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25/10/2013 / Paulo Wainberg

Querem pelar a nudez?

 

 15/10/2008

 

Entendi bem? O ator Pedro Cardoso quer acabar com o nu no cinema, teatro e TV?

Para que fique bem claro, adoro o ator Pedro Cardoso. Acho que ele tem um talento raro, uma qualidade cômica versátil capaz de fazer rir tanto na comédia escrachada quanto na mais sutil.

Mas tem que internar o cara, por favor!

O corpo humano, oculto por roupas, não é um imperativo religioso, que me perdoem os fiéis. Muito pelo contrário, salvo o circunstancial obscurantismo vitoriano, imposto ao mundo no século XIX, mercê da influência da Igreja Católica, a roupa é elemento indispensável ao estímulo erótico, à fantasia sexual e à sensualidade sem a qual não existiria a dança, o teatro, a paquera e o bar.

Os humanos são estimulados pelos sentidos, isto é uma verdade, pelos cinco, quer dizer olhar a garota dançando e imaginá-la tirando a roupa ou olhar quando ela tira a roupa e apreciar cada pedacinho do corpo que vai surgindo aos poucos é de uma grandeza erótica incrível. E vice-versa, imagino eu. Toque de mão é outra loucura. Os cheiros, my God, são de arrepiar (neste ponto somos como os animais: o famoso feromônio), sentir o salgado da pele na língua, ouvir o murmúrio ou o gemido, pronunciar palavras excitantes, aqui Del Rey!, meus sais, meus sais!

O que as mulheres possuem que excitam os homens eu sei muito bem. O que excita as mulheres num homem eu meio que imagino. Também consigo entender as atrações homossexuais, pois considero o homossexualismo o terceiro sexo, tão natural, pertinente e adequado quando os outros dois.

Falo por mim e me garanto: Sou capaz de apreciar a beleza masculina com a maior tranqüilidade e o meu ideal de homem, como homem que sou, seria um cara do tipo Sean Connery, quando jovem e no papel de James Bond: másculo, sedutor, sutil e violento.

Não raro ando pela rua cantando para mim mesmo a música tema do James Bond tendo na cabeça a imagem do Sean nos seus melhores momentos.

Não sinto qualquer atração física por ele ou por qualquer outro homem, é uma questão de jeito, eu acho. Nasci homem e hétero, fazer o que?

Bom, agora que me revelei, sem constrangimento ou preconceito, quero voltar à questão levantada pelo Pedro Cardoso: há excessos de nudismo no cinema, teatro e tv? Para mim a resposta é: Não!

É que entendo que a diferença entre pornografia e erotismo é tão imensa que não há como comparar uma com a outra.

A pornografia está ao serviço de instintos primitivos, sem qualquer idealização ou sentimento nobre – entendendo-se por “sentimento nobre” aquele que só o ser humano é capaz de sentir, em razão da inteligência. Pornografia é sexo por sexo, programado, explícito, focado nas regiões genitais e nas práticas sexuais sem qualquer sentido ou emoção, um entra-e-sai inconseqüente ao molho de gritos falsos e murmúrios fingidos.

É excitante? Claro que sim. Mas excita exatamente este fragmento do “persona” que é animalesco, esgota-se em si mesmo e leva, no máximo, à masturbação e ao vazio que se sucede, pois é ou não é um desperdício de energia a masturbação solitária praticada simplesmente como um alivio hormonal?

Nada contra, por favor. A masturbação faz parte, é importante, um contato de grande intimidade do indivíduo consigo mesmo. Porém, quando esse indivíduo necessita da pornografia para masturbar-se… Pobre infeliz, é um solitário  patológico.

Muito diferente é masturbar-se pensando no ser amado. Ainda que solitária, a masturbação assim praticada reveste-se de conteúdo amoroso e, como em todo o amor, em qualquer paixão, torna-se um ato de entrega, um modo de estar junto, a fantasia eventual substituindo a realidade desejada.

Havendo amor, a masturbação não esgota, ao contrário, mais aumenta a excitação, o desejo, a tesão e aquilo que considero condição absoluta para um verdadeiro amor: a entrega total.

O erotismo, ao contrário da pornografia, está ao serviço desses valores, desses bens humanos.

A nudez ao serviço do erotismo tem conteúdo artístico transcendental. Quando vemos na tela ou no palco atores de verdade expressando a sensualidade que, no ser humano é universal, invadem-nos diversas emoções, muitas delas confusas porque, se diante de um filme pornográfico, satisfeita a curiosidade inicial, logo a seguir ficamos indiferentes, enquanto a cena erótica envolve nossos sentidos, pensamentos e emoções, saímos dali alterados e, de um jeito ou de outro, melhorados para cumprir as funções humanas.

Nada de mal em sentir-se sexualmente atraído por uma bela atriz, por um lindo ator. Nada de mal em excitar-se diante da nudez explícita ou do sexo explícito apresentados como decorrência de um contexto estético, de uma trama criativa cuja conseqüência inevitável seja exatamente aquela: a sexualidade exposta, a sensualidade sugerida, o erotismo à flor da pele.

Qual homem não gostaria de ter uma mulher maravilhosamente linda – como as que os filmes mostram, escondendo as imperfeições – nos seus braços e ao seu dispor? Qual mulher não gostaria da mesma coisa, com relação a um lindo ator?

Mas sabemos, enquanto estamos assistindo, que o que nos é mostrado é pura ficção e que tais figuras não estão ao nosso alcance. E este conjunto de circunstâncias não melhora nossa sensibilidade, por acaso?

Não ficamos mais elevados diante da beleza, mesmo que inatingível? Não desejamos todos, em algum momento da vida, sermos um Sean Connery no papel de James Bond ou uma Marilyn Monroe no papel da vizinha em Pedaço Mora ao Lado?

Meu caro Pedro Cardoso. Se algum dia e por acaso ler estas palavras, saiba que a arte está a anos luz de distância da pornografia. Que a nudez de atrizes e atores não vende filmes ou programas de televisão. E que o público, isto é, as pessoas são seres complexos e inteligentes e por esta razão existe mercado para a pornografia e para a arte, independente de classe social, grau de instrução e problemas psíquicos.

Nós, humanos, temos a razão para controlar instintos e selvageria e isso faz uma enorme indiferença, pois pornografia e erotismo são invenções humanas.

O sexo não.

Aconselho o seguinte, que acho que há tempo você não faz: bota uma sunga e vá para a praia num domingo de sol.

Depois me conta.

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