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02/11/2013 / Paulo Wainberg

Gauchos e brasileiros

GAUCHOS E BRASILEIROS

18/09/2009

Vinte de setembro é o feriado nacional dos gaúchos. Comemoramos a Revolução Farroupilha que durou dez anos, de 1835 a 1845.

Foi nesse dia que o General Bento Gonçalves e suas tropas tomaram a cidade de Porto Alegre, destituindo o Governador da Província que representava o Império brasileiro.

Tudo começou quando, na zona Sul do Estado, em Pelotas mais precisamente, desenvolveram a técnica do charque, que permitia o transporte de carne, nas condições terríveis das estradas e dos transportes de então, sem que ela apodrecesse.

Antes da Charqueada só era possível o transporte de vacas e bois e ovelhas vivos, o que transformava a viagem num verdadeiro horror.

Logo o Império botou seus olhos gananciosos sobre a Charqueada e tratou de sobretaxar o charque e, de quebra, a banha, o arroz e tudo o mais que se produzisse na Zona Sul, o que causou intransponível revolta dos grandes latifundiários de então.

Expressão fardada dos interesses econômico-financeiros abalados, agregaram, os revoltosos, o espírito republicano ao seu movimento e deram vazão aos desejos separatistas que moviam grande parte de seus seguidores.

No dia Vinte de Setembro de 1835, sob o comando do General Bento Gonçalves, deu-se a tomada de Porto Alegre e o início da Revolução que, em pouco tempo ficou conhecida como ‘dos farrapos’, eis que seus exércitos eram constituídos, mesmo, de farrapos.

Em pouco tempo Porto Alegre repeliu os invasores que, por mais que tentassem, nunca mais conseguiram recuperar a cidade, o que valeu o título imperial de “Mui leal e valerosa cidade de Porto Alegre”.

Vendo que o movimento perdia a força, coube ao General Neto, rico fazendeiro e grande combatente, promulgar a República de Piratini, assim chamada porque o ato foi praticado na cidade de Piratini, então em poder dos rebeldes e primeira sede do governo republicano.

Bento Gonçalves foi nomeado presidente da nova república e compôs seu ministério. E passaram anos achando que governavam o novo país, mesmo que a República do Piratini tivesse uma sede errante e itinerante, mudando de local na mesma proporção em que os revolucionários eram desalojados das posições que ocupavam.

A Revolução Farroupilha foi fratricida, sangrenta, inconstitucional, provocou um inominável massacre de escravos e terminou em fragorosa derrota, quando os revolucionários foram obrigados a aderir ao Pacto do Poncho Verde, com rendição incondicional e completa submissão ao poder do Império, que pouco cumpriu das cláusulas ajustadas.

Mais de cem anos após, dois notáveis gaúchos, Barbosa Lessa e Paixão Cortes, profundos estudiosos dos hábitos e costumes dos gaúchos, deram início ao hoje difundido movimento tradicionalista gaúcho, representado pelos Centros de Tradições Gaúchas, os CTGs.

Graças a eles divinizou-se o dia 20 de setembro que, anos após, por lei estadual, tornou-se feriado no o Estado.

Há alguns anos, durante o mês de setembro, monta-se um “acampamento farroupilha’ no Parque Mauricio Sirotsky Sobrinho, um dos mais bonitos na cidade, a celebrar o Vinte de Setembro e os ideais farroupilhas.

Armam-se barracas rudimentares, piquetes (o que será um piquete?), os gaudérios mudam para lá com seus cavalos, bombachas, botas, camisa quadriculada, chapéu e, é claro, o lenço vermelho no pescoço, além da guaiaca, relho e outros apetrechos, e passam os dias proseando, comendo carreteiro de charque, churrasco e bebendo chimarrão, caminhando pelo bom e velho barro que chuvas ininterruptas produzem.

A Prefeitura já propôs pavimentar a área, mas a gauchada não aceita de modo algum, está fora da tradição, gaucho que é gaucho tem mesmo é que enfiar a bota e o pé no barro.

Boa parte da população ali instalada substitui o chimarrão pela cachaça, o que inevitavelmente provoca muitas brigas e algumas mortes.

Dezenas de shows de música nativista, dança, teatro, trovas, torneios, inclusive com os cavalos, fazem a alegria desses milhares de pessoas, homens, mulheres e crianças a brincar de ser gaucho.

O que os tradicionalistas enfatizam, sempre que podem, é que, em primeiro lugar, são brasileiros, depois gaúchos.

Porque, como é óbvio, antes do Vinte de Setembro, temos o Sete de setembro, data da nossa independência. Porém, longe, mas muito longe de ser comemorada com a mesma intensidade, alegria e ufanismo.

A questão é: Por que comemoramos o Vinte de Setembro, o início de uma guerra terrível que nenhum benefício trouxe ao Estado, ao País e ao povo brasileiro?

Não conheço – posso estar enganado – nenhum lugar no mundo onde se comemore a guerra, mesmo a mais libertária.

É costume comemorarmos a paz, honestamente. E a vitória. No dia da paz, espocam fogos de artifícios, o povo desfila, dança, brinca e é feliz.

Por aqui, comemoramos a guerra e a derrota!

Ouso afirmar que não foi na Revolução Farroupilha que se forjou a alma do gaucho nem naquele período, a tradição floresceu.

Acontece que, Barbosa Lessa e Paixão Cortes, a partir de 1947, para estimular o sentimento gaucho e instituir o culto às tradições, até então quase desconhecidas, não podiam celebrar a paz, porque as comemorações, neste caso, teriam que ser no dia 1 de março, data da assinatura do tratado do Poncho Verde, o dia da derrota!

Aliás, não foi tratado, foi acordo, pacto e rendição. Os revolucionários bem que insistiram num tratado. Mas o Império recusou. Tratados são celebrados entre países e a República do Piratini jamais foi reconhecida como um país, pelo governo central.

A rendição foi assinada por David Canabarro, então presidente da República do Piratini, e pelo Barão de Caxias (depois Duque), representante do Império.

O documento jamais fala em “república” e, o máximo que concede, é chamar os insurgentes de “republicanos”.

Entretanto, a sede do governo do Estado chama-se Palácio Piratini. O hino Riograndense tem uma frase que diz: “Foi o Vinte de Setembro, o precursor da liberdade”.

Por que Palácio do Piratini? E de qual liberdade foi o Vinte de Setembro precursor?

Acho que, uma coisa é ter orgulho de sua história e cultuar as tradições.

Outra é, com total desonestidade intelectual, mitificar, iludir e atribuir a um erro histórico, sanguinário e cruel, a grandeza reveladora de um grande povo.

Nos CTGs não se toca nem se dança o samba. Aliás, nem mesmo as músicas mais tradicionais são permitidas, se o ritmo não for aquele, instituído como o tradicional. Não se aceitam instrumentos modernos!

Nos CTGs tem que ser como era, ou como se pensa que era. Não pode mudar uma palha.

A pilcha, traje completo de gaúcho, é oficial e de gala, por força de lei estadual. De terno e gravata você nem entra em fandango ou baile de CTG.

Entretanto, temos maravilhas culturais. A poesia gauchesca é notável, o mesmo ocorrendo com a música. Nossos grandes declamadores, ou ‘pajeadores’, transbordam de emoção e nos deixam embevecidos.

Para quem não conhece, recomendo a música “Guri”, interpretada por Mario Passarinho. E ouça um CD com os poemas declamados por Jayme Caetano Braum. Ou, mais ainda e maior, Desgarrados, letra de Sérgio Napp e música de Mário Barbará.

Quem, como eu, já entrou de madrugada, num frio de rachar e o Minuano soprando, num barracão no meio do campo, sabe do que vou falar.

Fomos recebidos, eu então jornalista em viagem pelo Estado com a Secretaria de Turismo, por quatro peões que, para quem não sabe, são os gaúchos mais simples, humildes e ignorantes. Eles trabalham conduzindo o gado e dele cuidando, esses sim, gaúchos a cavalo troteando pelo pampa.

Não nos esperavam e foram acordados.

Em poucos minutos, na fogueira de chão, o espeto de costela foi posto a assar, enquanto a conversa fluía, simples, uma acolhida tipicamente gaúcha, hospitaleira e pura.

Então um deles pega a gaita, um acordeão de oito baixos e começa a cantar. E daquela boca rude e mal tratada, saíram versos belíssimos, verdadeiras odes, que ele, na hora, compunha. Mais tarde, outro declamou.

Eu me vi participante da verdadeira cultura regional, muitas vezes ingênua, mas emocionada e linda como poucas.

Nenhuma produção, nenhum adereço supérfluo, nenhuma regra de comportamento a ditar o que pode ou não pode.

Gaúchos como eles são, os peões ou tropeiros, transmitindo boca a boca, tradição, alegria de viver e cordialidade.

A costela, assada no fogo de chão, saiu perfeita, a carne desgrudando do osso, um sabor especial de coisa pura, não contaminada por especiarias da cidade.

Comemos e ficamos, até o amanhecer, quando eles saíram para o campo, para os seus afazeres.

E nós seguimos viagem.

Há, pois uma alma gaucha, um modo de ser gaucho, típico e próprio, que nada tem a ver com a cidade onde é representado, de modo estilizado, repetido, com jeito de Xerox, na maioria dos CTGs que visitei.

Representa muito mais o espírito brasileiro do gaucho, sua verdadeira índole, brasilidade e integridade, o momento notável da Guerra Cisplatina.

Aí sim, em 1826, o Rio Grande Sul, representando o Império e o País, enfrentou a Argentina e seus correntinos, que pretendiam adicionar a Província de Sacramento ou Cisplatina – hoje Uruguai – e a Província de São Pedro, hoje Rio Grande do Sul, ao seu território.

Naquele momento, não fora a fibra gaúcha e o desejo de permanecermos brasileiros, poderíamos hoje estar falando espanhol e achando que Maradona foi melhor do que Pelé.

Entretanto, nossos tradicionalistas não celebram essa data, não lhe dão o valor histórico devido e usam o episódio quase como desculpa: o Rio Grande do Sul lutou para ser brasileiro.

Como se isso justificasse o ideal separatista dos Farrapos, até hoje sonhado e idealizado por muitos, alguns de péssima origem, como um admirador de Hitler que ‘criou’ a República do Pampa, cuja bandeira seria a mesma do III Reich.

Se você for contra o que estou dizendo, faço um convite: pegue sua mala de garupa, sua bomba e sua cuia, encilhe o pingo e aprochegue-se ao acampamento farroupilha. Instale a tralha num piquete, acenda um palheiro, faça cosquinha no seu cusco e durma de bota, bombacha e chapéu, num pelego sobre a lama.

Pela manhã tome um mate bem quente e, para não esquecer onde está, cumprimente seu vizinho:

– Oigalê, tchê!

– Buenas vivente! E essa chuva que não para, tchê?

– Tá mais braba que vaca em atoleiro, tchê!

– Pior, índio véio, já tá transbordando a sanga!

– Ala putcha, tchê!

Siga o dia, comendo carne com aipim, bebendo mate e cachaça e não se esquive do estrume nem do esterco. Cuide-se dos mosqueiros e não esqueça a faca na bota, caso algum gaiato arraste a asa para sua china.

Bom proveito, tchê.

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