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13/08/2013 / Paulo Wainberg

Agente

Pelo olhar do agente federal, Haroldo sentiu que havia algo errado.

Diante do guichê, apresentou o passaporte antes de embarcar no voo para Roma, o agente examinou, consultou o computador e lançou o olhar arrepiante que, de tão arrepiante, arrepiou Haroldo.

– Um momento, senhor – disse o agente.

Nem terminou a frase e dois policiais seguraram Haroldo pelos braços e pediram:

– Venha conosco, senhor, sem escândalos por favor.

– O que houve, o que está acontecendo?

– Apenas nos acompanhe.

Haroldo sentiu seus braços mais apertados pelas mãos dos policiais e resolveu segui-los. Ainda tentou:

– Vou perder meu voo…

Mas já era conduzido pelo interior misterioso do aeroporto e foi depositado numa sala pequena e bem iluminada, onde havia uma mesa e duas cadeiras.

– Sente aí – ordenou um policial. E saiu, trancando a porta.

Haroldo era um simples professor de História numa escola pública e a muito custo juntara dinheiro para conhecer Roma, a cidade dos seus sonhos onde, conforme pensava, a História moderna da Humanidade, realmente começara. Jamais tivera problemas com a polícia, era um homem pacato que levava uma vida simples e sem confusões. O que estaria acontecendo agora?

Pela primeira vez, uma ponta de medo apareceu.

Poucos minutos depois, dois homens jovens, bem vestidos e ar amigável entraram na sala. Um deles segurava o passaporte de Haroldo e o outro uma pasta, uma espécie de dossiê.

Um deles sentou diante de Haroldo e o outro permaneceu em pé.

– Diga seu nome completo, endereço, profissão, nomes de familiares, número de CPF e de carteira de identidade.

Haroldo respondeu às perguntas mas não sabia de cor o número da carteira de identidade. Quando pôs a mão no bolso para pegar o documento, o homem em pé apontou-lhe um revólver que surgiu na sua mão sem que Haroldo pudesse perceber de onde ela viera.

– Devagar, senhor, o que há no seu bolso?

– Minha carteira de identidade, nunca decorei o número dela.

– É porque possui várias, não é?

– Não, possuo apenas esta, olha aqui.

Nesse momento Haroldo estava completamente apavorado.

– O que está acontecendo? – perguntou.

O homem sentado abriu a pasta e mostrou uma foto onde Haroldo aparecia conversando com outros dois homens.

Haroldo nunca tinha visto aqueles homens, mas a foto era dele, ele se reconheceu nela.

O homem mostrou outra foto onde Haroldo, numa mesa de bar, passava um papel dobrado para uma linda mulher sentada à sua frente.

Haroldo nunca havia visto aquela mulher antes. Mas a foto era dele.

Os agentes olhavam fixamente para ele.

– De onde conhece essas pessoas?

– Não conheço, nunca vi essa gente.

– Mas é você nas duas fotos.

– Sim, mas não entendo…

– Chega de conversa Klaus. Sim, você é Klaus, o terrorista mais procurado do mundo.

– Como é que é?

De repente três homens encapuçados invadiram a sala disparando contra os agentes. Pegaram Haroldo, puseram um capuz sobre a cabeça dele e o arrastaram para fora do aeroporto, atirando para todos os lados, ferindo e matando algumas pessoas que atrapalhavam a fuga.

Haroldo foi empurrado para dentro de uma camionete e nunca mais se soube dele.

Dois anos após Clarinha, que já estava conformada com o sumiço do marido e, inclusive, estava de olho num corretor de seguros que conhecera numa balada, saía do banho quando tocaram a campainha.

Vestiu o chambre e abriu a porta. Diante dela, um homem de sobretudo e chapéu, apesar do calor, com uma enorme cicatriz na bochecha esquerda, perguntou:

– A senhora é Clarinha, mulher de Haroldo?

– Sim.

– Isto é para a senhora.- E entregou um envelope tamanho ofício e, antes que ela percebesse, sumiu.

Com mãos trêmulas, Clarinha abriu o envelope onde havia uma carta:

“Meu amor.

Desculpe ter desaparecido, mas coisas importantes aconteceram. Você tem uma conta na Suíça cujo banco e número estão guardados no guarda-malas número 136 do aeroporto, cuja chave você vai encontrar na lanchonete que fica à direita da livraria. Pergunte por Cibele e diga a ela: Ter dois olhos é melhor do que não ter. Esta é a senha. Quando ela lhe der a chave, vá direto ao guarda-malas e pegue o envelope que está lá. Não abra, repito, NÃO ABRA o envelope no aeroporto. Faça isto em casa, no banheiro, embaixo do box do chuveiro onde tantos banhos tomamos juntos (saudades), único local da casa que não está monitorado. A propósito, esse corretor de seguros não serve para você, entendeu?

Ninguém, repito, NINGUÉM entrará em contato com você sem dizer antes: é da parte de Klaus. Se não disser, não receba e não acredite no que lhe disserem. Se isto acontecer, fuja para a casa de sua mãe (saudades dela, também).

Não aceite caronas e tome cuidado com anões e mancos. Eles podem estar de olho em você.

Morro de saudades, amo você não sei até quando. Não me traia. Beijos, Haroldo.”

 

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