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19/08/2013 / Paulo Wainberg

No Céu

Haroldo morreu e subiu. Lá foi recebido por São Pedro que lhe abriu as portas e informou:

– Antes de ser aceito aqui, o Homem quer falar com você.

– Quem?

– O Homem, meu filho, o Cara, il Capo.

– Jesus?

– Jesus? Jesus é muito ocupado, meu filho.

– Quem, então?

– Quer que eu desenhe?

Com o coração de sua alma aos pulos, Haroldo caminhou por uma alameda de cascalho, estranhando que, mesmo de pés descalços, não lhe doíam os pés.

Caminhou durante uns cinco minutos e viu-se diante de uma porta monumental, enfeitada com arabescos representativos dos Sumérios, Babilônicos, Gregos, Romanos, Clássicos, Renascentistas, Barrocos, Rococós, Românticos, Modernos, Pós-Modernos e outros inidentificáveis, provavelmente representativos de outros movimentos artísticos e arquitetônicos que a Humanidade ainda não havia descoberto.

Como por milagre a porta abriu-se sozinha. Haroldo entrou num pequeno gabinete onde um Velho de Barbas Longas jogava free-cell num notebook.

– Sente-se, disse o Velho de Barbas. Espere um pouco, acho que vou conseguir fechar o jogo e isto sim será um milagre, em cada dez, perco oito.

Haroldo sentou numa cadeira, diante da escrivaninha do Velho de Barbas, e cruzou as pernas de alma e sentiu, maravilhado, que a perna de cima entrava maciamente na perna de baixo.

Olhou ao redor e ficou impressionado com a simplicidade do lugar. Ainda pensou, antes de ser interrompido, que o Velho de Barbas deveria ser um querubim fazendo-se passar por Ele, Deus, o Cara.

– Consegui – exclamou o Velho de  Barbas – e Haroldo viu o rosto Dele iluminar-se. – Ok, meu filho, o que você deseja?

– Eu?

– Sim, você! Quer que Eu desenhe?

– Não, não precisa. Acho que morri e agora quero morar no Céu.

– Depois de comer a mulher do seu amigo?

– …

– Depois de negar ajuda aos pedintes das sinaleiras e das calçadas?

– …

– Depois de enganar seu chefe roubando mais da metade dos clipes da gaveta dele?

– …

– Depois de invejar o carro novo do seu vizinho? E de tantas outras coisas erradas e bobagens que cometeu na vida, como comprar a casa nova sem ter dinheiro para pagar as prestações?

– …

– O que você tem a dizer, Meu filho, acha que merece ficar aqui?

– O senhor sabe jogar Spider?

– Spider? Este outro jogo que aparece no programa Jogos do notebook? Não, Eu nunca tive coragem de abrir. Passo tanto trabalho com o Free cell que o Spider Me parece uma missão impossível.

– Posso ensinar ao Senhor, Senhor.

– Verdade?

– Sim. Sou praticamente um campeão de Spider.

O Velho de Barbas cofiou Suas barbas, enrugou Sua testa, refletiu alguns minutos, enquanto a alma de Haroldo suava frio.

– Me mostra – disse o Velho de Barbas, virando o notebook para Haroldo.

– O Senhor tem que sentar ao meu lado…

– Esqueceu que Eu tudo vejo? Não preciso sentar ao seu lado, Estou vendo perfeitamente a área de trabalho.

E foi assim que a alma de Haroldo foi admitida.

Após passar boa parte da Eternidade disputando corridas de automóvel, boobles, batalha de tanques e outros jogos com o Velho de Barbas, um dia Haroldo perguntou:

– Senhor, enjoei um pouco desses jogos. Não há outras coisas para fazer, aqui no Céu

– Céu? Quem disse que você está no Céu?

– Não estou?

Quando, olhando bem para o Velho de Barbas, viu a ponta dos chifres na cabeça Dele,

a alma de Haroldo transformou-se em geleia e praticamente não ouviu a fúnebre gargalhada do Velho de Barbas.

 

 

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