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14/11/2013 / Paulo Wainberg

Crônica dramatúrgica

CENA ÚNICA

HAROLDO: em torno dos quarenta anos, bem apessoado, dono de uma loja de móveis que herdou do pai, onde trabalha desde os 15 anos. Está entediado, olhando para a pilha de papéis (faturas, contas, pedidos, notas fiscais) que entope sua mesa no pequeno escritório no fundo da loja, sem luz externa. Na parede, atrás dele, uma foto antiga do pai e na do lado direito um relógio que prende a atenção de HAROLDO. Ele é o perfeito exemplo de quem não tem mais ‘joie de vivre’. Numa mesinha auxiliar, uma garrafa térmica com café e um aparelho ligado na tomada, que fornece água gelada. Com um suspiro ele pega, na gaveta, um pequeno gravador e diz:

 HAROLDO:  – Desde os quinze anos vendo móveis nesta loja. Atender o freguês, saber  o que ele quer, demonstrar o conforto das cadeiras e como a mesa é prática, elogiar a textura dos sofás e poltronas, ressaltar, demonstrando, que um sofá só é cômodo se o assento terminar exatamente na dobra dos seus joelhos. Negociar preço, aceitar agradecimentos e promessas não cumpridas de voltar amanhã.

Levanta e começa a dar voltas na escrivaninha, parando para tomar água num copo plástico.

HAROLDO:  –  Casei com vinte e cinco anos, aos vinte e oito já era pai e comerciante a pleno, lidando com fábricas, revendedores, representantes comerciais, bancos, contadores, o tempo foi passando e eu aqui, nesta saleta, dia após dias, até chegar aos quarenta. Quer saber de uma coisa? Não aguento mais!

Entra o vendedor:

 VENDEDOR: – Seu Haroldo, quanto posso dar de desconto para o conjunto A723, para pagamento à vista? Já cheguei ao nosso limite, mas o cliente insiste, se eu não baixar o preço ele vai comprar em outro lugar.

HAROLDO: – Dá mais  por cento e se ele não quiser, pode ir pra puta que o pariu!

 O vendedor sai e fecha a porta. HAROLDO está em pé, de costas para a platéia, olhando a fotografia do pai, descolorida e empoeirada.

 HAROLDO: – Não sei há quanto tempo não tiram o pó dessa merda! (Caminha pela peça e guarda o gravador na gaveta. Pára diante do relógio) Nada acontece, nesta minha vida de merda. E se eu ligar para a Lucinda? Bem que ela anda me dando uns olhares mais longos… Mas e aí, ligo pra ela e digo o que? Convido pra ir a um motel? Imagina a crise, o escândalo, ela conta ao Roberto e para a Clarinha que dei em cima dela… Mas eu posso fazer diferente, o que é que eu poderia querer com ela, no meio da tarde? Alguma coisa assim, que não desse muito na vista, quem sabe invento que estou com um problema com a Clarinha e convido ela para um café, para pedir uns conselhos…. Não, não, isso é loucura! Vai dar a maior confusão.

Pega o telefone e discou para casa. Clarinha, sua esposa atende e ele, disfarçando a voz:

 HAROLDO – Quem fala?

CLARINHA – Com quem deseja falar?

HAROLDO – Aí é a casa do Haroldo? E você é Clarinha, a esposa dele?

CLARINHA – Sim… mas quem está falando… sua voz não é estranha…

HAROLDO– Ele, é claro, nunca falou de mim, para você.

CLARINHA – Mas eu…

HAROLDO – Provavelmente você nem sabe que eu existo – e desligou.

Sorri ao imaginar a cara de espanto de Clarinha, deixa passar a tarde e, na hora de sempre vai para casa. Clarinha não menciona o episódio.

Dia seguinte, mesmo tédio, mesmo fastio, mesma hora, HAROLDO liga para casa. Clarinha atendeu:

CLARINHA – Alô?

HAROLDO – É da casa do Haroldo? É você, Clarinha?

CLARINHA – Sim, sou eu. E você, quem é?

HAROLDO – Típico do Haroldo, ocultar a existência de seu irmão gêmeo. Também… a ovelha negra da família.

CLARINHA – Como é que é? Você é…

HAROLDO – Sim, Clarinha, sou o irmão gêmeo do Haroldo. Meu nome é Ovídio e há muitos anos saí da cidade. Andei pelo mundo inteiro.

CLARINHA – Mas como você me conhece?

HAROLDO – Eu estive no casamento de vocês. Disfarçado, é claro. Naquele tempo a Interpol me procurava…

CLARINHA – Ah, tá bom Haroldo, é você, reconheci tua voz! Não tem mais nada pra fazer?

HAROLDO – Não sou Haroldo, Clarinha. Acredite. Não sou o Haroldo, sou Ovídio, irmão gêmeo dele que, desde os quinze anos, a família ocultou.

CLARINHA – E o que você quer agora? Aparece assim… Já falou com ele?

HAROLDO – Não. Ainda não. Pretendo ir na loja, qualquer dia. Ele continua lá, vendendo os mesmos móveis que papai vendia antes?

CLARINHA – Ouça, Ovídio, ou seja lá quem for, nós somos gente de bem, por favor não venha estragar nossa família.

HAROLDO – Lamento, Clarinha, mas vou estragar, sim. Quero você! Quero você desde o dia em que você casou com Haroldo. Depois de todos estes anos, minha paixão não esmoreceu e ontem, quando vi você, percebi que está mais linda do que nunca.

CLARINHA – Você me viu ontem? Onde? Como?

HAROLDO – Não se preocupe, Clarinha. Não estou seguindo você, mas queria vê-la novamente. Que linda mulher você se tornou. Aposto que o Haroldo nem nota a maravilha que ele tem em casa.

CLARINHA – Você está me encabulando, Ovídio.

Haroldo desligou o telefone, pensativo. Clarinha, diante do elogio, abriu as possibilidades ao chamá-lo de Ovídio.

Ovídio, pensou, onde fora arrumar aquele nome? Caso tivesse um irmão, gêmeo ou não, seus pais jamais dariam aquele nome.

Divertiu-se com a situação. Há muito não se sentia estimulado. Mal pode aguentar até chegar a hora de ir para casa e observar a reação de Clarinha.

Dia após dai, sempre no mesmo horário, Haroldo ligava para Clarinha. Ela, enlouquecida com a situação, insistia para encontrar ‘Ovídio’, mas ele sempre tinha uma desculpa, uma viagem de última hora para Bermudas, em busca de um documento secreto, ficar escondido em Amsterdã até “passar o impacto”. Contava histórias mirabolantes e não cansava de elogiar Clarinha, a beleza e a inteligência dela, criticando sistematicamente ‘o irmão’ pela vidinha sem graça que escolhera e obrigara Clarinha a viver.

OVÍDIO – Você foi feita para as grandes aventuras, meu amor, você devia estar mergulhando nas águas transparentes do Grande Lago Dourado do Kazaquistão, em busca das famosas floreáceas azulis que valem fortunas no mercado negro de Istambul.

Clarinha suspirava, sua vida se transformou numa espera pelo telefonema de Ovídio enquanto, ao mesmo tempo, nutria enorme desprezo por Haroldo.

Este, por sua vez, embalado pelas histórias que inventava, sentia-se cada vez mais apaixonado por Clarinha e todos os dias, quando voltava para casa, alimentava a esperança de que ela falasse no assunto, o que nunca aconteceu.

Quanto tentava alguma investida, no leito conjugal, era brutalmente afastado e ouvia o resmungo de Clarinha:

– Chato, sem graça, o que foi que eu fiz para casar com tanta mediocridade.

Amuado, ele adormecia. Aos poucos, um insidioso sentimento tomou conta dele: ciúmes de Ovídio.

“Devo estar louco”, pensava, “Eu sou Ovídio, não posso estar com ciúmes de mim mesmo”.

Mas, a cada vez que Clarinha implorava por um encontro, ele se remoia, se retorcia, uma raiva surda a consumi-lo. 

Até que, durante um jantar, em que Clarinha estava particularmente irritada, ele não aguentou mais:

 HAROLDO – Quer dizer então que você anda falando com Ovídio.

Clarinha sentiu o coração disparar.

 CLARINHA – Quem?

HAROLDO – Ovídio, meu bem, você sabe muito bem de quem estou falando.

CLARINHA (explodindo) – POIS fique sabendo que é verdade. Seu irmão gêmeo, o Ovídio, aquilo sim é que é homem de verdade. Perto dele você não passa de um pobre coitado, sentado o dia inteiro naquela loja empoeirada, vendendo cadeiras para velhotas! Ah, que tristeza! Por que não conheci Ovídio primeiro?

HAROLDO – Por uma razão muito simples, querida. Ovídio não existe.

CLARINHA –  Como é que é? Como assim, não existe? Ele me liga todos os dias, na mesma hora e…

HAROLDO – Sou eu que ligo, Clarinha. Comecei como uma brincadeira e fui levando, para ver até onde ia. E você passou dos limites!!

Clarinha estava pálida:

CLARINHA – Então era você… bem que eu reconhecia a voz, mas achava que era por serem gêmeos. Ovídio não existe mesmo, não é?

Os olhos de Haroldo fumegavam:

HAROLDO – Não sua puta! Sua vagabunda! Não existe! Mas se existisse você estava prontinha para dar para ele, ordinária!

CLARINHA – E estava mesmo, cretino! Você acha que eu gosto desta vida, todos os dias a mesma coisa, as mesmas pessoas, as mesmas tarefas.

HAROLDO – E você acha que eu gosto da minha vidinha de vendedor de móveis? Eu quero a vida de Ovídio, aquilo sim é que é viver, o tempo todo enfrentando o perigo, viajando pelo mundo, parando nos melhores hotéis, frequentando os Cassinos, mulheres deslumbrantes a minha volta…

CLARINHA – É… ia ser uma vida bem diferente, né? Você me contou tantas histórias, disse tantas coisas a meu respeito… Você acha mesmo que eu deveria estar mergulhando no Grande Lago Dourado do Kasaquistão?

Haroldo olhou para ela. Sim. Ele achava. Clarinha estaria deslumbrante, de biquini, nas águas tépidas e transparentes…

 HAROLDO – Se fosse com Ovídio você largava tudo e ia, não é? Vagabunda!

CLARINHA – Largava, sim! Largava tudo para me jogar nos braços daquele homem! E nunca mais ia olhar para tua cara, seu chato medíocre!

HAROLDO – Puta!

CLARINHA – Imbecil!

Ouve-se o som da campainha da porta da frente.

 HAROLDO – Só que me falta, uma vista agora!

CLARINHA – Melhor do que ficar contigo na frente da TV.

Entra a empregada.

 EMPREGADA – Dona Clarinha, tem um senhor lá fora procurando pela senhora. Ele disse que o nome dele é Ovídio, irmão gêmeo do ‘seu’ Haroldo, e que a senhora sabe do que se trata.

PANO SUPERSÔNICO

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