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23/10/2013 / Paulo Wainberg

Por que? Por que sim, meu Deus?

12/10/98

POR QUE? POR QUE MEU DEUS?

O mundo cibernético é, para mim, um mistério tubular no pior sentido da palavra.

Por que digo isto? Para você não me escrever mais perguntando de onde eu conheço você, como é que seu e-mail veio parar em minhas mãos, por que eu envio crônicas para o seu computador, o que eu quero com você e, principalmente, para me pedir para cair fora, não me conhece, não quer me conhecer, não gosta do que escrevo e que é muita ousadia minha, para não dizer cara de pau, ficar desse jeito, amolando sua paciência, enchendo seu saco e sua caixa de correspondência.

Não tinha a menor idéia de como isso acontece, de aparecer endereços desconhecidos no meu catálogo.

Até há pouco tempo eu achava que tinha um dom, um poder extra-sensorial que eu classificava, romanticamente, de telecárdio, uma espécie de conexão à distância do meu coração com vários outros conectáveis por aí.

Desfez-se minha ilusão quando a filha de um primo meu, que tem sete anos de idade, me disse:

– Tio, quando tu respondes um e-mail que tem o nome de várias pessoas, o teu catálogo captura os endereços, é por isso.

Você sabe o que é uma menina de sete anos falando “captura”? É incrível. Entretanto a pobrezinha, sem saber, destruiu minhas aptidões metafísicas e reduziu-me ao nível mais elementar das artes informáticas, propondo implicitamente que eu pare de brincar com coisas que não entendo como, por exemplo, um celular novo que ganhei e que exige que eu seja especialista em matérias diversas, todas em inglês, para ligar para alguém ou para saber onde apertar quando alguém me liga e trate de fazer cursos sobre cérebros eletrônicos, ondas sinodiais, reflexões magnéticas, fibras óticas e sintéticas, relações espaço-tempo e neurologia robótica.

E, acima de tudo, principalmente e como pré-requisito, a Teoria Geral dos Radianos, nem que seja para principiantes.

O inglês nunca foi minha língua preferida. Sempre fui ligado ao francês, ao italiano e ao espanhol, nessa ordem, como línguas estrangeiras preferidas. São idiomas suaves, poéticos, líricos e românticos.

O inglês é duro, pragmático, pé no chão, dia a dia, rápido e rasteiro, “time is money” soa de um jeito, “le temps c’est l’argent” de outro. Em inglês significa realmente que o tempo é dinheiro. Em francês significa que o tempo é prata, prata existe, prata é belo, prata é jóia, dinheiro se faz com papel, entendeu?

Fazendo os cursos mencionados estarei apto a compreender o funcionamento de um byte?

É o que me pergunto e não me respondo.

Honestamente, não vejo nenhuma razão para surpresas cibernéticas a não ser que, como eu, você simplesmente cuida para não apertar teclas erradas.

Ora, minha senhora, como é que eu fui entrar no seu computador com uma crônica? Raciocine um pouco, cavalheiro, deixe de lado idéias pré-concebidas que me atribuem qualidades mágicas ou super cibernéticas, como se eu tivesse inventado um método exotérico-informático de descobrir seu e-mail. A explicação é simples, tão simples como quando a gente descobre o truque do mágico.

Um sujeito entra por uma porta e sai instantaneamente por outra, colocada a dez metros de distância. Ou ele tem o poder da desmaterialização (como em Jornada das Estrelas) ou aquele que entra é um e aquele que sai é outro, sósia ou irmão gêmeo.

A garota levita mesmo ou está sobre uma barra metálica hidráulica, invisível aos olhos da platéia?

Eu atraio o endereço do seu e-mail através de conjurações midiáticas ou alguém me forneceu ou, como aprendi, ele foi capturado pelo meu computador quando respondi “a todos” e não apenas “ao remetente”?

Tão simples quanto a galinha botar um ovo frito.

Você faz parte da imensa minoria dos que não querem receber minhas crônicas? Pode resolver o problema com um simples “exclua-me”, poupando-me de perguntas tão infantis que só as crianças sabem responder: como é que o meu e-mail foi parar no seu catálogo?

Exclua-me está mais do que bom, você pede e eu excluo e nunca mais falamos no assunto.

Mas pense bem para não se arrepender depois e não vir, todo sem jeito, pedindo, por favor. para voltar.

Porque as leis da natureza são imutáveis enquanto não mudam, o calor dilata os corpos tanto quanto a matéria atrai matéria não razão direta do quadrado dos catetos elevados a Ene potências, resultando da equação nada mais, nada menos do que ele, o infinito.

Raciocínios como esse é que me deixaram em segunda-época em Física, como já contei.

Sou Libra com ascendente em Aquário, minha gente, por favor não esqueçam disso. Minha cabeça vive no ar assim como todo o resto do meu eu, do meu teu e do meu nosso.

Sou homem do conjunto, não do detalhe. Vejo o todo e ignoro suas partes salvo na hora de passar a mão. É um dos raros momentos em que as partes sobressaem ao todo que, não obstante, reassume meu ponto de vista logo depois, fumando um cigarro.

Eis-me o homem, quase segundo Platão.

Em caso de dúvidas, consulte um de nossos atendentes.

E, para não passar em branco, fui assistir ao Cirque du Soleil, Muito bonito, muito técnico, engraçado às vezes e com pouquíssima emoção. Não tem globo da morte, atirador de facas, elefantes e cães amestrados, os trapezistas tem rede embaixo e a dança nas alturas não esconde a cordinha, tirando toda e qualquer expectativa de uma possível queda da bailarina, estraçalhando-se no chão.

Alguns bons números dos atletas olímpicos são o máximo de paroxismo que atinge o espetáculo.

Bonito mesmo de ver é a multidão em paz, divertindo-se em conjunto, aplaudindo ao ritmo da música, além das crianças maravilhadas e suas gargalhadas gostosas.

Nada é mais lindo do que milhares de pessoas expressando o mesmo sentimento de alegria e prazer mesmo que tenham pago uma fortuna para isso.

Não imagino que os patrocinadores da temporada tenham reservado um espetáculo beneficente para crianças de rua ou moradoras de vilas populares. Nem que fosse para estampar um pouco de alegria naqueles rostinhos maltratados, alguns sorrisos maravilhados nos rostos pré-envelhecidos, um pingo de misericórdia e esperança para vidas tão sofridas.

Os patrocinadores, que pagam a conta, falam inglês, embora a língua oficial do grupo seja o francês canadense.

Time is money.

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