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30/10/2013 / Paulo Wainberg

Torneiras do temp

TORNEIRAS DO TEMPO

06/03/2009

Chove a cântaros.

Podia dizer que chove a cânforas, brincando com palavras, como gosto de fazer.

Mas não é dia para isso, não é dia para brincadeiras.

Um dia cinza, prateando o rio, os prédios e as ruas, é para refletir, para se ensimesmar e, com o coração pulsando, lamentar não ter sorrisos grátis, amores enraizados e guarda-chuvas à mão.

Dia de ficar na cama ouvindo gotas.

Dia de transgredir, pegar um carro e comer sonhos açucarados além, acolá, sozinho, pensando nisso ou naquilo, sonhando com tal e qual, abusando da fantasia e sem se comprometer.

Dia de pensar naquele momento, o melhor de sua vida, quando o impossível aconteceu e você mal pode acreditar.

Dia de pensar em perdas, todas as perdas que se perdeu por falta de coragem, por medo dos ganhos, por culpa de existir.

Dia de ficar na cama ouvindo gotas no telhado.

De imaginar como poderia ter sido, se você resolvesse fazer isso ou aquilo. De puxar a coberta, encolher as pernas contra a barriga e abraçar um travesseiro com força em busca de um sono que nunca vem, de um sonho que não vai acontecer.

Chove a cântaros e as lágrimas do céu molham os cabelos, as roupas e os sapatos enquanto seu guarda-chuvas procura um guarda-chuvas para tocar, misturar e abraçar e tudo o que você faz é desviar, temendo um encontro fatal.

Chuva no outono perfuma o ar e faz bem à solidão, que é quando a solidão fala mais alto, muito mais alto, tão alto que nenhuma canção acompanha, que nenhum poema diz “Presente!”, que nenhum seriado na TV faz sorrir.

Chuva de sentar num banco de praça onde pombas molhadas e pardais encharcados esganiçam na mesma balada dos seus soluços úmidos de gotas celestiais a adoçar lágrimas vãs.

Cinza-prata evocando a poesia, um momento de tristeza, a galhardia posta de lado, a bravata infantil, o texto pueril, amores pra lá de Istambul, paixões renegadas e encontros furtivos nos desvãos da madrugada.

Mulheres bêbadas tropeçam em saltos altos, malandros bexiguentos avaliam seus otários, bares com gosto de cigarro enchem, mocotós do dia são servidos e, entre o frio e o calor, um mendigo cambaleia.

A adolescente examina os seios púberes diante do espelho, esfrega as coxas roliças nas mãos entre elas, mal sabendo que alhures um homem a imagina, nua e prendada, e um garoto ousado sua o suor dos condenados, esbugalhando os olhos em vãos de cortinas ao vento.

Chove a cântaros, sim senhor, alagando lagos, mangues e avenidas, entupindo automóveis, encharcando futuros passageiros nas paradas do ônibus atrasado, um cavalheiro, gentil, oferece à jovem, de branco transparente, carona para casa, com uma parada, seja boazinha, no motel.

Almas sensíveis ficam sensíveis em dias de chuva, dizem.

Não creio.

Dias assim, quando chove a cântaros, são as almas empedernidas que ficam sensíveis, que olham para a janela e amolecem. As almas duras, quando cai a chuva, sentem bondade, arrependimento e perdão. E, com o coração partido, demitem, esmagam, mentem e oram por um raio de sol a tirar-lhes a fraqueza de ocasião.

Almas sensíveis não carecem de chuva, nuvens e dias cinzentos.

Almas sensíveis são.

Chove a cântaros neste dia de outono, nem frio nem quente, deslumbrante, gigantesco, massa de ar polar que vem do Sul, instabilidade no Oceano batendo de frente com massa de ar quente que paira sobre o Hemisfério, desnudando parábolas, metáforas e, por que não? Eufemismos

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