de arquétipos, tais como os mitos, os medos, as fantasias e o mais importante deles, a Mãe. Foi ele quem introduziu a palavra “complexo” no infinito universo da psicanálise, e também, quem dividiu a personalidade humana em duas: A introvertida (Sarney) e a extrovertida (Renan e Collor).

Freud, que já tinha decifrado o inconsciente individual que se forma a partir das experiências de cada indivíduo, não gostou mesmo da idéia de Jung, Carl Gustav Jung, embora os dois inconscientes não fossem antagônicos e poderiam co-existir pacificamente, não fora as diversas correntes.

Para os Privatistas a privatização do inconsciente coletivo não significa que as heranças ancestrais se tornem individuais como querem fazer crer os Coletivistas para quem a idéia da privatização implicaria em ganhos e lucros inconcebíveis e, além do mais, quem é que vai dizer qual parte do inconsciente coletivo caberá a cada indivíduo e, lidando-se com dinheiro público, quem garante a lisura das licitações e respectivos editais? Afirmam os Coletivistas que o Estado é o melhor administrador do inconsciente coletivo que, se privatizado, enriquecerá os empresários, aumentando o vácuo social no qual pequena parte do dinheiro das elites dominantes circula.

Os Privatistas sustentam que o Estado é péssimo gestor, com sua estrutura inchada e excessiva burocracia. Que o Inconsciente Coletivo estará em mãos muito melhores no setor privado, este sim com condições de implementar o choque de gestão imprescindível para que o Inconsciente Coletivo cumpra suas funções constitucionais à luz de um mundo moderno, de comunicações instantâneas e sem espaço para regimes autocráticos.

Na surda e dura luta que se trava entre as correntes, os Coletivistas afirmam que, se ousarem tentar privatizar o Inconsciente Coletivo, corre-se o risco da luta armada, as massas indo às armas e às ruas, e nas suas manifestações de protesto, passeatas e atos públicos, gritam suas palavras de ordem dentre as quais a que mais e ouve é: Privatização Não! Pela estatização do Inconsciente  Coletivo para torná-lo indivual!!

Al fin e al cabo o que se tem é um monumental confronto de correntes psíquicas, uma querendo privatizar o que é coletivo e outra querendo estatizar o que é privado.

Eu, que nada tenho com isso, acho que a idéia de privatizar o Inconsciente Coletivo teria um efeito muito bom, pois provavelmente eu perderia o medo de cobras. Mas talvez não perca e fico em dúvida: é justo que só alguns mais favorecidos usufruam do inconsciente de todos? Por outro lado é justo que todos, por mais desiguais que sejam, tenham o mesmo inconsciente?

Onde está a Justiça, nesta questão?

Sem falar nos ambientalistas que….

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