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14/10/2013 / Paulo Wainberg

Reflexões pré-oníricas

 07/05/2008

O que será que as pessoas pensam no exato instante em que, com a cabeça no travesseiro, sentem o sono chegando e sabem que vão adormecer?

Ocorreu-me esta pergunta hoje de manhã, durante um engarrafamento homérico por causa de uma sinaleira estragada. Acho que foram as buzinas ultrapassando meus vidros fechados e abafando “um cantinho o violão” que tocava no rádio.

Acho que os rituais pré-berço são semelhantes, em condições privilegiadas de existência tais como: Ter casa para morar, banheiro, água nas torneiras e, entre outras, cama e travesseiro.

E cobertor para o frio.

Porque as outras pessoas devem pensar apenas na sobrevivência, na comida de amanhã, no remédio para o filho e infelizmente são muitas. Talvez a maioria.

Volto aos privilegiados: Uns tomam banho, escovam os dentes, lavam o rosto, tiram a pintura, botam as redes no cabelo, depilam as sobrancelhas, desodorizam os sovacos, enfiam pijamas, camisolas ou tiram tudo, coçam atrás das orelhas, assoam o nariz, usam chinelas e chambres, tiram lentes de contato, lavam os óculos, assoam o nariz de novo, trocam o OB, penteiam os cabelos, lustram as carecas, arrotam por cima e por baixo, esfregam a barriga, examinam a zona do agrião ao vivo e na frente do espelho, esfregam mais a barriga e vão para a cama.

Há os que ficam lendo, há os que assistem televisão, tem a turma das palavras cruzadas, o pessoal que ouve rádio, casais conversam fundamentos vitais, ajustam contas (lato senso), tiram o filho da cama e levam para o berço, folheiam revistas, fazem alongamentos horizontais, voltam a levar o filho para o berço, queixam da vida, juram alguém de morte, prometem vinganças furiosas, morrem de medo da reunião ou do exame amanhã de manhã, trocam confidências, mentem, levam o neto para o berço, pedem desculpas e finalmente, viram de lado para dormir, não sem antes levar o filho ou neto para o berço mais uma vez ou enfiar um dedo no nariz.

Este é o momento que me interessa. Quando a criatura está com ela mesma, os olhos fechados no quarto escuro (ou semi-escuro, há os que têm medo do escuro), tentando relaxar, não há alternativa, o sono vem vindo, aí! Justamente aí, no que é que elas pensam?

Não vou me omitir e revelo sem pudor no que eu penso: Em coisa boa. Por favor, não me pergunte o que eu entendo por coisa boa, não é justo e eu não vou dizer e, além do mais, o que é bom para um não é necessariamente bom para outro, muito embora nesse caso eu ache que sim, é.

Falando sério, os últimos pensamentos de cada um antes de dormir devem ser fascinantes, de uma riqueza assim tão intensa que no dia seguinte, ao acordar, esqueceu-se totalmente de tudo.

É ou não é? Pergunte ao primeiro que passar no que foi que ele pensou ontem, antes de adormecer. Aposto que ele não lembra.

Posso imaginar alguns pensamentos pré-oníricos, por exemplo, o que fazer com o dinheiro da mega-sena se por acaso ganhasse, onde levá-la quando ela aceitar seu convite, arrumar as malas e nunca mais por os pés nesta casa, quando será que este guri vai tomar jeito?  será que ela exige camisinha? Até quando vou agüentar essa gozação?

Gremista: Por que tudo dá errado comigo?

Garota de quinze anos: Eu tenho que dar para alguém.

Garoto de treze anos: Eu tenho que comer alguém.

E assim por diante. São milhares, bilhões, os pensamentos que se pode ter logo antes de pegar no sono e todos eles relevantes, importantes, decisivos, fundamentais, cruciais, essenciais, dramáticos, hilariantes, mas nenhum a valer, de verdade, com conseqüência prática no dia seguinte.

Porque antes de adormecer queremos adormecer e nada mais. Que o sono venha e nos desligue por algumas horas, nos deixe a mercê de sonhos que sejam mais ou menos salubres. E, que ninguém duvide, uma das melhores sensações que existe é despertar de um pesadelo e verificar que todo aquele horror não passou de um sonho. Também é horrível acordar exatamente na hora em que a coisa ia acontecer.

Conversa vai, conversa vem, acabei ampliando minha curiosidade para rumo aos pensamentos pré-momentos decisivos:

Entro ou não entro neste avião? Será que este lago é fundo? Não se preocupe, estou com a corda bem amarrada. Acho que ainda cabe mais um copo na bandeja. Mais uma dose não vai fazer mal. Agora não dá para enfiar a camisinha…Se ele se jogou, eu também posso. Assino ou não assino como fiador?. Compro ou não compro, dou ou não dou?

Dúvidas que surgem e que, dependendo da sua resposta, leva você para um lado ou para o outro, quase sempre o outro, que é o pior.

Já aprendi, após longas horas de meditação que, em caso de dúvida não devo escolher. Entrego minha sorte ao acaso e, ao contrário de muitos, não estabeleço uma relação de causa e efeito preliminar, recordando cada gesto antes praticado pode levar a tal ou qual infortúnio.

Por isso aposto sempre os mesmos números porque, conforme uma lei da economia que inventei há alguns anos, a única forma de ter certeza do resultado é comprar na alta e vender na baixa. É infalível.

E antes de dormir revelo, em respeito à sua insistência, que sempre penso que vou conseguir aquela coisa gostosa que eu quero tanto e jamais movi um rinoceronte para conseguir.

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