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18/10/2013 / Paulo Wainberg

Outra carta ao Osmar

 09/10/2009

O Osmar, você sabe, é meu correspondente que não corresponde. Ainda não sei por que insisto em mandar estas cartas, talvez lá no fundo ainda me restem esperanças, provavelmente é isto. Ele é barrigudo, solteirão convicto – não gay – e  bebe cerveja. Muita cerveja. Uns dizem que boa parte da barriga é fruto da cerveja. Outros atribuem à sua vida sedentária. Outros mais à excessos alimentares. E ainda outros à tudo junto.

Mas vamos lá, à carta, vai ver, quando eu menos esperar…

Querido Osmar.

Hoje quero corrigir uma distorção histórica graças a qual a Humanidade se escravizou e ingressou no viés definitivo do cansaço e da preocupação.

Sabe ao que estou me referindo? Ao conceito de ‘dia útil’. Alguém, com certeza um recalcado qualquer, logo depois que fomos expulsos do Jardim do Éden, decidiu que dia útil é para trabalhar, ir à escola, pagar as contas, discutir com o guarda de trânsito e brigar com as crianças.

E transformou os feriados e os fins-de-semana em dias inúteis.

Você se dá conta, Osmar, do quanto nós fomos prejudicados por tão absurda idéia?

Só pensar nisso e pronto!, meu sábado está estragado porque sou um inútil e meu domingo, então, nem se fala, é véspera de dia útil! E quando tem feriadão? Dias inúteis sucessivos a nos martirizar.

E não adiantam expedientes como levar trabalho para casa ou fazer plantão na farmácia. Aí a coisa piora porque você acaba não trabalhando em casa, olha para a tarefa, deixa para depois, o tempo passa, você também e explode a crise de identidade: você é um útil inútil ou um inútil útil?

Por essas e outras, querido Osmar, é que eu continuo nesta saga de corrigir erros históricos como, por exemplo, o envelhecimento.

Falando nisso, ando com saudades da minha juventude, quando eu apenas tinha sessenta anos. Não sei se contei a você, mas andei fazendo aniversário por esses dias e ingressei na perigosa faixa dos sessenta e cinco, na qual a gente ainda pensa que pode tudo e vai ver, não pode.

Quando eu era jovem, no auge dos meus sessenta, tais aflições não me acometiam. Eu podia tudo, mesmo! Bem, quase tudo, mas o que eu não podia não fazia falta, entende? Podia viver sem costela gorda três vezes por semana e não me importava de só ter dois remédios por dia, para tomar.

Bons tempos aqueles, quando eu não pegava no sono na frente da televisão e conseguia ir, acordado, para a cama. Quando eu caminhava uma hora e meia e continuava vivo. Quando eu não ia mais do que uma vez por noite ao banheiro, fazer xixi.

Estou errado ao considerar o envelhecimento um erro histórico? Não seria muito mais apropriado que, fisicamente, estacionássemos nos trinta? Todo mundo com cara de jovem, fazendo coisas de jovem e a cabeça melhorando, melhorando, melhorando até melhorar tanto que eu chego a chorar quando penso em tudo o que podia fazer e não fiz…

Bem, você não vai me responder mesmo, mas, repito, quem sabe? Quando eu menos esperar…

Aliás, tem coisas que a gente espera a vida inteira e não chegam e outras que a gente não espera, e chegam. E tem aquelas, quando prometem a você: Quando você menos esperar…

Aí é que a porca torce o rabo, o parafuso emperra e um prego entra no teu pé. Pois esse aviso, quando você menos esperar…, é uma traição e uma covardia. Alguém te diz isso e imediatamente você começa a esperar aquilo que você menos esperava um segundo antes.

E se tem coisa que me incomoda, Osmar, é esperar. Odeio esperar. Na verdade, prefiro não esperar.

Portanto, Osmar, se você ou qualquer um tiver alguma coisa para mim, não me faça esperar, nem mais nem menos.

Um abraço afetuoso.

 

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