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13/10/2013 / Paulo Wainberg

Paixão não é motivo?

 16/10/2008

No ano de 1967 meu pai foi advogado de defesa de um rapaz de vinte e dois anos, que matou a noiva de quinze anos com cinco tiros, por ciúmes. Ele não aceitava que ela quisesse desmanchar o namoro, o noivado aliás, foi ate a casa dela, pediu, implorou que ela voltasse e diante da negativa descarregou o revolver na menina. O promotor alegou que ele matou por motivo fútil o que aumentava a pena. Meu pai alegou que ele agiu sob violenta emoção causada injustamente pela vítima, o que diminuía a pena.

Até hoje pela manhã, em Santo André, São Paulo, um rapaz de 22 mantinha ha três dias, como refém, sua ex-namorada de quinze anos, inconformado com o término do namoro, sob a ameaça de dois revólveres. Homicídio num caso e seqüestro (esperemos) no outro, ambos envolvendo pessoas de idênticas idades e motivados pela mesma emoção: Ciúmes.

O Ciúmes, caracterizado pelo psicólogo e escritor Mira Y Lopes como um dos quatro gigantes da alma, é afinal uma grande emoção capaz de levar alguém ao crime ou um motivo fútil ou torpe que não merece ser considerado pela Justiça?

Deixo para você a tarefa de resolver essa questão, ok?

E aguardo a solução que você vai me enviar, com toda a certeza, até o fim da tarde.

Porque eu quero mesmo é falar das tremendas injustiças que estão fazendo comigo. Vou enumerá-las e veja se não tenho razão:

1) Pisca-pisca do carro na minha frente ligado: sabe aqueles engarrafamentos enormes? Pois é, quando entro num, o único carro que liga o pisca-pisca anunciando que vai entrar à esquerda dois quilômetros adiante é o que está na minha frente. Fico eu ali, sentado, ouvindo meu rádio e fumando meu cigarrinho e aquela luz acende e apaga acende e apaga acende e apaga, será que o cara da frente precisa ser assim tão cuidadoso, o engarrafamento é monumental, a cada dez minutos a fila se move três metros e aquela luz acende e apaga acende e apaga, já sei que ele vai entrar a esquerda, todo o mundo que vê aquela luz sabe, faço sinal com meus faróis, mas o da frente não se flagra, penso em descer e pedir a ele a gentileza de desligar o pisca-pisca, mas … e se ele for brabo, se for grande, se disser que não, e vou ficando ali, hipnotizado, acende e apaga, acende e apaga, tapo os olhos com a mão para aliviar e a luz do pisca-pisca penetra entre meus dedos, acende e apaga acende e apaga, olho para os vinte mil carros parados em fila quádrupla e nenhum está com o pisca-pisca ligado, só o da minha frente, acende e apaga acende e apaga, depois chego furioso em casa e minha mulher não me entende!!! Injustiça das grandes, das grossas, perseguição mesmo, pior do que isso só o que Deus fez para testar a paciência de Jó.

2) Quando o teatro não tem a inclinação adequada pode apostar que o Cabeção vai sentar na poltrona na frente da minha. Quinhentos lugares no teatro e o Cabeção escolhe a poltrona na frente da minha! E não é um Cabeção quieto, daqueles que, tudo bem, te tira a visão do palco, mas se você olhar pelo lado dá para ver. Não, o Cabeção na minha frente é inquieto, vira, revira e re-revira e eu atrás, tentando adivinhar o lado que o Cabeção vai, para ir para o oposto.

Penso em chutar a cadeira dele, dar um toque pro cara, uma batidinha no ombro e sugerir amavelmente que ele escolha um lado que eu fico com o outro, mas… pelo tamanho da cabeça dá para imaginar o resto e fico na minha. Depois, no intervalo, quando estou emburrado e de mau-humor minha mulher me critica e me acusa de não saber me divertir. Injustiça!!!

3) Quando estou no melhor do sono, acordo! Que absurdo, que barbaridade!  Nunca me acordo no pior do sono, só no melhor. Fico horas e horas no pior do sono, dormindo quando podia estar acordado, agüentando quieto aquele tempo todo e quando, finalmente, o pior do sono passa e vem o melhor, Pimba! Acordo! E acordo assim, de não deixar dúvida, olho arregalado e  não adianta fingir, estrebuchar ou repinicar, acordei e fim de conversa. Depois minha mulher ralha comigo porque não quero conversa durante o café. Injustiça!!!

4)  Quatro minutos de jogo e toca o telefone. Sempre! Inevitável. Eu sento no sofá, a televisão ligada no canal certo, queijo e salame italiano, cervejinha gelada, o foguetório, meu time entra em campo, o adversário também, sigo o coro da galera e vaio eles internamente, o juiz tira o toss, meu time escolhe o lado certo, sempre que ele começa daquele lado nós ganhamos, o jogo começa, meu time está nervoso, chance de gol para eles, bola cruzada na área e trimmm, toca o telefone. E nunca é para mim, é para outra pessoa que está lá em casa fazendo sei lá o que na hora que estou vendo o jogo e não se digna a atender o telefone. Aí a pessoa que liga quer conversa, como é que vão as coisas, o meu centro-avante entrou na área, tudo bem eu digo, quase me erguendo do sofá, vai sair o gol, olha lá, não, nada de novo e vocês, o goleiro se adianta, está sim, espera aí que vou chamar, a bola vai para fora, não se perde um gol daqueles, vai fazer falta no final, saio correndo chamar o destinatário do telefonema, aviso com maus bofes que fulano quer falar, volto correndo para o sofá, o jogo se desenrola e, no mínimo, juro que no mínimo, a mesma cena se repete por mais quatro ou cinco vezes, sempre em momentos cruciais do jogo. Aí meu time perde o jogo, aquele gol fez mesmo falta e minha mulher não entende meu mau-humor e quer falar das contas que vencem amanhã. E, o que é mais interessante, depois do jogo ninguém mais liga lá para casa. Injustiça!!!!

E assim iria eu, me alongando nesse mar imensos de injustiças a que sou submetido diariamente, como o inefável cara com sotaque paulista falando alto no celular dentro do elevador, como o discurso nordestino de um senador explicando o aumento do próprio salário, como a troca de acusações entre os candidatos e, finalmente, a mais grave de todas as injustiças que me fazem toda vez que não sorteiam os meus números na mega-sena.

O que isso tem a ver com Ciúmes? – Você irá me perguntar. Eu responderei que nada, não tem nada a ver, eu avisei lá em cima e ainda pedi sua ajuda, lembra?

Pois é.

Ah, e o rapaz aquele, o que matou a noiva por ciúmes, foi condenado por homicídio doloso agravado pelo motivo fútil. Aquele júri entendeu que Ciúmes é motivo fútil e que a paixão não justifica.

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