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21/10/2013 / Paulo Wainberg

Amor, crimes e rimas

Crônicas Engraçadinhas – 17/04/2008

RIMAR É BOM? É RUIM? FAZ MAL À SAÚDE?

Dom Cardume jurou de morte Capo Dentinho, chefe da família rival, bandido sedutor e formoso como nunca se viu igual.

Por ciúme..

Convocou Kid Legume, seu capanga mais fiel, violento e brutal, sempre ansioso de passar o gume do punhal em carnes nobres, de gente ou animal.

Dom Cardume amava Capitela, a donzela com gosto de mel, motel e sarapatel. Quando estava com ela sentia-se no céu e longe do perfume dela sofria o ciúme cruel.

Quando percebia Capo Dentinho, com maroto jeitinho, para Capitela arrastar a asa, tinha assomos e chiliques, desses de destruir a casa.

Além disto, o desafeto dominava um território da cidade que Dom Cardume desejava ardentemente: o Seleto Estuário, xodó da comunidade, onde o dinheiro fluía abundantemente para a aquisição do material vendido à supina, sem qualquer vergonha: cocaína e maconha.

“Suprimindo o inimigo”, pensava Cardume consigo, “os negócios ficam todos comigo”.

Orgulhoso da própria finura relatou o plano a Legume sem omitir a mistura e terminou, às gargalhadas:

– Mato um coelho com duas cajadadas.

Kid Legume sorriu azedo. Um sorriso? Não, um arremedo. Seu punhal ia falar cedo, muito cedo.

Entretanto Capitela, de origem portuguesa, cuidando da vida dela, não dava sorte ao azar: “Com um dos dois hei de ficaire, afinal eu mereiço” e para ambos dava trela, levando a parelha no beiço.

Capo Dentinho, que para bobo não servia, também tinha seus segredos, vislumbres e anseios. Dar cabo de Dom Cardume era um dos meios para, sem muita balela, ficar com a donzela e, com aguda proficiência, eliminar a concorrência.

Convocou para a missão Joe “Scare” Burburinho, seu comparsa terminal, homem cujos bofes maus, famosos até em Macau, jamais prestava socorro, gato em árvore matava, não tirava boi do morro e nada achava mais lindo do que o sangue, quando jorrava.

Naquela noite fatídica, Dom Cardume saiu do alfaiate e foi para a boate. E Capo Dentinho, depois de tomar um mate, foi para a mesma boate.

Capitela apresentava o número dela: streap-tease à capela.

Dom Cardume babava e Capo Dentinho envesgava. O corpo de Capitela, por ambos frequentado, era desses de não botar defeito, de passar a mão com jeito, de enlouquecer a clientela e respectivo imaginário.

Cada homem ali presente, mais ou menos perdulário, suando no próprio bafo, desejava ardentemente nela passar o sarrafo ou, como se diz no popular, sem medo de vexame ou de ser vulgar, enfiar-lhe o salame .

Dom Cardume e Capo Dentinho, olhando-se de soslaio, imaginavam o outro no fundo de um balaio recheado com cimento, duro, cinzento e frio, em repouso e quietinho, lá no fundo do rio.

Com o dedo indicador, Dom Cardume deu a ordem e Kid Legume avançou.

Com o dedo mindinho, deu a ordem Capo Dentinho, e Joe “Scare” Burburinho avançou.

Capitela lá no palco, esfregando o mastro ou pau, percebeu a calamidade e amoleceu tal qual mingau, sabendo que era aquela a hora da verdade.

Kid e Joe, frente a frente, mostraram um ao outro o que é ser cabra valente. Caíram juntos no chão, Kid com um tiro no peito, Joe com o peito desfeito..

Ao seguir da confusão, gritaria e bafafá alarmante, Cardume saiu por um lado, Dentinho pelo outro, para evitar o flagrante.

Naquela noite agitada, quando quase não dormiu, Dom Cardume tomou uma decisão e na manhã seguinte, bem cedinho e apesar do frio, convocou Capo Dentinho para uma reunião.

Mal ele chegou e sentou, Dom Cardume depôs nele um olhar gelado, daqueles de tirar o brio. Capo Dentinho devolveu com um cinzento, de causar calafrio.

Durante cinco minutos se encararam, em silêncio. Então a fixa caiu para os dois, quase no mesmo momento. Dom Cardume sorriu e Capo Dentinho remexeu, como se seus cabelos estivessem pelo vento agitados.

Perceberam que estavam mutuamente apaixonados.

Ninguém sabe descrever a loucura que seguiu: abraços voluptuosos, beijos linguados, mãos nos lugares volumosos, ofegos candentes, uis e ais pungentes, tremeliques, calafrios e alucinantes desvarios.

Nunca mais brigaram e em amorosa paz viveram como um casal de sabiás canoros, enfeitando o crime organizado com seu doce arrulhar sonoro.

Capitela, pobre dela, ficou a ver navios.

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