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10/11/2013 / Paulo Wainberg

Amor perfeito

Crônicas Profiláticas – 17/07/2008

AMOR PERFEITO

Uma versão:

Narciso era tão belo que se achava um Apolo ou Dionísio. Julgava-se um deus. E como tal desprezava o constante assédio masculino a que era submetido, manifestando tal desprezo sem dó nem piedade.

Amantis, jovem efebo perdido de paixão, tanto incomodou que, para ver-se livre dele Narciso ofereceu-lhe a espada como presente.

Amantis postou-se à porta da casa de Narciso e orou à deusa Nêmesis para que fizesse Narciso conhecer a dor de uma paixão não correspondida. Em seguida, com a espada que ganhara de presente, suicidou-se de amor.

Poucos dias depois Narciso apaixona-se perdidamente por um belo rapaz, sem perceber que se tratava de sua própria imagem refletida na água. Todas as suas tentativas de conquistá-lo fracassaram e termina por matar-se com a própria espada, repetindo assim o incontido desespero de Amantis.

 

Outra:

Narciso, filho do deus-rio Cefiso com a ninfa Liríope, recebeu do adivinho Tirésias o vaticínio de uma longa vida, desde que jamais olhasse para sua própria imagem. Certo dia, às margens do lago Eco, inadvertidamente Narciso observou-se refletido nas águas cristalinas. Tomou-se de paixão por si mesmo e, desesperado, definhou até à morte.

 

Mas uma:

Ovídio, poeta latino que influenciou de Shakespeare à Keats, em sua obra Metamorfoses nos dá a versão poética e dramática da lenda de Narciso: A ninfa Eco, seduzida pela beleza sobrenatural de Narciso e por ele desprezada, definha e morre, exalando um débil gemido final. A deusa Nêmesis, indignada com a insensibilidade do jovem, sua arrogância e inútil altaneirice, condena o rapaz a apaixonar-se pela própria imagem, no Lago Eco. Soterrado por tamanho amor impossível, Narciso deita-se à beira do lago e, enquanto se embeleza, definha e definha. As ninfas do lago constroem uma pira e, quando vão buscar o corpo encontram em seu lugar apenas uma flor: O narciso.

Existem outras versões, mas em todas elas prevalece a idéia central: a vaidade exacerbada e o amor exagerado por si próprio.

Entre as superstições gregas da antiguidade, uma das mais poderosas era a de que olhar para si mesmo dava azar. Possivelmente dessa ridícula idéia tenha surgido a lenda de Narciso.

E, com toda certeza, é por isso que o Conde Drácula não se reflete no espelho. E nenhum outro vampiro conhecido e que seja digno desse nome.

Agora o mais impressionante: sabe qual é a palavra que deriva de Narciso? Não? Então se prepare, aí vai:

Narcótico.

Exatamente, narcótico deriva de Narciso. O entorpecimento e a insensibilidade derivam de Narciso. A maconha, cocaína, crack, heroína, ópio, marijuana, anestesia local, anestesia geral, tudo isso deriva de Narciso.

Às vezes eu penso cada coisa! Por exemplo: o que seria de Freud sem a mitologia grega? Pois não é que o homem foi lá na antiguidade para diagnosticar em seus estudos sobre a histeria o “amor pelo semelhante” como explicação paras as inclinações homossexuais, na época tidas como patológicas.

Mas adiante Freud concebe o denominado erotismo anárquico, a fase infantil primitiva em que as zonas erógenas se satisfazem independentemente umas das outras como, por exemplo, a criança chupar o dedo. Mais adiante, com o crescimento, há uma organização erótica, chamada de erotismo lógico em que o prazer é coordenado e usufruído pelo conjunto erógeno do indivíduo.

A fase patológica do narcisismo freudiano corresponde ao desejo de retornar ao estado de ideal de ser o único amado, incondicional e constantemente, com obliteração absoluta, na mente, das relações parentais explícitas.

Mais ou menos isso.

Voltando ao assunto… Qual era mesmo? Ah, sim, os narcóticos.

O consumidor de drogas não busca exatamente isso, o entorpecimento de sua capacidade lógica de raciocínio para abandonar-se totalmente às emoções primitivas, irresponsáveis e inconseqüentes?

Em outras palavras, sob o efeito da droga o indivíduo pode sentir-se em estado ideal de perfeição e paz, amando-se a si mesmo mais do que a qualquer coisa, indiferente ao amor alheio, um soberano e lindo deus que de nada precisa além do próprio amor ao amor-próprio.

Paz absoluta, o retorno ao estado primitivo ideal, uterino, autojustificável, liberdade irrestrita para nada fazer nem ter que fazer.

Insensível ao seu redor, o drogado despreza os que por ele são, simbolicamente falando, apaixonados: pais, irmãos, amigos, filhos, família. Para não ser incomodado nem retirado de sua magnífica auto-suficiência livra-se dos chatos assediadores escondendo-se ou brindando-os com pequenas doses de lucidez aparente e promessas falsas, insensível a que eles se matem e definhem, também simbolicamente falando.

O castigo para o drogado é semelhante à metáfora de Narciso: definhar, sucumbir, desaparecer, não às margens de um lindo e cristalino lago, mas nas águas sujas e fétidas das sarjetas, seus restos apodrecendo em túmulos sobre os quais serão depositadas flores, possivelmente alguns narcisos por algum tempo e, pouco tempo depois, nenhuma flor.

O drogado não é drogado por escolha, assim como Narciso não escolheu ser Narciso.

É preciso compreendê-lo. Entender os vieses psíquicos de sua mente. As carências químicas de seu organismo, seus mecanismos de defesa fragilizados e entender que não é menos do que outros, inferior a ninguém, apenas diferente, é isso, diferente.

Todos cultivamos um Narciso em nós. Saber disto talvez seja o primeiro passo para olhar para os outros, olhar para fora de si mesmo e aceitar o amor alheio.

Por que estou falando disso? Não sei, hoje acordei assim.

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