Skip to content
07/09/2013 / Paulo Wainberg

Dia de aniversário

Como acontece anualmente, o Dia da Pátria cai num sete de setembro. Aniversário da Pátria e de milhões de pessoas que também nasceram neste dia, o que abre espaço para uma acurada observação, recheada de metáforas, sobre os significados de público e privado.

Público é aquilo que todos sabem e privado é aquilo que poucos sabem. Parece óbvio e, acrescento, é óbvio.

O aniversário da pátria é um dia público e o aniversário de alguém nascido no mesmo dia é um dia privado.

O público comemora o aniversário da Pátria e alguns comemoram o aniversário do indivíduo.

São sentimentos diferentes, porém semelhantes.

Desejar tudo de bom para a Pátria é o mesmo que desejar tudo de bom para o privado, sem desconhecer que se nosso desejo for atendido pelo gênio da lâmpada, o tudo de bom da Pátria melhora a vida de todos e o tudo de bom do privado melhora a vida de poucos.

No nosso caso, a Pátria é o Brasil que virou País num sete de setembro simbólico, duvido que o grito do Ipiranga tivesse sido planejado para cair num sete de setembro, foi uma circunstância aleatória que poderia ter ocorrido às margens do Tietê (com profunda alteração do Hino Nacional) ou em Copacabana, ao som de uma batucada nas areias escaldantes.

Imagino que quem tenha nascido num sete de setembro comemore seu aniversário um tanto constrangido, afinal ninguém gosta de sobrepor o privado ao público, não se for politicamente correto, cínico ou hipócrita.

Porque na vida real cada um está mais interessado no privado (no seu) do que no público e o público só vem a público quando seu privado está ameaçado.

Você, nascido no sete de setembro, pode conciliar, encontrar um meio termo de convivência entre o público e o privado, basta cantar o Hino Nacional antes de apagar as velinhas, suprimindo o parabéns a você. Neste caso estará pondo seu privado a serviço do público e a Pátria, reconhecida, agradecerá.

No aniversário da Pátria ostentamos nosso poderio militar, por menor que seja, e inflamamos os privados de orgulho através dos desfiles, dos uniformes, dos tanques e dos cavalos armados, além dos navios e aviões de guerra, verdadeiros apanágios da Nação Soberana.

E as bandas marciais enriquecerão nosso ufanismo e lealdade ao som dos clarins e dos taróis, esquentando nosso sangue e acelerando nossa respiração até à morte, se necessário for, mas por sorte logo passa.

No âmbito privado, acepipes, canapés, cervejas, vinhos, jantares, churrascos, presentes e abraços, observada sempre a hierarquia social e o nível de inclusão para maior ou menor opulência da efeméride, a nos render um extraordinário alívio quando, finalmente, o último convidado vai embora.

Nos níveis públicos, além dos telegramas e mensagens enviados por outros públicos, os dirigentes da ocasião assumem seus ares de grandeza como se graças a eles tal façanha fosse possível e, sem os limites dos cartões de crédito corporativos, não fazem qualquer contenção de gastos para extravasar o orgulho nacional que chegará ao ápice com milhões e milhões gastos numa retumbante orgia de fogos de artifício iluminando o entardecer do grande átrio nacional, ali mesmo, no planalto central.

Mais tarde, público e privado vão dormir e, quando acordam, já é o dia oito e tudo continua exatamente igual.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: