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01/09/2013 / Paulo Wainberg

Metaforicamente falando

Acreditando saber o significado de certas palavras, passa a vida usando-as de forma errada e ninguém, por medo de ofender, por boa educação ou por simples espírito de porco corrige o sujeito.

Começava quase todas as suas frases com ‘metaforicamente falando’, sem ter a menor ideia do significado exato da palavra metáfora.

– Metaforicamente falando, se você caísse de um trem em alta velocidade, preferia viver o resto da vida inválido ou morrer na hora?

O pessoal não respondia, ou até respondia, e sempre tinha um gaiato para dizer:

– Metaforicamente falando? Não sei.

E assim ia ele, de conversa em conversa, entre os mais variados grupos e ocasiões, usando suas metáforas pensando que se fazia entender por exemplos:

– Metaforicamente falando, hoje estou com um sono de cão.

– Metaforicamente falando, ando louco para dar um amasso na mulher do Joaquim.

– Metaforicamente falando, vocês não acham que falta sal nesta sopa?

Os amigos mais íntimos já estavam habituados, nem prestavam atenção ao início de suas frases até que, num jantar na casa do Haroldo e da Clarinha, apareceu Antunes, cunhado da Zefa que recém tinha se divorciado e andava meio abatido, procurando situar-se na própria existência.

Antunes era irmão mais moço de Petrônio, marido da Zefa.

Durante os drinques lá veio:

– Metaforicamente falando, acho que a Copa do Mundo vai trazer muitos benefícios à cidade.

O assunto pegou e Antunes entrou nele, relevando o metaforicamente como um engano, vai ver ele tinha ouvido mal, até que:

– Metaforicamente falando, a FIFA não quer o mal dos países que escolhe para a Copa e suas exigências são, metaforicamente falando, um impulso para os governos realizarem obras,

Antunes não resistiu:

– Como assim, metaforicamente falando?

– Hein?

– Tudo o que você diz começa com metaforicamente falando, como assim?

Haroldo, para evitar constrangimento:

– Liga não, Antunes, é só o jeito dele falar.

Antunes entendeu o recado e não prosseguiu.

Mas o outro ficou intrigado. Por que Antunes achara estranho a forma como ele começava as frases? Estaria errado?

Ficou o resto da noite em silêncio, um sim ou não eventual, mas sem repetir o metaforicamente falando.

Naquela noite, antes de dormir, perguntou à esposa:

– Julia, você viu o que o cunhado da Zefa, o… como é mesmo o nome dele?

– Antunes.

– Isso, o Antunes. Você viu o que ele falou?

– Sobre?

– Sobre o jeito que eu falo, o metaforicamente falando?

– Vi, não achei nada demais.

– Será que eu falo errado?

– Vai dormir, Fredi, já são duas da madrugada.

Mas Fredi não dormiu. Ficou com aquilo na cabeça, metáfora, metafórico, metaforicamente, afinal aquelas palavras eram tão claras para ele, metáfora era um exemplo, uma hipótese, um jeito mais delicado de dizer coisas não muito agradáveis. “Metaforicamente falando, se sua mulher estiver dormindo com outro você matava ela?” era muito mais gentil do que entrar direto no assunto, sem preparar o outro, algo do tipo “Se sua mulher dormir com outro…”. O ‘metaforicamente’ amenizava, mostrava que não era real, era apenas um… uma.. sei lá, um jeito de dizer não dizendo, como aquela buzinadinha leve que se dá atrás do carro que ainda não arrancou depois que o sinal ficou verde, para o outro entender que foi só uma aviso e não uma exigência… para não irritar o da frente… e foi-se até a madrugada pensando, cogitando, interpretando, até ser vencido pelo sono.

Quando acordou foi direto para o Google e leu o significado da palavra metáfora. Atordoado, sentou diante de Julia que lia o jornal de domingo tomando o café e disse:

– Meu Deus, Julia, eu sou um imbecil.

– E você quer que eu discorde?

– Eu sou um completo imbecil!

– Completo não, querido.

– E a culpa é sua!

– Minha? Ué? Eu tenho culpa de você ser meio imbecil?

– Claro! Por que você nunca me avisou?

– Nunca avisei o que, Fredi? Será que não posso tomar o café em paz nem no domingo? O que foi que não avisei?

– Que durante a vida inteira, em vez de explicar a realidade através de metáforas, tenho explicado as metáforas através da realidade?

– Como é que é?

– Sim, a culpa é sua. Você deveria ter me aviso que eu uso o meu metaforicamente falando do jeito errado. Que metáfora não é nada disto que eu falo…

– Ô Fredi, e eu sei lá o que você fala ou diz? Depois de quinze anos de casados você quer que eu me preocupe com isso?

– Metaforicamente falando, Julia, você não me ama mais.

– Tá bom, Fredi, pega aí o caderno de esportes, toma teu café que eu vou tomar banho.

E ele obedeceu, não sem pensar que obedecia, mas metaforicamente falando.

 

 

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One Comment

Deixe um Comentário
  1. Dinah T / Jul 13 2016 2:34

    Como se chama aquele que acha a agulha no palheiro mesmo quando não procura por ela? Sortudo? Inadvertido? Predestinado? Não sei, mas metáforas à parte, o texto é uma jóia.

    Gostar

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