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17/10/2013 / Paulo Wainberg

Pó herócio

 10/04/2008

Morreu outro dos meus heróis de barro, Charlton Heston. Tive vários na infância e adolescência, o primeiro que lembro foi James Dean a quem eu imitava enfiando os polegares nos bolsos da primeira calça jeans que tive – na época Brim Coringa – e balançava pelas ruas como ele fazia em Juventude Transviada, ora com cara de triste, ora com cara de mau, ora com cara de tédio. Ou terá sido Marlon Brando em O Selvagem? Tanto faz provavelmente os dois.

A visão messiânica da História que os Estados Unidos venderam ao mundo forjou gerações inteiras a idolatrar heróis perfeitos, de caráter impoluto e incorruptível, avessos à fraude e ao erro, intransigentes na defesa do Bem, eternamente vencedores, todos americanos, é claro.

Charlton Heston foi a encarnação perfeita de tal modelo, magnífico em filmes como Moises, Ben-Hur, El Cid e A Última Esperança da Terra onde no final, com o maior descaramento, morre como Jesus na cruz. Magnífico não como ator, sinceramente. Magnífico como caracterização.

O gesto altivo, o olhar azul-gelo cortante, o corpo qual Davi de Michelangelo, adornado por efeitos especiais magistralmente concebidos.

Tudo a ver com a poeira e a lama, os cavalos e as espadas, as batalhas, o sangue, os escudos, as flechas, bigas romanas, as reflexões subjetivas levando à firmeza dos propósitos, à coragem indômita e ao espírito de sacrifício. Sacrifício docemente compensado pela insinuação sensual de uma linda mulher apaixonada, lavando feridas e chagas com água fresca e suaves poções perfumadas, ao final das batalhas, vestida com transparentes tecidos e calçando delicadas sandálias. Ou à luz celestial conduzindo o herói para divinos braços.

Ele foi uma caricatura ideal das grandes produções, os espetáculos monumentais, as montagens esfuziantes nas quais os anglo-saxões são mestres, especialmente no teatro onde, com perdão da má palavra, sobejam.

E eu babava. Copiava gestos e atitudes, imitava olhares e trejeitos, certo de estar agradando a colega de aula, achando que era aquilo que ela admirava num Homem.

Todos os meus heróis foram de barro e, como barro, desapareceram um a um, bem antes de morrerem. Tentaram ser condicionantes a um modo de pensar, a um único critério de justiça, de certo e errado, a uma única atitude verdadeira diante da vida, de acordo com o “american way of life”. Tiveram absoluto sucesso tanto que muitos nunca perderam o condicionamento e até hoje acreditam nos heróis de antanho, o mais moderno deles é o inacreditável Bush que, para a sorte do mundo, não tem a imponência pessoal e o carisma de Charlton Heston.

Tive vários outros heróis de barro, uns mais sólidos do que outros, mas sempre de barro.

Tio Patinhas e Pato Donald foram heróis, exemplos perfeitos da sovinice e do insucesso. Heróis bem mais humanos do que os dos filmes, mais verdadeiros, falíveis e imperfeitos.

Lênin foi quase um herói de verdade. De certa forma ainda é, de um barro mais consistente, mas que Stalin tratou de dissolver e reduzir ao seu devido pó. Stalin nunca foi herói porque, por alguma razão genética, não gosto de ditadores desde criança.

Sartre, sem dúvida, foi um herói exponencial, um modelo inspirador que me conduziu a pensamentos que eu jamais imaginara poder pensar. Este sim foi um herói a valer, que me enquadrou, estabeleceu a tática, definiu minha posição em campo e me pôs a jogar com as melhores certezas. Porém, foi ler as primeiras páginas de sua biografia e lá se foram as ilusões, do barro ao pó em menos de um segundo.

Por isso odeio biografias. A do Sartre foi a última que li e isso há quase vinte anos.

Bogart fumando em Casablanca, como imitei aqueles gestos! Pelé dando um balãozinho no zagueiro e fazendo uma zero para o Brasil contra o País de Gales, na Copa de 58. Carlos Appel quando foi meu professor de Português na segunda série ginasial e quando, depois, editou meu primeiro livro.

Brigitte Bardot em Deus Criou a Mulher. A cozinheira de uns amigos meus, simplesmente divina. Doris Day em Pillow Talk. Um mulato que trocou o pneu do meu carro ao meio-dia de um janeiro ardente, na Avenida Mauá.

Dezenas, centenas de heróis, heróis fluidos, heróis de ocasião, heróis esquecidos que povoaram e povoam minha vida, ah, ia esquecendo Figueroa, quando fez o gol de cabeça naquele um a zero do Inter contra o Cruzeiro de Belo Horizonte na decisão de 1975, modelos pontuais de talento, capacidade de dignidade, como Carlos de Britto Velho renunciando ao mandado de deputado federal tão logo a ditadura editou o Ato Institucional número Cinco.

Precisam os humanos, de heróis para imitar, modelos a seguir porque, frágeis como somos, temos de medo de arriscar, tememos a ousadia e as mudanças e, sobre todas as coisas, acima de todas elas, superlativamente superiora ao conjunto das probabilidades, vivemos apavorados com a possibilidade do fracasso.

Se isso ajudar alguém, revelo que meu único herói de verdade, na infância e adolescência e que subsiste até hoje com seu barro integral e nem um pouco corroído foi meu pai. Pena que só descobri isso depois dos quarenta anos porque sobrou pouco tempo para aproveitar.

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