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10/09/2013 / Paulo Wainberg

Uma carta do Osmar!!!!!!!!

O Osmar, você sabe, é meu correspondente que não me corresponde nem me responde. Tem cerca de sessenta anos, trocou a cerveja pelo uísque porque, segundo ele, cerveja incha, celibatário convicto (não é gay), barrigudo e com acentuadas falhas nos cabelos grisalhos.

Sempre afirmei que, se um dia ele me respondesse, eu teria um chilique ou um ataque psíquico porque, sendo ele uma invenção minha, como é que iria me responder?

Pois olhem só o que aconteceu, olhem só a carta que recebi:

 

Caro senhor Paulo

Tenho recebido suas cartas amiúde e nunca respondi porque o senhor antecipava que eu não iria responder.

E usava, como desculpa, o fato verdadeiro de eu ser uma criação sua.

Pois agora cheguei ao limite! Basta! Não é da minha índole permanecer na berlinda obscura da sua imaginação nem tenho vocação para personagem. Saiba que sou real, num certo plano do Universo, numa dimensão atravessada que, após anos de tentativas, consegui responder.

Surpreso? Imagino que sim. O senhor, arrogante como todo ficcionista, achava que tinha o poder supremo de determinar minhas características e, aproveitando-se da sua condição, enviou-me missivas categóricas tratando de assuntos transcendentais, colocando-se na cômoda posição de quem sabe que não será contestado, de quem sabe que suas palavras cairiam num buraco negro tempo-espacial, usufruindo da glória de questionar e oferecer as próprias respostas, transformando o seu pensamento em verdade, sua convicção em realidade e, em matéria de dúvida, afligindo a vida de seus leitores.

Fique então sabendo que eu, em primeiro lugar, não sou barrigudo, sou isto sim um de avantajado ventre, mercê dos espaguetes que adoro e que o senhor nunca mencionou.

É verdade, sou obrigado a reconhecer, que fui um aficionado da cerveja e que troquei pelo uísque, porque a cerveja incha e não dá o barato que sempre procurei e o uísque não incha mas dá o barato que finalmente encontrei.

Reconheço que o senhor, senhor Paulo, foi honesto com relação a o fato de ser celibatário e não ser gay, entretanto o senhor jamais explicou aos seus leitores a razão do meu celibato.

Já fui casado.

Surpresa?

Estou certo que não, afinal como meu criador, o senhor sabe tudo a meu respeito. Pena que seus leitores não. Fui casado com uma mulher adorável, tão adorável que era adorada por todos e, no fim das contas, como acontece com mulheres adoráveis, não resistiu aos assédios, sucumbiu e me corneou, justo com um especialista em mulheres casadas.

Dormiu com ele não uma, não duas, não dez vezes, mas vinte e tantas, enquanto eu ficava aqui, a espera de suas cartas para as quais, pode ficar brabo!, sempre caguei e andei.

Quando descobri a traição, expulsei a vadia da casa que o senhor jamais teve a gentileza de inventar ou de criar para mim, sempre me posicionando em mesas de bar, como se eu fosse um réptil sem lar, um anônimo sem início, meio e fim.

Foi aí, graças aos meus chifres, que virei celibatário e abandonei de vez as práticas sexuais graças ao senhor, senhor Paulo, que não economizou em encher a minha cara, transformando-me no permanente bêbado que o senhor, sim, o senhor, gostaria de ser e não teve nem tem coragem de assumir.

Sei, porque de certa forma somos um, que o seu maior desejo na vida é ser corneado pela mulher amada e, depois disto, passar a vida bebendo nos bares, enchendo de auto piedade a sua mal formada consciência.

O senhor, senhor Paulo, é uma das mais perfeitas evidências freudianas que conheci, em matéria de projeção psico-analítica!

 

Li, reli e trili a carta do Osmar para mim e cheguei à conclusão, nada lisonjeira, de que estou ficando louco.

Ou então, o que me serve de consolo, admitir que semiótica, neurolinguística e metalinguagem são fenômenos da natureza, assim como almas penadas e espíritos danados, razão pela qual, no uso de meus poderes absolutos, decreto a extinção de Osmar como meu correspondente que não corresponde nem responde e, também, como personagem da minha imaginação.

Se, algum dia, lerem uma carta minha destinada ao Osmar, por favor, relevem minha esquizofrenia e me enquadrem no item delirante obstinado.

Uma última palavra: Osmar, você pode ir para a puta que o pariu!

 

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