Skip to content
07/11/2013 / Paulo Wainberg

Ato três cena dois (Paródia)

ATO TRÊS CENA DOIS (Paródia)

HAMLÉTICO: – Ter ou não ter… eis a questão. O que fazer, minh’alma para satisfazer tamanha ambição? Amealhar moedas e arriscar tudo perder por causa da inflação ou erro na aplicação ou, ai que tremo, por causa do ladrão? Ou aderir, incorporar, enturmar no Primeiro Escalão, gozando as benesses do Poder e ficar rico, sem temor de investir no Exterior até mais não poder, graças à corrupção?

– Morrer… Dormir… Sonhar talvez? Justo eu que, como um sonho da Renascença e produto do Humanismo ideal, a mercê de feroz batalha financeira e joguete do capitalismo internacional, mereço viver tal problema? Encarar e padecer diante de tão cruel dilema?

– É aí que a porca torce o rabo. Como fazer e onde buscar alma forte para suportar os juros bancários, a fúria dos empresários e, o que é pior, eis que os deuses já não aceitam pouca oferenda, conseguir notas frias e outros que tais para sonegar o Imposto de Renda?

– Quem há de tolerar o desprezo e escárnio dos fortes, as injustiças da sorte, o deboche dos políticos e sua zombaria obscena se tão poucos sãos patrícios ou abençoados pela loteria e mega-sena?

– Ah meu pai! Terias coragem de colocar em minha boca indagações ontológicas neste mundo de hoje, em que a questão de fundo, imoral e escatológica, é, primeiro ter e depois, se possível, ser?

– Sonhar… Morrer… Não enfeitar o corpo com anéis e pulseiras argentinas, esquecer os casacos de couro, a cotação do ouro e os drinques, à beira das piscinas? E despertar desse sono mortal – se é que despertar, em tal circunstância, é vital – tendo pela frente a luta pela sobrevivência ou para eliminar a concorrência e evitar a falência?

– Ora senhor desta arte literária, espelho de uma paródia, ter ou não ter, ser ou não ser, entra ano e sai ano e eu aqui, frustrado e sem abandonar o natural fervor de minha resolução: ganhar um milhão, em dinheiro americano. E fui buscar inspiração num poeta parnasiano cuja glória secular – para gáudio das estrelas com quem costumava falar – foi tornar obrigatório o Serviço Militar! Mas… silêncio…. aí vem Ofélica

(Para Ofélica)

HAMLÉTICO – Em tuas orações, ninfa, recorda-te das minhas ambições.

OFÉLICA: – Quanto tens ganhando, no correr dos dias?

HAMLÉTICO: – Muitíssimo pouco, obrigado.

OFÉLICA: – Venho até aqui para agradecer-te o mimo.

HAMLÉTICO: Que mimo? Nunca te dei nada. Eu não! Eu não!

OFÉLICA: – Bem sabes que deste. Embora a qualidade deixe dúvidas não esqueço a gentileza.

HAMLÉTICO: – Repito. Nada te dei!

OFÉLICA: – Nobre príncipe, herdeiro da realeza, sabes muito bem que só abro a boca quando tenho certeza.

HAMLÉTICO: – Então cala-te, mulher! Não me vez aqui, meditabundo, procurando um jeito de cobrir este cheque sem fundo?

OFÉLICA, falando de lado: – Os mimos se empobrecem, para uma alma bem nascida…

HAMLÉTICO: – Arrá! És rica?

OFÉLICA: – Como assim?

HAMLÉTICO: – És herdeira?

OFÉLICA: – Não compreendo, meu senhor.

HAMLÉTICO: Bela Ofélica, se unires os dotes da riqueza própria com o substancial legado de teus pais, estarei sempre ao teu lado, não te deixarei jamais. Tomo-te por esposa!

OFÉLICA: – Oh!!!

HAMLÉTICO: – Caso contrário despacha-te que tenho de pensar em outra coisa. Faz melhor, entra para um convento.

OFÉLICA: – Convento?

HAMLÉTICO – Sim, convento. Lá poderás fugir das prestações atrasadas, dos juros do cheque especial acumulados e, o que é melhor para tua sina, do aumento do preço da gasolina. Adeus.

(HAMLÉTICO SAI)

OFÉLICA : – Poderes celestiais devolvei-lhe a razão! Quanta inteligência posta fora! Para que servem ideais tão nobres em pessoas tão pobres. Não muito e, de Hamlético, príncipe tão nobre, se lhe desgarrarão a decência e a bondade e estará, como um sabujo, à porta dos políticos, assessores e secretários, lambendo-lhes a mão e mendigando cargos e funções banais com ótima remuneração e excelentes repercussões sociais. De quais trevas obscuras terá vindo a assombração que de sua alma tomou posse? E que o transformou, de forma tão precoce, em arraigado sovina? Para tal doença haverá cura na medicina?

(ENTRA O REI)

O REI: – Tarde demais, doce Ofélica. Mas digo-te, com alma leve e sem rancor que Hamlético, por influências laterais e sem qualquer favor, haverá de ser um dia o chefe de gabinete de algum Governador. E quem sabe, se assim eu desejar, graças ao bolsa-família e ao meu terceiro mandato, ele venha a ser, por força da própria instituição, um candidato, quando houver eleição.

OFÉLICA: – Oh mai lorde, será Hamlético apenas mais um caso de cão que late e não morde?

O REI:- Igualzinho à minha querida oposição, menas mal, dietética leide, menas mal. E, como sempre, eu de nada sabia.

HAMLÉTICO (de longe): … do que sabe a nossa vã filosofia.

CAI O PANO

(Publicada em 1982 no livro O Homem de Papel, com pequenas atualizações pertinentes).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: