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19/10/2013 / Paulo Wainberg

Sobre genios

 15/04/2009

Ou eu sou muito burro ou sou muito imbecil. Provavelmente as duas coisas, mas ninguém nota a diferença.

Nem eu.

É que eu tomo conhecimento de algumas coisas que, por mais que use minha parca inteligência, não consigo atingir o alcance, a finalidade e,  prosaicamente, a utilidade.

Van Gogh foi um gênio da pintura e o sujeito mais errado do planeta. Nada na vida dele deu certo. E “nada”, aqui, não é eufemismo, é nada mesmo. Passou a vida sustentado pelo irmão mais novo,Théo, que fracassou na vida amorosa e, como pintor, vendeu um único quadro, por quatrocentos francos, que se chama, se me lembro, a Taberna ou algo semelhante.

Quando morava na cidade de Arles, interior da França, onde tentou instituir um point de pintores e, obviamente, fracassou, Gogh morou junto com Gauguin por um tempo, uns dois meses, eu acho. Os dois se gostavam e não se entendiam, aliás discordavam visceralmente de absolutamente tudo. E discutiam sem parar.

Certa noite, não suportando mais, Gauguin resolver dormir numa estalagem e foi surpreendido por Van Gogh, navalha numa mão e a orelha na outra, orelha esta que V.G. gentilmente ofereceu de presente a uma prostituta de suas relações.

Gauguin sequer visitou o amigo no hospital e mandou-se para o Haiti onde já morara e onde permaneceu por vários anos, até regressar e morrer.

Até aí tudo bem, tudo certo. V.G. era meio doido, deprimido e se matou. Gauguin era do tipo aventureiro, viajou o mundo como marinheiro, mulherengo, e, é claro, sempre pintor.

Os dois entraram para a história graças à genialidade artística, para lá de estudada, dissecada e, tão a gosto dos críticos, classificada.

Agora leio no jornal que dois estudiosos alemães chamados Kaufmann e Wildegans publicaram um livro em que colocam a seguinte questão: A orelha de Van Gogh foi cortada por ele mesmo ou foi Gauguin quem, em legítima defesa, decepou o lóbulo auricular, diante de um ataque furioso do outro?

Hein?

Insisto: Hein?

Os estudiosos sabiam que Gauguin era um exímio espadachim e iniciaram a pesquisa a partir de minuciosa análise de um quadro de Gauguin chamado Girassóis Sobre uma Poltrona de 1901. Afirma Kaufmann: “O tema da obra, em especial o girassol ‘morto’ ao fundo, com um olho, nos pareceu conter uma mensagem secreta. Concluímos que, com ele, Gauguin representa o amigo já falecido (Van Gogh), que o observa do além. E o olho simboliza o peso na consciência de Gauguin.”

Realmente, no quadro, há um girassol morto que parece um olho. O mais extraordinário é que os pesquisadores criaram e decifraram o “Código Gauguin”, analisaram psiquicamente o artista, descobriram seu profundo sentimento de culpa e concluíram que os ataques de fúria de Van Gogh decorriam de uma admiração homoerótica por Gauguin. Daí que, como a evidência demonstra, foi Gauguin o decepador da orelha de Van Gogh.

E, mais do que isso, nada apresentam de significativo a dar substância à sua tese. Deixaram passar, por exemplo, um possível ar acusador no famoso auto-retrato de Van Gogh, com as bandagens sobre a orelha mutilada.

Por que? Pergunto eu. Por que os reveladores de tão crucial hipótese não viram uma acusação explícita naquele olhar meio febril, meio resignado, que Van Gogh estampa para si mesmo e para o mundo?

Deixo de lado esta dúvida por absoluta falta de resposta e me detenho na questão crucial: Van Gogh cortou a própria orelha ou foi Gauguin o autor do serviço?

E, diante dela, porque sou muito burro ou muito imbecil, não consigo deixar de pensar no seguinte: Que diferença faz?

Caso a versão tradicional da auto-mutilação prevaleça tudo continuará, no mundo real, exatamente como estava: Van Gogh era um gênio e doente mental, tinha surtos de pintura em que pintava um quadro por dia durante meses, foi internado num manicômio onde se suicidou e sua genialidade só foi reconhecida anos após sua morte. Gauguin voltou ao Haiti, produziu quadros geniais e morreu.

Imaginemos, porém, que os estudiosos acima citados tenham razão e que Gauguin extirpou a orelha de Van Gogh. Além do fato de sair no jornal, ganhar alguma notoriedade, uma boa grana com palestras e debates, qual a contribuição prática, metafísica ou artística que os estudiosos legam à Humanidade, aos colecionadores, aos museus e às pessoas comuns como eu?

Repito-me, eu sei, mas tenho que insistir:

Hein?

Juro, por qualquer coisa, que minha burrice e imbecilidade não me permitem alcançar a transcendência do fato. Ou da dúvida. Ou da hipótese. Nem como bizantino exercício intelectual encontro relevância para o caso.

Podem me chamar de capadócio!

O que me lembra o caso de Homero, poeta grego da antiguidade e autor da Odisséia e da Ilíada que, como sabem, contam respectivamente a história de Ulisses (Odisseu, em grego) e da Guerra de Tróia, poemas épicos que, entre outras coisas, apresentaram a mitologia Grega de forma organizada e sistemática.

Durante séculos e até meados do século XX, discutiu-se Homero e sua existência. Tudo começou porque, segundo alguns filólogos medievais, haveria uma discrepância lingüística de dois séculos entre uma obra e outra. Várias teorias foram elaboradas: Homero nada fez a não ser compilar textos dos aedos, aqueles poetas trovadores que embalavam as noites de luar com o som de suas liras. Outras afirmavam que apenas um Homero era original, o autor da Odisséia e quem escreveu a Ilíada teria sido um sub-poeta imitando o mestre. Outras mais disseram que Homero nunca existiu e que as duas obras pertenciam ao folclore popular. E, finalmente, a que mais gostei: O autor das obras não era Homero, o poeta grego, e sim um outro poeta grego que, por acaso, também se chamava Homero.

Inconclusiva a questão, abandonaram o tema e recomendaram – ó sábios – que a Odisséia e a Ilíada fossem desfrutadas como obras poéticas que eram, sem abrir mão da sua contribuição lingüística.

Burro do jeito que sou e imbecil de marca maior, nem vou me surpreender se algum estudioso revelar que Ian Fleming descobriu a penicilina e que Alexander Fleming foi o criador de Bond, James Bond e que ambos eram uma única e mesma pessoa.

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