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17/11/2013 / Paulo Wainberg

Crônicas forçadas

09/04/2010

INJUSTIÇAS HISTÓRICAS

TV digital, celulares, conquista do espaço, forno de micro-ondas, computadores, Internet, saca-rolhas hidráulico, silicone, transplantes de órgãos, trem-bala, avião a jato, física quântica e tantas outras maravilhosas conquistas tecnológicas, produtos da pertinácia humana em busca de novos conhecimentos a melhorar a vida hodierna, mas hein?

Saúdo todas, inclusive as que não citei.

Parabéns.

O que não entendo é a razão pela qual a comunidade científica em geral e a Humanidade em particular, recusam-se a dar o verdadeiro valor e colocar no merecido pedestal, aquela que foi a segunda maior invenção do Homem, se considerar que a roda foi a primeira.

Ao contrário, noto certo desprezo, espécie de indiferença despeitada daqueles gênios da humanidade, ganhadores dos prêmios Nobel, pesquisadores do Universo e inventores dos nano robôs, quando o assunto vem à baila, quando a maravilhosa criação é invocada, mencionada e, até mesmo, usada, por eles mesmos e pela família.

Estou me referindo, vocês já devem ter percebido, à invenção que mudou os rumos dos passos do Homem, dando-lhes consistência, proteção e conforto nas mais difíceis jornadas:

O chinelo de dedo.

Se você pensar por trinta segundos em como seria sua vida sem o chinelo de dedo, verá que tenho razão.

Experimente:

Viu?

Sem o chinelo de dedo você iria para a piscina do clube com esposa e filhos, todos calçando tamancos.

A milenar cultura japonesa seria reduzida, não passaria de uma centenária cultura.

Gueixas seriam descobertas muito mais tarde. Samurais não teriam descanso para os pés, Banzai seria cumprimento, Tora Tora pedido de desculpas e sushi um pedido de licença para ir ao banheiro.

O primeiro que vi foi na década de cinquenta e achei que o meu amigo, que estava usando, tinha virado veado.

Duas tiras em forma de A sem tracinho ou, se preferir, em forma de V invertido, cujo vértice, preso à sola de borracha, é perfeito para o encaixe do dedão e do dedinho, definiram os caminhos da Humanidade que ousou enfrentar areias escaldantes, pedras pontiagudas e o piso gelado dos icebergs.

O chinelo de dedo foi crucial para o sucesso da Bossa Nova. Tom e Vinicius jamais teriam composto Garota de Ipanema se a menina passasse por eles com alpargatas ou chinelas comuns.

O doce balanço da musa a caminho do mar era ritmado pelo clept, clept do chinelo de dedo contra a sola do pezinho dela, mais exatamente no calcanharzinho dela, marcando a batida e o requebro do corpo dourado do sol de Ipanema, muito mais do que um poema.

Duas tiras presas numa plataforma de borracha e pronto: Nunca mais suor nos pés, nunca mais calos nos mindinhos, nunca mais unhas encravadas.

O calo saiu de moda, após o chinelo de dedo. Também desapareceram unhas compridas pretas de sujeira e pretume no garrão, como se diz aqui no Sul.

O chinelo de dedo contribuiu fortemente para a higiene nacional.

O sucesso foi tamanho que a incipiente indústria calçadista nacional explodiu, tornando-se uma das nossas principais fontes de divisas e, também, de falências, para gáudio de advogados especialistas.

Assim como a primitiva roda de pedra lascada evoluiu para os pneus radiais, o chinelo de dedo também alcançou estágios evolutivos espetaculares.

Surgiram os chinelos de dedo que não deixam cheiro, os chinelos de dedo cujas tiras não despregam, os chinelos de dedo de solados altos, intermediários e coloridos, os chinelos de dedo de salto alto, os chinelos de dedo com enfeites sugestivos e floreados marcantes.

Evoluiu o chinelo de dedo ao estágio superior no qual mudou de nome, transformou em rasteirinha, obra de arte dos mestres sapateiros, a enfeitar pés de donzelas da primeira a última idade.

Rasteirinha é o chinelo de dedo chique, que pode ser usado na festa e elogiado pelas comparsas. Além de substituir à perfeição os belíssimos sapatos de salto alto, para as danças das festas de casamento.

As mulheres de classe mais baixa continuam usando chinelos de dedos. As de classe média usam rasteirinhas coloridas. As de classe média alta usam rasteirinhas trançadas com fios douradas. E as ricas usam rasteirinhas com tiras cravejadas de brilhantes.

O chinelo de dedo, na sociedade moderna, passou a ser o indicador do status femininos, determinando quem deve e quem não deve ser mencionada na coluna social.

Os homens, não. Enfiam seus chinelos de dedo tradicionais, pretos, e vão fazer o churrasco no domingo. Depois, vão ao jogo.

Chinelo de dedo em homem é chinelo mesmo, para ir ao bar e para sair do banho. Homem que é homem usa chinelo de dedo na roça, pisa em bosta de cavalo e em mato com urtiga. E ainda tranca umas esporas nos calcâneos e doma a égua, mesmo a mais bragada e falseta.

Qualquer um pode usar chinelo de dedo, seja na sauna, seja na massagem erótica.

Lula e Mariza por acaso não usam lá os seus chinelinhos de dedo, enquanto namoram na sala?

Angelina Jolie de chinelo de dedo? Só de chinelo de dedo.

Meu chinelo de dedo tem dez anos e nunca me contestou.

Graças ao chinelo de dedo a indústria do marqueting floresce, a criatividade pululando nos pezinhos das modelos, atrizes e misses.

Graças ao chinelo de dedo quase ninguém mais escorrega e se escorrega, não cai.

E agora, neste exato momento, compreendo o motivo pelo qual ninguém atribui o devido valor científico do chinelo de dedo:

Assuntinho chato demais.

 

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