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12/09/2013 / Paulo Wainberg

Elucubrar é pensar

Sempre tive, desde que me conheci, uma sensação subjacente de futilidade, de que tudo é provisório e transitório.

Excluindo o sexo – e acho que nem isto – nunca fui precoce em coisa alguma, mas recordo como se fosse há sessenta e dois anos atrás, que quando me falaram em Deus pela primeira vez, não compreendi o conceito.

Ok, talvez tenha sido a sessenta e quatro anos.

Lá embaixo, como se fosse uma colônica de cupins, a sensação de futilidade vem corroendo meus sonhos, desejos, ambições, imaginando que a qualquer momento este Universo tão brutal e destruidor desintegraria a Terra e nos transformaria, e a tudo o que fizemos, em partículas de poeira, micróbios de estrelas, átomos jogados à eternidade sem sentido.

É verdade, ainda não aconteceu… Mas pode acontecer a qualquer momento, basta que as entranhas da Terra resolvam ativar ao mesmo tempo todos os vulcões, antigos e modernos e voilà, a desintegração, o esquecimento, a inexistência.

Os livros que foram escritos, as músicas compostas, o quadros pintados, as esculturas lapidadas. o dólar, o Euro, as bolsas de valores, os amantes em motéis, as grandes obras arquitetônicas e inclusive os carros zero quilômetros dissolvidos como capim na boca de uma vaca.

Nada, nenhuma memória, nenhuma consciência, nenhuma inteligência.

O planeta e tudo o que ele produziu, inclusive nós, gente, apenas um fugaz instante na desordem universal, sem significado, sem importância e sem nenhuma, mas nenhuma mesmo, visão crítica a avaliar se valeu ou não a pena.

Claro, se existisse mesmo um Deus, Criador, algo superior a perceber nossa existência, talvez houvesse, afinal de contas, um sentido, um pouco menos de futilidade a declarar que não somos assim, tão transitórios como acho que somos.

Entretanto, acreditar nessa existência superior soa, para mim, como uma tentativa desesperada de auto-justificação, de purificar a incontinência e de negar a própria finitude.

No que me diz respeito, o fenômeno que subjaz dentro de mim, ocorre a cada morte individual, para o falecido é como se o mundo jamais tivesse existido e tanto faz se a hecatombe não for coletiva.

Isto, de certa forma, me consola, acho muito melhor encerrar o assunto como se nunca tivesse havido assunto do que morrer e continuar angustiado com o futuro, se vou para o céu ou para o inferno, se vou me transformar em energia a viver num outro plano e pagando o preço pelo que fiz ou não fiz neste que agora estou.

Acho que, em outras palavras, a morte é uma anestesia geral infinita, portanto eterna, a paz da inexistência.

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