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25/08/2013 / Paulo Wainberg

Olhares

Consegui chegar no setor de internação, o que não e pouca coisa, sabe-se que a maioria das pessoas é barrada no momento de receber o crachá.

Lá, a gentil moça forneceu calhamaços para assinar e antes do final, informou que meu plano de saúde cobria tais e quais procedimentos mediante a utilização de tais e quais instrumentos, médico, anestesista, sala de cirurgia e etc, além de cinco noites com acompanhante.

Imediatamente perguntei qual era a forma de escolha.

– Como? – Indagou ela.

– Como escolho a acompanhante? É por catálogo de fotos, vídeo ou desfile ao vivo?

O olhar dela não foi, sinceramente, bom para mim.

Já na sala de cirurgia, antes de começar, declarei ao anestesista e ao médico que gostaria que a operação fosse feita sem anestesia, o cirurgião havia feito tanto tanto elogio aos recursos cirúrgicos que manifestei interesse em assistir sua técnica operatória.

O olhar dele não foi, sinceramente, bom para mim.

Então pedi encarecidamente que não esquecessem de me acordar.

Já na UTI, depois de uma cinco horas, informe à enfermeira que sim, já tinha feito a porra do xixi que eles vinham me perguntar, de quinze em quinze minutos se eu não queria fazer.

Preso ao meu braço esquerdo, em inúmeros buracos venosos, a maior rede de fiação que já vi na vida, uma verdadeira usina elétrica cujos terminais produziam ruídos incessantes, ding-dongs de elevadores chegando, partindo, alarmes de incêndio e um bip-bip infernal que apenas no dia seguinte fiquei sabendo indicar as batidas do meu doce coração.

O pior de tudo era uma espécie de dedal colocado no meu indicador direito que, com o tempo, ia enterrando as ranhuras na pele provocando a agradável sensação de desconforto carnal, como se ela estivesse sendo penetrada por agulhas do Diabo, mal doía mas não deixava esquecer.

Foi lá, na UTI, que pela primeira vez experimentei uma sopa de água.

Dia seguinte, rumo ao quarto, as duas enfermeiras que me conduziam, na maca, pelo corredores sombriamente iluminados do nosocômio, pareciam disputar uma maratona ou uma corrida de fórmula Um, tanto corriam as desgraçadas, fazendo curvas fechadas até travar, sem seco e sem freio ABS, diante da porta de um elevador que, simplesmente não chegava e quando chegou, simplesmente não descia, ou subia, agora não lembro, até que dias depois a porta se abriu e fui conduzido, a jato, para meu quarto, meu querido leito de hospital onde me aguardavam com festa, alegria, preocupação e, ai de mim, nenhum uísque, nenhum cigarro.

Mil visitas, dois mil telefonemas, o sono me torturava porque não me deixavam dormir, conheci umas doze enfermeiras de plantão e juro, durante o tempo em que lá estive, não houve uma única repetição de enfermeira, o que me impediu de iniciar um relacionamento sério, estável ou no mínimo amigável com alguma delas.

Confesso, aliás, que nem estava a fim.

Dia seguinte, a alta.

E é como me sinto, em alta.

Minha última declaração, sentado na cadeira de rodas (sim, paciente não sai caminhando, sai em cadeira de rodas) foi para um conhecido que, ao me ver na porta do hospital esperando o carro, perguntou o que havia acontecido, o que eu fazia ali?

Respondi:

– Nada demais, já estou indo para casa. Fiz uma extração da carótida direita.

O olhar dele, sinceramente, não foi bom para mim.

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